Após a morte da mãe, uma mulher precisa enfrentar a tarefa difícil de lidar com o presente. É escavando a si mesma, durante os dias morosos que correm depois dessa perda, que ela dá início ao processo doloroso e necessário de redimensionar o passado para descobrir quem verdadeiramente é. O apartamento, a profissão, o companheiro, seu tudo ao seu redor será questionado. No duro trabalho emocional pelo qual passará, a relação instável com a mãe, marcada pela culpa e pelo rancor, é revivida, tornando tudo ainda mais penoso, mas também urgente. A luz de dois cérebros anárquicos propõe uma incursão sensível na subjetividade dessa mulher em um momento decisivo da vida, no qual se vê impelida a enfrentar as próprias escolhas – para, quem sabe, compreender a natureza contraditória dos laços emocionais estabelecidos com as mulheres de sua família. Contemplado pelo ProAC, este é o romance de estreia da escritora Ana Barros.
A construção desse livro parece simples, mas é muito complexa. Três mulheres, três gerações, cada uma lutando com seus problemas particulares e com as complexidades das relações entre si, sendo avó, mãe e filha. O livro nos leva com Angela, a filha, após a morte de sua mãe com quem ela não teve uma boa relação. Foi muito interessante e importante ler uma narrativa com um relacionamento mãe-filha tóxico, uma mãe narcisista e predadora, já que isso é muito raro na literatura. Os capítulos são intercalados entre primeira pessoa da Angela e memórias de cada uma das mulheres em terceira pessoa, nos trazendo pedaços do quebra-cabeça da personalidade de cada uma. Assumo que não é meu gênero favorito de leitura e por isso demorei bastante pra ler (um erro meu!) mas o livro vai além do gênero, nos mostrando uma narrativa muito humana, com um toque suave porém preciso a respeito de luto, depressão, demência e a nossa relação com as mulheres que vêm antes de nós. Imaginei que me daria gatilhos pois eu tenho uma relação complicada com o luto, mas ainda que alguns pontos do livro sejam como tomar um banho de chuva gelada, o cuidado da autora com os temas fez com que a leitura fosse reflexiva, mas não dolorosa. Uma leitura que deveria ser obrigatória pra qualquer mulher e pra qualquer pessoa que tem uma relação complicada com algum parente.
Relações familiares são sempre muito complexas, principalmente quando as opiniões são tão diferentes, e quando envolve questão de fé tais relações se tornam ainda mais complexas. Gostei dos flashbacks que explicam o momento presente da narrativa, e achei o final libertador.