Leila Pinto está algures num futuro próximo, escrevendo um testemunho que começa em 1902, no planalto central de Angola, quando um pelotão de soldados europeus é encontrado sem vida, em circunstâncias extremamente misteriosas. Leila conta a história de amor entre os seus avós, Jan e Lucrécia, e, fazendo isso, dá-nos a ver uma História possível (ou impossível) do Reino do Bailundo e da Angola contemporânea.
Uma sociedade secreta de guerreiros ovimbundo; um rei-mago; uma mulher que conhecia os segredos da invisibilidade; um soldado que queria ser fotógrafo. Nas páginas deste romance encontram-se (e desencontram-se) personagens quase reais, e outros quase ficcionais, que nos ajudam a perceber como nasce um país — e como se perde um país, e de quantas ficções se fabrica a História.
Pode o amor triunfar sobre a guerra e sobre o caos?
«José Eduardo Agualusa [Alves da Cunha] nasceu no Huambo, Angola, em 1960. Estudou Silvicultura e Agronomia em Lisboa, Portugal. Os seus livros estão traduzidos em 25 idiomas.
Escreveu várias peças de teatro: "Geração W", "Aquela Mulher", "Chovem amores na Rua do Matador" e "A Caixa Preta", estas duas últimas juntamente com Mia Couto.
Beneficiou de três bolsas de criação literária: a primeira, concedida pelo Centro Nacional de Cultura em 1997 para escrever « Nação crioula », a segunda em 2000, concedida pela Fundação Oriente, que lhe permitiu visitar Goa durante 3 meses e na sequência da qual escreveu « Um estranho em Goa » e a terceira em 2001, concedida pela instituição alemã Deutscher Akademischer Austauschdienst. Graças a esta bolsa viveu um ano em Berlim, e foi lá que escreveu « O Ano em que Zumbi Tomou o Rio ». No início de 2009 a convite da Fundação Holandesa para a Literatura, passou dois meses em Amsterdam na Residência para Escritores, onde acabou de escrever o romance, « Barroco tropical ».
Escreve crónicas para o jornal brasileiro O Globo, a revista LER e o portal Rede Angola.
Realiza para a RDP África "A hora das Cigarras", um programa de música e textos africanos.
----- José Eduardo Agualusa (Alves da Cunha) is an Angolan journalist and writer born to white Portuguese settlers. A native of Huambo, Angola, he currently resides in both Lisbon and Luanda. He writes in Portuguese.
He has previously published collections of short stories, novels, a novella, and - in collaboration with fellow journalist Fernando Semedo and photographer Elza Rocha - a work of investigative reporting on the African community of Lisbon, Lisboa Africana (1993). He has also written Estação das Chuvas, a biographical novel about Lidia do Carmo Ferreira, the Angolan poet and historian who disappeared mysteriously in Luanda in 1992. His novel Nação Crioula (1997) was awarded the Grande Prémio Literário RTP. It tells the story of a secret love between the fictional Portuguese adventurer Carlos Fradique Mendes (a creation of the 19th century novelist Eça de Queiroz) and Ana Olímpia de Caminha, a former slave who became one of the wealthiest people in Angola. Um Estranho em Goa ("A stranger in Goa", 2000) was written on the occasion of a visit to Goa by the author.
Agualusa won the Independent Foreign Fiction Prize in 2007 for the English translation of his novel The Book of Chameleons, translated by Daniel Hahn. He is the first African writer to win the award since its inception in 1990. (wikipedia)
São já vários os livros que li do escritor angolano José Eduardo Agualusa, nenhum dos quais me deixou indiferente, apesar de, como sucede com todos os escritores que acompanho há algum tempo, existirem livros de que gosto mais e outros cujas histórias considero menos interessantes.
Em relação ao "Mestre dos Batuques", gostei muito deste livro, não só pelas histórias que constam do mesmo, pelas suas personagens, desde colonos portugueses, cujos filhos nasceram em Angola, dos habitantes das cidades de Luanda e de Benguela, numa fusão de raças e de culturas distintas, de vários militares do exército português, brancos, mulatos e negros, dos reis que se sucederam na região do planalto central de Angola (Bailundo), dos seus sobas, da coragem, magia e ritos africanos dos seus guerreiros, das disputas, batalhas e acordos entre estes e o exército português, mas particularmente pela descrição geográfica do Reino do Bailundo, do seu céu, da sua montanha, da sua vegetação, dos seus rios, riachos e cascatas, onde a natureza exuberante nos convida a visitá-lo, e que o autor José Eduardo Agualusa conhece muito bem, por ser natural desta região.
Achei particularmente bonita a história de amor entre as duas personagens principais, Jan, um tenente do exército do rei D. Carlos, filho de um colono português e de uma descendente de colonos holandeses sul-africanos, nascido na região angolana do planalto central (Bailundo), que na sua adolescência é enviado pelo pai para Lisboa, afim de ingressar no Real Colégio Militar, e Lucrécia, uma africana de Luanda, filha de um próspero comerciante negro dessa cidade, que se conhecem em Lisboa no início do século XX e se apaixonam durante uma viagem de barco de Lisboa até Luanda.
Mas o que mais me impressionou nesta obra, foi a capacidade do autor ter ficcionado a existência de batalhas entre soldados e oficiais oriundos de Portugal e outros africanos, que integravam o exército português, ao serviço do rei D. Carlos, e os guerreiros ao serviço do Rei do Bailundo, no decurso das quais os primeiros morriam misteriosamente, sem qualquer ferimento no corpo, ou se suicidavam, ou desapareciam, ou enlouqueciam, e de ter criado uma conspiração que teria acontecido no próprio Reino do Bailundo, onde a um soberano se sucedeu outro, como se de factos históricos se tratassem, descrevendo-os com uma precisão e coerência, que eu diria que tinham, na realidade, ocorrido na primeira década do século XX.
Não posso deixar de mencionar que, o diálogo que o narrador do livro mantém com o leitor ao longo da ação e a descoberta da sua identidade, é outra história dentro da história principal, que vale a pena conhecer.
Por fim, a leitura do livro não me proporcionou apenas "observar" paisagens inesquecíveis, mas também "escutar" os ritmos africanos, com um único sentido, o da visão, sendo poucos os escritores que conseguem ter esse dom de comunicação com os leitores dos seus livros.
“Estava exausta, uma espécie de êxtase. Não pensei muito no que iria acontecer a seguir. Sabia, sim, claro que sabia que o meu arquivo se iria propagar à velocidade do som. Ninguém, nenhuma autoridade, nenhum poder, controlar o temporal que eu havia desatado. Pensei: os justos sobreviverão. A vida triunfará.”
Era miúda e vivia em Angola quando na escola li o primeiro livro de Agualusa. Não consigo precisar qual foi mas, desde então, ler Agualusa é como ter um abraço de paz com uma terra que foi minha casa durante anos e com a qual travei tantas vezes uma luta interna. De repente, tudo isto se acaba: volto a ler as mesmas palavras em kimbundo, a ler o nome das terras que já pisei e vem-me à mente o pôr do sol de sempre, laranja, terroso e quente. Passar por este livro é também uma ode à cultura mais ancestral e mágica da cultura angolana que Agualusa tão magistralmente sabe colocar em palavras.
Neste livro, a honra à ancestralidade está não só nas histórias que passam de pais para filhos mas também na chamada aos ancestrais através de música, algo tão enraizado na cultura angolana, que fez com que os povos vencessem várias batalhas contra os colonizadores portugueses. Havia muitas coisas a dizer sobre este ponto mas, tendo sido um fator surpresa para mim, vou deixar que leiam o livro e descubram por vocês. Já sobre as personagens, emocionou-me particularmente a personagem Lucrécia (a primeira), que tanta paixão tinha dentro de si, para além da narração que nos faz viajar muitos anos para trás e que nos acompanha até ao final do livro.
Este é um dos livros que nos faz recriar cenários mágicos, usar a nossa imaginação e deixarmo-nos levar e infiltrar por estas páginas.
Enquanto escrevia este livro, Agualusa ligou para o amigo Mia Couto aos prantos por causa do destino de uma de suas personagens. Li o livro imaginando qual seria a cena, porque há mais de uma, na minha opinião, a causar tamanha comoção.
"Mestre dos Batuques" foi o meu primeiro Agualusa e uma bela porta de entrada para essa escrita cheia de estilo, afeto e magia. Li a sinopse, mas por vezes duvidei quem era realmente o narrador. A ficção me transportou no tempo, me despertou curiosidade sobre a história de Angola, me conectou com a natureza, me fez sentir os batuques em meu peito.
Finalizada a escrita, Agualusa enviou o livro para o amigo Mia, com o assunto: Agora choras tu. Não sei ele, mas eu chorei.
"Amanhã fui infeliz. Ontem serei infeliz. Estarei infeliz em todos os instantes vividos e por viver, pois enquanto estava contigo já te havia perdido".
Despite being set in wartime, the book is very vivid and colorful, with a beautiful love story and capable of transporting us to the Angolan landscapes, where we hear the sounds of drumming in our own imagination. Also, throughout the book, the author makes some very informative notes, which lead the reader to a better understanding of Angolan culture. I liked it a lot
"Amanhã fui infeliz. Ontem serei infeliz. Estarei infeliz em todos os instantes vividos e por viver, pois enquanto estava contigo já te havia perdido. A tua perda contamina agora os tempos todos em que calhei viver." 🤍
Este livro soa como uma carta de amor a rica história de Bailundo. Apreciei imenso a leitura deste livro mesmo sem conhecimento nenhum sobre a cultura e história do povo dessa região. Acredito que o autor expressa e informa muito bem através das interjeições que faz nos capítulos. 🙏🏻
O meu primeiro livro de Agualusa (mais vale tarde…) e gostei muito! Ao longo dos seus primeiros 5 capítulos fui levado a Angola do princípio do séc. XX. E como eu desconhecia essa História apesar de, no meu tempo de escola primária, ter estudado os rios, as montanhas… mas não a história dos povos do território de Angola. Entre o reino Bailundo e Luanda o livro mistura a realidade com a ficção naquilo que foi a difícil relação entre o poder central de Lisboa e a independência dos reinos do interior. Muito bem tratadas as personagens, do tenente Jan Pinto, a Mambo, Lucrécia e Kavita, tornam a estória bastante empolgante e difícil de interromper a sua leitura. Recomendo!
Mestre dos Batuques is a vivid journey through Angolan and African culture, rich in atmosphere and rooted in identity. Agualusa’s writing carries a certain musicality, and the story has strong cultural references that make it engaging and enjoyable to read. The imagery is beautiful, and the themes feel authentic and grounded.
However, the structure of the book can be a challenge. The chapters are extremely short—almost fragments—and many of them end just when they feel like they’re about to expand. Instead of a full narrative arc within each section, it sometimes felt like summaries of chapters that were never fully written. Interesting ideas were introduced, but not always explored, leaving me wanting more detail, more depth, and more time with the characters and themes.
In the end, it was still a good read—light, culturally rich, and immersive in tone—but it lacked the development needed to feel fully satisfying.
A solid 3 stars: enjoyable, culturally meaningful, but not as expanded or developed as it could have been.
Não é o meu romance favorito de Agualusa, não gostei particularmente da quebra entre os últimos capítulos, porque senti que a história acaba, recomeçando numa nova. Mas, dito isto, todos os pequenos defeitos (ou, melhor dizendo, divergência de gostos) que fui encontrando acabaram por me vencer. Uma vez mais a fantasia de Agualusa une todo o romance na perfeição e cada pequeno pedaço importa no contributo para um final delicioso. Sem dúvida o meu escritor Lusófono favorito, volta a não desiludir.
“- Que horror! — assustou-se Lucrécia, com os olhos cheios de lágrimas. — Como podem os homens ser tão cruéis? — Gostamos de pensar que a crueldade é um atributo dos animais, e que desde que saímos das cavernas nos vimos afastando deles, mas tal não é verdade - disse Vicente. - Somos mais cruéis do que as bestas selvagens, porque escolhemos sê-lo. É a maldade o que nos distingue das feras. Sabemos que somos humanos porque não somos bons.”
passei quase metade do livro achando que o narrador era o agualusa como agualusa e que contava parte da história dele.. amei, fiquei encantada, me sentindo mais próxima dele! kkkkkkkkk mas dps as contas não bateram afeee mas enfim, outro livro mt bom! (a narrativa das coisas é rápida, mas não é um livro corrido; só um maestro tem essa habilidade! ave amo amo amo)