A filha primitiva, vencedora do Prêmio Kindle 2021, é um livro em formato de verdadeiro "soco no estômago". A obra não busca ser agradável ou embelezar a realidade, mas sim escancarar feridas abertas da nossa sociedade.
A leitura é extremamente relevante, pois traz reflexões profundas sobre recortes sociais, raciais, maternidade e diferentes perspectivas de vida. A narrativa não se preocupa em ser "bela", mas sim em ser verdadeira, mostrando com dureza e sensibilidade situações que muitas vezes são silenciadas.
Apesar de ser curto, não é uma obra que conseguimos facilmente terminar em um único dia ou em poucas horas. Seu conteúdo é denso, forte, impactante, e muitas vezes exige pausas para respirar e assimilar o que foi lido.
No centro da narrativa estão avó, mãe e filha... Três gerações unidas e, ao mesmo tempo, marcadas pela dor do abandono. É nesse entrelaçar de experiências que a obra ganha ainda mais profundidade, revelando como feridas do passado ecoam no presente e moldam o futuro.
O impacto da obra está justamente em nos obrigar a encarar de frente essas realidades, aquelas que preferimos ignorar, mas que moldam a vida de tantas pessoas. É um livro que incomoda, que cutuca e que transforma, deixando marcas muito além da última página.
• SPOILERS | Quotes, Notes & Highlights •
"E você, menina, vê se esquece dessa história de pai. Ele também deve ter esquecido que você existe. Senão, tava aqui."
"A gente vai parindo devagarzinho, letra por letra, que se não saem ficam encruadas dentro fazendo mal, ferindo a gente feito felpa que entra no dedo. Tem que tirar com agulha, espremer o pus. Dói parir palavras. Dói mais ainda viver com elas dentro."
"A ausência de nome, aliás, designa todas as mulheres do livro, como se a sina de uma fosse de fato a das outras. De certa forma, é."
"Minha mãe é uma daquelas personagens que a gente odeia e, ainda assim, não consegue deixar de acompanhar. À primeira vista, uma pessoa simples, negra, analfabeta, trabalhava em casa de família, sem muitos anseios e pretensões. Morava há mais de vinte anos no Conjunto Palmeiras e cozinhava como ninguém. Olhando assim dava até pra sentir pena dela, mas na literatura e na vida nada é o que parece. Essa mesma mulher que chamo de mãe me escondia a vida toda a minha origem."
"(...) todo mundo tem que se apegar a alguma coisa pra continuar vivendo."
"Chorei sozinha, constatando que a minha vida era um inventário de perdas"
"Logo percebemos que, às vezes, ter uma história também é um privilégio de classe e gênero."
"Um nome não é nada. Não é endereço, telefone, não diz como e onde encontrar a pessoa."