Primeiramente, preciso agradecer à querida amiga Luciana, pela leitura conjunta que fizemos de Tieta do Agreste e outras (Proust, Ferrante), tornam-se mais do que leituras, e sim também momentos de prazer pela troca ideias, pelos ódios em conjunto, pelas torcidas em conjunto, pelas risadas em conjunto. E que D. Carmosina não encontre como acessar os seus e-mails, de outra forma, já viu, né? Agreste todo ficará sabendo da sua vida, isso se ela não enviar cartas para "O Popular" para falar do que leu 🤣🤣🤣🤣🤣🤣
Antonieta, meninota pastora de cabras, descobre os "prazeres" da vida nas dunas de Mangue Seco, quando entende o porquê de suas cabritas se entregarem ao grande bode Inácio. Mas não para aí, quer prosseguir nas suas descobertas, até que sua irmã Perpétua, devota beata, denuncia-a ao pai, que escorraça a pastora com o peso de seu cajado. Anos mais tarde, retorna a mulher que se fez em São Paulo, dona de privativo e finíssimo randevu, não mais a pequena Antonieta, mas Tieta, para curta visita à sua cidade natal, Santana do Agreste. Mas o que era para ser curta visita, torna-se uma estadia mais longe e cheia de acontecimentos.
Escrito na forma de folhetim, como o próprio autor lhe empresta o nome, Tieta do Agreste é uma obra descomunal para o que buscou alcançar. Eu que não gosto de futebol, nem de jogos e torcidas e, no entanto, pareceu-me estar assisntindo um jogo, uma partida em que tudo era decidido, meu coração aos pulos, na torcida e no ódio também! Inclusive porque acaba por tratar de uma questão cara à própria vida humana, ou seja, o meio ambiente e a luta por sua preservação, num país que pouco faz para tal, embora de exuberantes paisagens, florestas, biomas. Há, aqui, não apenas um contínuo embate sobre o certo e o errado, o bem e o mal, o sacro e o profano, a ilusão e a "verdade" (que pode ser outra forma de ilusão), o desenvolvimento e o atraso, mas também a necessidade de pensarmos nas decisões que tomamos, e os seus impactos não apenas na nossa vida, mas na vida de todos que compõem o nosso entorno, seja uma comunidade, uma região, um país.
Jorge Amado utiliza-se de todo o seu conhecimento literário, construído em obras de denúncia ao estado de coisas, defesa social, sensualidade, brejeirice etc., para construir uma história que tem tudo isso e muito mais. É uma sátira impagável na qual mistura a comédia, o drama, a tragédia, o sexo, e o resultado dessa mistura, que poderia se mostrar estranha, é saborosissima, como a boa comida servida nas melhores mesas de Santana do Agreste. Sabe bem equilibrar bem as tramas e a nós, cabe-nos deliciar com a sua escrita.
Ainda bem que o autor não seguiu os conselhos de Fúlvio D'Alembert, moralista sem dó e que não entende nada da cultura brasileira 🤣🤣🤣🤣🤣🤣 Essa é outra ótima aquisição de Amado, o autor com as suas inscursões ao meio do melhor da trama. Mas, ao invés de tirar o fôlego da leitura, apimenta-a ainda mais, torna o leitor ainda mais interessado em continuar nos caminhos do Agreste, para descobrir também os caminhos dessa história.
Publicada em 1977, ao meu ver, a obra acaba por servir igualmente como uma crítica ao famoso "milagre econômico brasileiro", período de alto desenvolvimento econômico que ocorreu na primeira fase do período militar, marcado pela construção de grandes obras, com aumento do endividamento externo e da desigualdade social.
Ascânio Trindade traduz bem essa eventual crítica ao referido milagre. Apresentado inicialmente como um bom rapaz, de princípios nobres, acaba por usar esses mesmos princípios para fins pessoais e mesquinhos, não se importando com o destino da população a qual administra. E o pior, machistinha sem dó nem piedade, escroto mesmo, além de demonstrar que é um péssimo administrador, pois não vê freios para os seus objetivos, não pensa em sustentabilidade quando seu objetivo é desenvolvimento a todo o custo, com a desculpa de que se trata de benefício ao município e de sua população, embora os seus objetivos sejam outros. Sujeitinho vil. Que ódio! E o pior que conhecemos muitos ditos "honrados cidadãos" ou "do bem", como ele. Não quero dizer com isso que nós, os demais, sejamos puros e perfeitos, isso não existe. Mas há muitos e muitas que buscam trilhar um caminho mais correto e que observe não só as suas buscas e interesses, como também possam compô-los com os demais, na buscar de objetivos que possam alcançar e beneficiar a todos, e o mundo que nos cerca.
Que a Luz de Tieta ilumine a todos!, porque essa leitura vale milhões de estrelas!