O Sono Delas é um livro de contos sobre mulheres, insónias e tudo o que nos tira o sono: amores falhados, culpas antigas, expectativas, medos e até o simples ato de existirmos num mundo que exige demasiado de nós. Cada autora traz o seu olhar, o seu ritmo e o seu tipo de inquietação. Uns contos fizeram-me rir, outros fizeram-me pensar, e há os que nos tocam mais fundo, mesmo quando parecem leves.
Na calada da noite, e depois de ler cada conto, deixo aqui um parágrafo (ou dois, porque tenho a mania que sei escrever) sobre o que pensei de cada um deles:
Primeiro conto: Manuela não dorme há treze anos, vive um casamento à beira do colapso e sonha (acordada) em matar o animal do marido. Um conto com a escrita leve, irónica e fugaz a que Filipa Fonseca Silva já nos habituou. Fica a dica: para dormir melhor, mais vale largar as bestas quadradas dos maridos, eles não valem o suficiente para nos tirarem o sono. Na dúvida, eu cá faria isso mesmo.
Segundo conto: O segundo conto é uma história sobre reconciliação. Maria Eduarda fala sobre teorias da gelatina, sobre a lei da atração e sobre como nos vemos a nós próprios, e como isso pode impactar o que atraímos no mundo. Crente ou não, por vezes somos nós próprios os nossos principais inimigos, e acabamos por atrair toda a negatividade que o mundo traz ou será mero acaso? Este conto é muito mais do que noites mal dormidas: é uma libertação das amarras do preconceito, um convite a amar-nos a nós próprios, com as nossas peculiaridades, e a deixar que a nossa “gelatina” crie mais espaço para o outro.
Terceiro conto: É talvez o conto de que menos gostei. Entre memórias escritas com medo de serem esquecidas pela exaustão e pela falta de sono, Ana vê a sua vida mudar e finalmente a resolver-se, quando decide fazer uma exposição fotográfica com a filha dos seus vizinhos. Uma troca de lugares, de gerações, de memórias… talvez uma história mais real e mais institucional, mas à qual lhe falta qualquer coisa...
Quarto conto: Gosto muito da escrita da Maria Isaac, por isso serei suspeito ao falar deste conto. É surpreendente como, meia dúzia de páginas, queremos saber mais mais pormenores, mais certezas, mais curiosidade sobre o mundo criado à volta das personagens que Maria nos trouxe. Fiquei ainda mais surpreendido com o pequeno plot twist que o conto apresenta. Embora haja noites mal dormidas e batalhas travadas na calada da noite, há sempre esperança de algo melhor na manhã seguinte… Maria Isaac prova que até da noite nasce esperança.
Quinto conto: Emília, dona do seu nariz, obstinada, confiante, um furacão de dia, mas refém das sombras à noite. Aqui o tema não é novidade: mais uma mulher que sucumbe a noites mal dormidas, fruto de um passado intenso, onde lutou por um lugar, por um nome, por um legado, abdicando do sono. Agora vive entre sombras, a contar as horas até o sono chegar. Gostei da escrita, gostei do conto e queria saber mais do seu passado; deixou-me tão curioso quanto atento às migalhas que a autora ia deixando.
No fim, O Sono Delas é sobre isso mesmo: as mulheres que enfrentam o mundo com os olhos cansados mas o coração desperto e pronto. Cada conto é uma insónia transformada em reflexão e talvez, no fim, o verdadeiro descanso esteja em nos vermos espelhados nestas páginas, sejamos homens ou mulheres...