Mais ou menos 9 horas. Esse é o tempo de viagem de São Paulo até Nova Friburgo, RJ.
A única preocupação de Junior naquele momento era terminar de escrever o roteiro para um podcast de mães loiras e, supostamente, bilionárias, e arrumar suas coisas para seu aniversário, dali a dois dias.
Até que recebe uma ligação da sua mãe, completamente fora do horário que costumam conversar. "Seu pai... seu pai m0rreu", foi o que ela disse. Junior não sabia como reagir a essa noticia, sua relação com o pai nunca foi das melhores, mesmo que ele, por muito tempo, tenha tentado.
Logo na véspera de seu aniversário, a ultima coisa que ele queria era embarcar em uma viagem de ônibus, por mais ou menos 9 horas, para poder velar alguém que ele não sabia o que sentia.
Após trocar de lugar no ônibus, descobre que Otávio, seu primeiro namorado da adolescência, também está embarcando naquele ônibus. É um reencontro que vai mexer ainda mais com os sentimentos turbulentos que Junior já estava sentindo.
Quando descobri que um dos pontos principais abordados nessa história seria o luto do personagem com o pai, já imaginei que esse seria um livro totalmente melancólico e que iria me destruir. O Vitor Martins consegue trabalhar muito bem esse lado delicado e pesado, mas ele também adiciona um tom cômico que deixa a história um pouco mais leve, mesmo que ainda consiga transmitir uma mensagem forte.
Uma coisa que amo na escrita do autor, é que ele sempre vai descrever uma situação pela qual eu já passei por algo parecido. O fato de ter algumas familiaridades com os personagens me deixa mais conectado com o livro, e isso sempre acontece nas história do Vitor.
Também é ótimo ver como a escrita dele evoluiu. É um livro curto, comparado com os outros, mas que carrega uma carga dramática muito bem trabalhada. Não que isso seja algo totalmente novo, mas acompanhar isso tudo pelo ponto de vista de um personagem com mais ou menos 30 anos é diferente. Os questionamentos abordados pelo Junior do presente são coisas que eu penso agora nos meus 25, mas também tem coisas do Junior do passado que já pensei na minha adolescência.
"Mais ou menos 9 horas" é um livro que intercala passado com presente. No passado, entendemos como foi a relação de Junior com Otávio, vemos como a má relação com o pai sempre foi um problema para ele e como tudo o que aconteceu nessa adolescência conturbada transformou ele na pessoa que é hoje em dia.
O Junior do presente não é a pessoa mais confiante e feliz, ele apenas fez o que precisa para sobreviver e ter uma vida descente longe de um lugar que sempre se sentiu preso, e isso faz com que ele sempre viva com aquele pensamento do que poderia ter acontecido se tivesse feito tal coisa diferente, se tivesse tido uma vida diferente, com uma família que sempre o apoiasse.
Junior não é aquele personagem perfeito. Conforme vamos avançando na história, percebemos que ele tem uma parcela de culpa em algumas situações que ele não consegue admitir. Isso é algo bom, ler sobre alguém perfeito me desconecta totalmente da história, mas senti que o Vitor ainda deu um tom muito adolescente na narrativa do Junior adulto. É algo que da para relevar, por ser o primeiro livro acompanhando um personagem realmente adulto, mas me incomodou um pouco.
Para mim, esse foi um livro tipo 4,75 estrelas, mas como não dou nota quebrada, vou arredondar a nota para 5 estrelas mesmo.
Esse é aquele tipo de livro que depende muito do momento em que você está lendo para absorver os assuntos. Eu tive uma perspectiva muito boa agora, mas que daqui mais ou menos 5 anos, quando estiver completando 30 anos também, eu possa absorver coisas completamente diferentes.
Esse livro me fez refletir muito sobre como viver a vida, aproveitar as oportunidades que tenho e nunca desistir de um sonho que parece impossível (parece que estou escrevendo um livro autoajuda, mas quem ler vai entender). Me fez sorrir com várias situações engraçadas que o personagem contou. Não chorei, mas é uma história bem emocionante e com muitos capítulos marcantes, principalmente aquele do sonho.