Terceiro romance do escritor paranaense e vencedor do Jabuti Oscar Nakasato, Ojiichan, que em japonês significa "vovô", retrata a vida de Satoshi a partir do seu aniversário de setenta anos. A aposentadoria compulsória do colégio onde ele lecionou por décadas é o primeiro dos eventos que o obrigam a confrontar as muitas faces da velhice. Seus colegas preparam uma festa de despedida e os alunos, que carinhosamente o apelidaram de Satossauro, prestam homenagem ao professor. Preocupados em celebrar o merecido descanso após uma vida de trabalho, ninguém ao redor parece enxergar a dor de Satoshi em deixar a rotina e dar início a uma nova fase. Em casa, as coisas não estão muito melhores. A perda de memória de Kimiko, sua esposa, vai se agravando, e os cuidados com ela recaem sobre ele, sobretudo depois que uma tragédia acomete a filha do casal. Com o outro filho vivendo no Japão e o neto ausente, Satoshi experimenta, de modo estoico, os primeiros sinais da solidão, que só pioram quando ele é obrigado a se mudar para um apartamento menor e se despedir de Peri, seu cachorro. No novo prédio onde passa a morar, a solidão de Satoshi dá as mãos à de d. Estela e Altair, seus vizinhos, cuja história de vida o protagonista descobre aos poucos. Com a coragem de representar o desamparo em toda sua crueldade, porém avesso a melodramas, Oscar Nakasato toca em pontos sensíveis da sociedade brasileira e provoca a reflexão ao desafiar o final trágico que parece se quando Satoshi contrata Akemi como cuidadora de sua esposa, sua vida particular ganha novos contornos e a configuração do cotidiano e da família se alteram de modo inusitado. Em sua prosa a um só tempo austera e atenta aos detalhes, tão característica da cultura japonesa na qual Nakasato cresceu, Ojiichan mostra que a terceira idade não é a linha de chegada, mas um caminho a ser trilhado, e transborda a beleza e a serenidade necessárias a um mundo ocidental de supervalorização da juventude e da velocidade.
Nascido em 1963, Oscar Fussato Nakasato é neto de imigrantes japoneses. Seus avós (paternos e maternos) se instalaram em fazendas de café no interior de São Paulo para trabalharem como colonos, na esperança de enriquecerem e retornarem ao Japão. Desfeito o sonho de voltar ao país natal, a família Nakasato migrou para o interior do Paraná, onde adquiriu um sítio. Preocupados com a educação escolar dos filhos, seus pais transferiram-se para Maringá. Nakasato cursou Direito por dois anos e meio na Universidade Estadual de Maringá, mas trocou esse curso pelo de Letras, na mesma instituição. Fez mestrado e depois doutorado em Teoria da Literatura e Literatura Comparada na Universidade Estadual Paulista, campus de Assis. Hoje é professor de Literatura e Linguagem no Ensino Médio e também no Superior, na Universidade Tecnológica Federal do Paraná, campus de Apucarana. É casado e pai de dois filhos. Em 1999 foi premiado com os contos “Alô” e “Olhos de Peri” no Festival Universitário de Literatura, promovido pela Xerox do Brasil e Editora Cone Sul. Em 2003 venceu o Concurso Literário da Secretaria de Estado da Cultura do Paraná, edição 2003, Prêmio Especial Paraná, com o conto “Menino na árvore”. Nihonjin, seu romance de estreia, venceu o 1º Prêmio Benvirá de Literatura.
Ojjichan, do escritor brasileiro Oscar Nakasato, neto de japoneses, se alinha de maneira muito bela, sutil e elegante à tradição de uma série de outros títulos da literatura japonesa. Digo isso pensando em como a simplicidade de sua narrativa flui pelas páginas em nossas mãos deixando com que o tempo de cada leitor/a assente as reflexões presentes nos meses que acompanhamos a vida do recém aposentado professor de biologia, Satoshi. A velhice, um dos principais temas do romance, é inscrita no texto de Nakasato como um enquadramento de onde se observa a partida e a permanência de amizades e familiares. Quem se mantém neste plano da existência, o que faz de seus dias? É assim, portanto, que este me parece ser um livro para se ler com calma, sem a pressa de quem quer contabilizar mais um volume em sua lista de leitura.
ojiichan foi, pra mim, uma leitura tão gostosa. é tudo muito cotidiano e tudo narrado com muita leveza e de um jeito muito natural. é muito gostoso também se identificar com questões e elementos da cultura nipo-brasileira, que sempre foram muito marcantes no livro. foi uma leitura leve e gostosa.
algumas coisas no enredo não se sustentam muito, mas foi enriquecedor acompanhar o envelhecimento de um homem já idoso. o narrador parece distante do protagonista, e suas descrições excessivas parecem querer preencher uma lacuna promovida por essa distância
"Ojiichan" é um pequeno livro de grande impacto, repleto de entrelinhas que contam. É o segundo livro do escritor Oscar Nakasato que leio. Meu primeiro, "Nihonjin", foi o que o levou ao Prêmio Jabuti, de ficção em 2012, um dos mais importantes prêmios literários do país. Reconhecimento merecido. O novo livro foi escolhido para discussão em novembro, pelo meu grupo de leitura, e teve, coisa rara, 100% de aprovação. Todos os membros ficaram encantados. "Ojiichan", que em japonês quer dizer avô, abre a narrativa no dia 8 de julho de 2014, onde coisas importantes acontecem na vida de Satoshi, o brasileiro morador do Paraná, que completa setenta anos naquele dia. Por isso mesmo, ele se despede da escola onde passou as últimas décadas como professor, vítima das regras da aposentadoria compulsória pela idade. Sente-se ainda cheio de vida, com muito a dar, apto a continuar ensinando. Mas não consegue nenhum jeitinho de permanecer na ativa. Nesse mesmo dia ele tem outra surpresa. Tampouco boa. Não costumava apostar em futebol, mas antes da final da Copa do Mundo, induzido pelo constrangimento de ter dito que achava que a Alemanha poderia ganhar o campeonato, acaba fazendo a aposta contrária e vê, com surpresa, o resultado do jogo Brasil-Alemanha, confirmando sua suspeita, quando o time da casa perde de goleada. É um reflexo perfeito do que Satoshi sente dentro de si. Ainda nos momentos iniciais do acompanhamos sua viagem, de retorno da cidade de São Paulo, uma viagem de pêsames à irmã, viúva recente. Mas ao chegar em casa descobre que a jabuticabeira que havia plantado no jardim, há mais de trinta anos, havia sido derrubada, a mando de Cecilia, sua filha. Estranha o jardim sem a árvore, sem o aconchego e o prazer que ela lhe dava. Assim é, então, o marcante começo de uma nova etapa na vida do professor. A frase que abre o livro é sucinta, mas nos dá o conteúdo inteiro do que presenciamos. Ela introduz de maneira direta e simples o dilema de Satoshi: "Um homem está velho quando não consideram mais a sua opinião."
As perdas de Satoshi não se limitam aos acontecimentos narrados acima. Sua mulher, companheira de vida, sofre, há tempos, de demência, perdendo significativamente a memória. Com esse vácuo, vão-se os momentos de companheirismo do casal, as referências mais íntimas. E ainda, mais adiante, Satoshi perde inesperadamente a filha, Cecília, que havia se dedicado a cuidar da mãe doente. Essa é a perda que o faz forçosamente reestruturar a vida. Novos rumos, inesperados, o levam a sair de casa e mudar-se para um apartamento, o primeiro de sua vida, um lugar apertado, para onde não consegue levar nem mesmo seu cachorrinho Peri. Em um pequeno espaço de tempo, tudo que conheceu, tudo para o qual trabalhou, se desfaz. Uma nova vida, nascida a fórceps, com diferentes estruturas, surge. Satoshi aprende à medida que ela se desencadeia.
Apesar da série de reveses que poderiam contribuir para tornar a velhice, suas perdas naturais ou acidentais em um texto pesado ou melancólico, temos, em seu lugar, uma narrativa meditativa, delicada, tão contida quanto seu personagem principal e pontuada por realizações bem elaboradas que leitores leem mais de uma vez e sublinham e marcam: "o tempo trapaceia, encolhendo-se ou se dilatando sem a permissão do homem." [61] ou "a sexta-feira vale, principalmente, pela expectativa que se cria com relação ao sábado." [140]. Oscar Nakasato presenteia o leitor com um livro, de meras cento e sessenta e oito páginas, repleto de ponderações perspicazes ao nos mostrar a paulatina adaptação de Satoshi à nova vida, descobrindo a pluralidade das maneiras de viver que percebe à sua volta. Ele consegue preservar a seriedade e dignidade que lhes eram naturais, ainda que surpreenda o leitor a cada virada da nova vida, tomando caminhos nem sempre esperados. Há neste homem um delicioso assombro ao se deparar com pessoas distintas e verdadeiro desejo, ainda que sutil, de se adaptar a circunstâncias que não imaginara ao talhar sua existência. A chegada ao condomínio, onde dois terços do livro se passa, é marcada por esse momento em que ao abrir a janela ele se depara com a vida de outros, de vizinhos que se ocupam de maneira variada e ainda assim familiar ao que o rodeia. "Satoshi foi à janela aproveitar a última claridade do dia e observar mais uma vez o condomínio. Sentia-se um pouco constrangido em adentrar os apartamentos da torre Flamboyant através das janelas e das cortinas descerradas" [73] E por vezes, em sua demência, Kimiko, a esposa que parece não ter um pé na realidade, ecoa de maneira direta aquilo que Satoshi, não chega a expressar, mas que sabemos ser próximo do que sente, como quando ela pergunta: "Onde é aqui?" [73], logo após o casal se mudar.
Para os que estão familiarizados com a literatura brasileira, este é um livro repleto de menções abertas e discretos acenos literários. Alguns autores são citados claramente, às vezes acompanhados pelos títulos de suas obras: José de Alencar, Machado de Assis, Milton Hatoum, Raduan Nassar foram semeados através da narrativa. Ocasionalmente referências vêm indiretamente como nos nomes daqueles que rodeiam Satoshi: a filha Cecília e o cachorrinho Peri, saídos diretamente de O Guarani de Alencar. Aurélia outra heroína do mesmo autor, do livro Senhora é mencionada abertamente. Outras alusões são bem mais discretas quando, por exemplo, parafraseia o poeta Ferreira Gullar: “…e fantasiava a vida porque a realidade não lhe bastava.” [159]. Essa riqueza de texto aparece também em ligeiras sugestões culturais, como na cena em que Suzana sai do banho enrolada numa toalha, na ocasião em que Satoshi aparece para uma de suas visitas regulares. Essa é uma referência indireta a passagem bíblica do Livro de Daniel, comumente conhecida comp “Suzana e os anciãos’, cena fartamente retratada na arte ocidental por Tintoretto, Rembrandt, Rubens e outros. Essas menções culturais, brasileiras ou universais, enraízam a obra no seu meio cultural, dando riqueza ao texto e prazer a quem o lê. Esses detalhes, essas insinuações, andam ausentes na literatura contemporânea das listas dos mais vendidos, mas são um bálsamo que regala a leitura cuidadosa, traz sorrisos de reconhecimento aos lábios do leitor, comunhão com o escritor e ainda alerta para a conexão das coisas, para o elo invisível que delineia o perfil da cultura retratada.
É difícil dar ideia da enormidade de temas, descrições, ponderações que esta leitora sublinhou, marcou, escreveu, anotou. De muitas, deixo aqui a deliciosa descrição que Altair, um vizinho de Satoshi, faz sobre o jogo de xadrez: "O peão precisa ter uma paciência maior que os outros, dizia meu pai. Ele poderia, um dia, mudar sua condição humilde, mas deveria dar seus passos com muito cuidado. E todos tinham regras a cumprir. Não se via no tabuleiro uma torre traçando a sua vida por um caminho diagonal, nem um cavalo seguindo em linha reta. A rainha era poderosa, seus privilégios não eram contestados." [103]. E dessa maneira, com amigos que nunca pensou fazer, mesmo mantendo muitos de seus hábitos e rituais, como continuar a jogar gateball com antigos amigos aposentados, Satoshi renasce, adaptado às novas circunstâncias. É uma nova vida. Ele passa a observar com maior cuidado o seu redor, aqueles e aquilo que o rodeia e pondera: "Mas não é assim o amor, uma reinvenção a cada abraço?" [94] A velhice para Satoshi trouxe limitações inesperadas, mas o mundo também se ampliou, e há luz naquele horizonte descoberto. Esse é um livro que nos deixa esperançosos. Que nos tira dúvidas, eleva pensamentos, satisfaz. Leia. É ótima literatura. Literatura com letra maiúscula.
definitivamente o meu tipo favorito de livro: bem escrito que apenas narra pessoas vivendo suas vidas e se desenvolvendo. é a primeira vez que leio um livro com um protagonista idoso e foi uma chance de refletir muito sobre o que é envelhecer
é uma escrita bem crua, eu esperava gostar mais, a história é mais pautada em acontecimentos do que em significados e tudo bem, é coisa de estilo, mas li bem desapegadamente. fala sobre velhice, situa ela em posições diferentes, visões diferentes, é sempre bom poder ler e pensar sobre isso, se tudo der certo é o futuro de todos nós, envelhecer e ter que se ressignificar num mundo que parece não ter muito espaço para idosos. o final não me convenceu muito, a cena que ele fala sobre o 7x1 foi muito estranha de ler, achei engraçado ele escolher essa data pro aniversário do personagem, esse dia e esse acontecimento me parecem tão distantes e desconectados da realidade, eu não lembro do que eu senti enquanto assistia o jogo porque muita coisa pior aconteceu depois, a seleção brasileira deixou de ser relevante e ao mesmo tempo não foi a maior tragédia na história recente do nosso país. o livro tem bastante tragédias, também, acho que senti falta de uma emoção/reação maior em relação a elas, mas entendo que possa ser a forma do autor de interpretar o mundo.
“A amizade consolidada encorajou Estela a fazer um pedido inusitado a Satoshi. Disse que era uma mulher solitária, embora tivesse uma filha e um neto carinhosos. Eles tinham lá as suas vidas. os seus interesses e não lhes sobrava muito tempo para fazer companhia a uma velha esquisita, que, muitas vezes, não tinha mais assunto para conversar com os jovens. O passado parecia não interessar a eles, principalmente ao neto, envolvido com as novas tecnologias e o que elas lhe proporcionavam. Não, não estava reclamando. Se eles não tinham muita paciência para ouvir suas histórias pretéritas, ela não tinha mais disposição para aprender algo que a preparasse para os desafios do presente ou do futuro”.
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A maneira como o autor tangencia os temas da velhice é muito linda. A leitura, apesar de acompanhar a figura central de Satoshi, consegue explorar os diferentes personagens que acompanham Satoshi em sua aposentaria. Surpreende e emociona nos momentos certos.
First time reading Nakasato, and it didn't disappoint. This felt very close to home – gentle yet bittersweet. In every character and every story, I saw someone I know. It's the story of many Nikkei families in Brazil. Will definetly be reading more of his work!
livro excelente, cozy, familiar, que fala do futuro de muitos de nós com a diferença de serem de uma cultura diferente da minha. tem bastante momentos de tristeza, tem surpresa e apesar disso, é bastante confortável de ler.
LOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOKO DEMAIS LINDO DEMAIS TRISTE DEMAIS COM SAFADEZA DEMAIS. SIMPLÃO POÉTICÃO AU AU TODO MUNDO CHORA TODO MUNDO VIVE. AMEI DEMAIS.