Foi um dos episódios mais violentos da Primeira República. Na noite de 19 de outubro de 1921, uma camioneta-fantasma causou o terror em Lisboa, retirando à força políticos das suas casas, para os assassinar à queima-roupa. Nunca em Portugal se tinha assistido a nada assim. E nunca mais se voltou a assistir.
Na «Noite Sangrenta», como ficou conhecida, morreram António Granjo, presidente do ministério de um governo eleito; Machado Santos e Carlos da Maia, heróis da revolução republicana, entre outras figuras importantes da nação. Nos dias seguintes, pessoas de renome foram feridas ou ameaçadas.
A inesperada onda de violência daquela noite marcou o início do fim da Primeira República. E abriu portas para a chegada do Estado Novo, tendo inclusivamente sido utilizada como exemplo para a necessidade de defender a ordem. Mais de cem anos depois, ainda ninguém sabe quem foram os verdadeiros mandatários dos crimes. E a mais profunda investigação acabou por ficar a cargo de uma viúva.
No primeiro livro sobre o tema em mais de trinta anos, João Miguel Almeida, autor de D. Manuel II, vencedor do Prémio Grémio Literário, apresenta-nos uma investigação inédita sobre a «Noite Sangrenta». O material de arquivo sobre os eventos daquela noite esteve desaparecido, ressurgindo de forma inesperada há uns anos. O autor mergulhou na vasta documentação de forma exaustiva, e o resultado está agora aqui.
Um livro indispensável para compreender o que aconteceu numa das noites mais violentas da História de Portugal.
JOÃO MIGUEL ALMEIDA nasceu em Lisboa, em 1968. Licenciado em História, Mestre em História dos Séculos XIX e XX (2000) e Doutor em História Contemporânea (2013), pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Formou-se também em jornalismo pelo CENJOR, com um estágio no jornal A Capital, e em Ciências Documentais, concluindo uma pós-graduação nesta área na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Actualmente é Professor Auxiliar Convidado na Universidade Aberta, investigador do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa e do Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa. É autor de António Oliveira Salazar - Pedro Teotónio Pereira: correspondência política, 1945-1968 (2008), A oposição católica ao Estado Novo (1958-1974) (2008), António Lino Neto: intervenções parlamentares (1918-1926) (2009, com António Matos Ferreira), Da Monarquia à República: cartas portuguesas de Romolo Murri (2010), Religião e cidadania: protagonistas, motivações e dinâmica sociais no contexto ibérico (coord. com António Matos Ferreira), António Lino Neto - perfil de uma intervenção pública: antologia de textos (1894-1940) (coord. com Rita Mendonça Leite), A noite mais sangrenta (2024) e Católicos e política na crise do Liberalismo: o percurso de António Lino Neto (1873-1934) (2026).
A noite de 19 de Outubro de 1921 foi uma noite sinistra em que os piores instintos tiveram rédea solta. Nela foram assassinados a tiro:
“António Granjo, presidente do ministério de um governo eleito; Machado Santos, «herói da rotunda», onde liderou a resistência republicana às forças monárquicas durante o período crítico da revolução de 5 de outubro de 1910: Carlos da Maia, outro revolucionário republicano e «pai fundador» da República; o tenente-coronel Botelho de Vasconcelos, monárquico e antigo apoiante de Sidónio Pais; Freitas da Silva, capitão de fragata e chefe de gabinete do ministro da Marinha”
Com este livro o autor propõe-se “mostrar o que esses crimes nos dizem sobre uma sociedade, uma época; como a partidarização e a precaridade económica das forças de segurança, a impotência dos tribunais e a promiscuidade entre jornalismo e política podem corroer perigosamente as instituições liberais e abrir caminho para ditaduras.”
Não estava à espera de gostar tanto deste livro, mas é um facto que foi muito interessante e de certo modo adequado aos tempos que vivemos. Refletir sobre o passado ajuda-nos muito a entender o presente, e talvez prevenir o futuro.
Recomendo a todos os que gostam de ler sobre história, mas também a quem simplesmente gosta de o relato dum momento importante.