"[...] Sempre que vem o medo, aquele medão de me tremer as pernas, io solita na madrugada, fico fazendo carinho na cicatriz lembrando tudo o que eu sobrevivi. Viver é trópo perigoso."
Em 2021, quando as primeiras páginas de Neca, ainda bem mati, foram publicadas pela O Sexo da Palavra, já era possível imaginar o acontecimento que seria sua versão final. Nesse ano, Neca, já odara, é ainda mais provocativo e subversivo. Seguindo a proposta de "Grande Sertão: Veredas" (um monólogo não linear, um interlocutor oculto no texto e uma série de causos), Amara desloca a interlocução no sertão roseano para outras veredas, não mais aquelas do norte de Minas mas as de becos e esquinas de grandes centros urbanos. A narradora troca o aviso de "nonada" pelo choque de "passada!".
A oralidade, o iorubá, a mistura de línguas românticas e uma amplidão de neologismos, marcam uma prosa em pajubá que desnorteia o leitor alheio ao universo travesti, tão perto mas tão distante. Não há glossários e explicações, porém, como dito por Simona: "Só ficar aqui por um tempo e cê já vai catando". De fato, pouco a pouco o leitor se familiariza, ou ao menos tem a impressão que isso ocorre, e a prosa fica cada vez mais gostosa (e escatológica).
Destaca-se também a ausência de um puritanismo e de um tom exageradamente educativo que contamina a literatura brasileira contemporânea. Em "Neca", os clássicos da literatura brasileira não são apresentados com a mesma formalidade e chatice escolar. A bocuda da Máry Cona de Andrade, a enrustida da Fernanda People ou a CDzinha de Azevedo são inclusive mais interessantes aqui do que quando são apresentadas em contextos heteronormativamente acadêmicos. A língua, a cultura e as referências de Simona são callejeras, é uma mescla de causos, apertos, violências e reflexões sobre a trópo peligrosidade que é viver em tal contexto.
A partir da experimentação linguística, subversão de clássicos e uma narrativa marcada por experiências coletivas comuns no espaço da prostituição, Amara Moira provoca quem tem que ser provocado e constrói uma novela que definitivamente já entra nos edís da literatura brasileira.