O teu nascimento separa-te ao mesmo tempo da tua mãe, que também é menina, isso é sabido, e de toda a humanidade que não carrega o nome de menina. A outra palavra não é pronunciada, e com razão, mas paira silenciosa no éter do quarto, a palavra oposta põe no ar um efeito de estêncil, um embrião, um feto, um bebé, até aqui, o género estava do lado dele.
Menina, nome feminino! é um livro bem intencionado, com uma autora capaz, mas que falha quando se afasta da sua delimitação comercial, e de um público-alvo pré-determinado (do qual descobri não fazer parte) — embora possamos argumentar que esse é um apanágio de qualquer livro.
Nos moldes de O'Farrell (e vou repetir O'Farrell várias vezes nesta review), Laurens é uma escritora exemplar que domina o uso da palavra e o efeito da escrita e que, tal como a anterior, se posiciona numa área muito específica da literatura contemporânea feminina. E isto é importante, não só porque é fundamental neste momento reconhecer o poder da voz feminina, e o direito a essa voz, mas também porque as narrativas assentes exclusivamente em imperativos biológicos pré-determinados são narrativas que podem ser excludentes, e acabar por entrincheirar um livro nos limites de um universo muito específico e temporalmente balizado.
Desta forma, qualquer leitor que recuse a hipérbole maternal, que ocorre tanto em O'Farrell como em Laurens, corre o risco de ser alienado pelo seu discurso, o que torna difícil o processo de assimilação (e não falamos necessariamente de empatia, até porque a empatia presume que nos coloquemos no lugar do outro, apesar da sua dissemelhança).
Da qualquer forma, Laurens é senhora de uma escrita escorreita, precisa e nítida. E Menina, nome feminino! tem, parece-me, um foco definido — apesar de a narrativa voltar subrepticiamente ao mesmo ponto. A voz da sua narradora, embora colada a um determinado tempo e espaço, e virtualmente inalterável ao longo da narrativa (porquê?), é, ainda assim, eficaz a captar os matizes de um relato que se pretende inescapável, e o valor da sua experiência é decalcado da realidade, deixando pouco espaço à crítica, apesar de algumas opções de escapismo estranhas (é a infância, por isso perdoa-se).
Acrescente-se que o uso da linguagem como recurso de violência simbólica contra as mulheres é poderosíssimo nesta obra. Laurens sabe exatamente como denunciar a identidade feminina enquanto constructo linguístico:
Cabra. A palavra regressa para a assombrar. É um insulto. E também um substantivo feminino. Tudo o que é feminino dececiona, desagrada, agora, sabe-o bem. Aplicada ao género, a palavra torna-se má.
Onde lhe encontro um maior problema é na estrutura bipartida que deve acolher o arco da narrativa: uma primeira parte com um tom mais sombrio e solitário, muito próximo do confessionário e do romance de formação; e uma segunda parte que, dada a intensidade atribuída à dimensão da maternidade, lhe acrescenta um cunho de inquietude e alienação, mas sem resolver a melancolia e insegurança da juventude — resultando numa opção desajustada numa narrativa assim curta. Ao truncar uma fatia de tempo essencial da vida da sua protagonista e do seu desenvolvimento psicológico, deixando de fora vida profissional, amorosa etc, para se focar exclusivamente na responsabilidade inerente à experiência vinculativa da maternidade, Laurens cai na armadilha da lacuna temporal. Deixando em branco o espaço de tempo entre o trauma pessoal e a expectativa em relação a uma próxima geração incorre, inadvertidamente, numa apologia de catarse através da maternidade, e num manifesto das expectativas em relação à "boa mãe" que não correspondem à realidade, e que não podem ser o objetivo pretendido deste livro. A esse nível, Menina, nome feminino! não resultou comigo.
Apesar disso, as reflexões de Laurens (ou da sua narradora) sobre género são inultrapassáveis e condensam a experiência feminina (e o seu simbolismo) como poucas outras obras de que tenha conhecimento. Além do mais, fora Shelley, Gilman ou Jackson, não muitas escritoras canónicas abordaram, em obras de ficção, o tema da maternidade e a sua relação com as expectativas e inquietudes face à descendência feminina. Nesse sentido, Laurens — como também O'Farrell, Angelou, Atwood etc — contribuem para um continuum literário essencial.
E é aqui que me disperso um pouco e me torno criativa — se quiser ser generosa posso, agora que a leitura já teve tempo de respirar, aceder a que Menina, nome feminino! seja uma obra que se permite ser lida enquanto narrativa que explora o processo de expiação da natureza feminina a partir de um pressuposto sócio-cultural: o género feminino como pecado original.
A ser assim, a narrativa nasce com a ideia de que o pecado assenta numa palavra, como a luz ou a escuridão: menina; avança com a infância, e o abuso emocional e sexual como um despertar autoinfligido da consciência da culpa;...
Observação 3, revelação 1: a coisa é o coiso. O coiso deles. Parece pouco, mas é qualquer coisa. Nada, são as meninas que têm. As meninas não têm nada.
...prossegue com o aborto como penitência;...
A perda de chance, aqui e agora, é ser alguém que não escolhe que é manipulado, o joguete de uma mentira, o alvo de uma maquinação, o objeto de um acordo tácito, uma pessoa cujo destino, cuja vida cuja infelicidade e felicidade são decididas em paralelo, fora dela, sem ela querer, pelos pais, os professores e os homens. A perda de chance, sabes, é ser menina.
...e termina na maternidade como redenção:
«Sabes, mãe...», continua ela articula, e há na sua voz, é en-graçado, uma pitada de pedagogia. «Sabes, uma menina também é bom. Aliás...». Sorri como se estivesse a recordar. «Uma menina é algo maravilhoso. Por vezes, basta uma frase para derrubar monumentos.
Mas, já que tudo isto se fica pelo esboço e pela intenção, parece-me que é apenas a minha boa vontade a falar. Para isso, Menina, nome feminino! precisava de ser um livro muito maior e muito menos redundante. No final, sem conseguir criar verdadeiro impacto através da estrutura, do tom, ou da simbologia, Laurens recorre à tónica no envolvimento emocional como pilar que sustenta esta narrativa. Uma opção que funciona para muitos, mas não para todos.