Esta é a história de Fanfarrão Minésio, governador da capitania do Chile, narrada por um certo Critilo, que da então colônia escreve ao amigo Doroteu, residente na Espanha. São treze "cartas" em versos que trazem personagens e fatos de um governo que deve nos causar repugnância por sua corrupção e crueldade.
Foi justamente pelos efeitos do anti-exemplo de Minésio que um anônimo do Brasil colonial resolveu traduzir o texto em nossa língua, após obter o manuscrito de certo cavalheiro que por aqui aportou, vindo da América espanhola. Pelo menos é o que diz o incógnito tradutor no "Prólogo" e na "Dedicatória" das Cartas chilenas, oferecidas aos governantes portugueses "para emenda dos mais, que seguem tão vergonhosas pisadas".
Mas a própria sátira se encarrega de desfazer o irônico disfarce. Simulando falar sobre outro lugar, ela é uma voz da sociedade das Minas Gerais do final do século XVIII. Voz cintilante que, longe de ser um mero retrato daquele passado, nos diz muito de como esse passado enxergava a si mesmo.
Tomás Antônio Gonzaga was a Portuguese Brazilian poet. One of the most famous Neoclassic Brazilian writers, he was also the ouvidor and the ombudsman of the city of Ouro Preto (formerly "Vila Rica"), as well as the desembargador of the appeal court in Bahia. He wrote under the pen name Dirceu. Gonzaga was born in the Portuguese city of Porto, to Brazilian João Bernardo Gonzaga and Portuguese Tomásia Isabel Clark. As a child, the family moved to Recife and to Bahia, where João Bernardo served at the magistrature. Gonzaga was sent back to Portugal as a teenager, to the University of Coimbra, to finish his studies. With 24 years, he finished his Law course. He candidated himself to a chair at the University, with the thesis Tratado de Direito Natural. He became the juiz-de-fora of the city of Beja in 1778, exercing the post until 1781. In the following year, he returned to Brazil, becoming the ouvidor of the city of Vila Rica (nowadays Ouro Preto). He followed this post until 1789, when he was accused of being involved with the Minas Conspiracy. Arrested, he was sent to a prison in Ilha das Cobras, Rio de Janeiro. He spent three years in there, when he was given the sentence of a ten-years exile in Mozambique. By that time, he was engaged to a woman named Maria Doroteia Joaquina de Seixas, possibly the "Marília" of his verses. This nostalgia of his love and his freedom can be seen in the second part of his poetry book Marília de Dirceu. Arriving at Mozambique, he was charitably received by a wealthy Portuguese gentleman. He then married his daughter, Juliana de Sousa Mascarenhas, having with her two children. Gonzaga had a wealthy and considerated life during his exile, becoming a lawyer. He died circa 1810, of a serious disease.
Não é por tirar o mérito do livro, que é um dos mais importantes da literatura brasileira, e que dá um retrato contundente do pano de fundo social que provocou a inconfidência mineira. Mas foi uma leitura bem tediosa, especialmente depois de ter lido Marília de Dirceu (que, diga-se de passagem, me pareceu mais ágil, talvez pelo tom mais amoroso e bucólico entre outros aspectos da poesia árcade). Vale a pena encontrar uma edição com boas notas de rodapé para explicar o contexto e aclarar alguns vocábulos arcaicos, com o cuidado de não exagerar tratando de entender cada verso e interromper muito a leitura, o que termina subtraindo um pouco do prazer de ler a poesia de uma maneira mais fluida.
Cartas Chilenas é uma sátira elegante e afiada. Tomás Antônio Gonzaga usa a ironia com uma precisão impressionante, criando um retrato crítico do poder colonial por meio do formato epistolar. A alegoria continua eficiente, e o texto funciona tanto como reflexão histórica quanto como exercício literário de grande habilidade.
O único ponto que me afastou da nota máxima é a falta de um impulso emocional mais forte. A crítica é inteligente, mas permanece distante, mais preocupada com a elegância da ironia do que com o impacto humano da opressão que retrata. Falta um mergulho subjetivo que aproxime o leitor dos conflitos e das dores das figuras envolvidas. Ainda assim, é uma leitura essencial para compreender o período árcade e suas tensões políticas.
Uma das coisas que mais me faz falta da na literatura atual é o humor. Não estou falando de simples piadas, mas sim da zombaria, do ridículo - daquela malícia que enxerga a maldade e o ponto fraco na mesma tacada.
Cartas Chilenas são os versos satíricos com que Gonzaga o governador de Minas Gerais um pouco antes do que viria a ser conhecido como a Inconfidência Mineiro. Usando-se de meia dúzia de apelidos hilários, dos quais Fanfarrão Minésio é apenas um dos mais deliciosos, o poeta xinga, humilha e amaldiçoa seus inimigos.
As treze cartas que compõe a obra pingam desprezo pelas pessoas que descrevem a situação numa demonstração do humor brasileiro que atualmente resiste em memes e reels nos tempos do politicamente correto.
Não é uma leitura simples, contudo, exigindo uma edição com boas notas de rodapé ou acesso a internet.
Um clássico que eu deveria ter lido há bastante tempo, mas nunca me interessei. Engraçado, irônico, retrata de forma muito vívida a sociedade mineira do Século 18, principalmente os políticos. Uma leitura interessante.