Mateus, um jovem anarquista, revoltado com o sistema vigente, decide revolucionar a sociedade promovendo campanhas de consciencialização e revolta, numa obra sobre o nascimento do socialismo e do sindicalismo português.
‘Amanhã’ de Abel botelho é parte integrante de uma série, composta por cinco livros, intitulada Patologia Social, no qual o autor explora várias “moléstias” sociais que, na sua opinião, afetavam a sociedade portuguesa do final do século XIX.
Nesta obra, que é a terceira dessa série, o foco é a exploração da burguesia patronal face à exploração da classe operária, o que a torna a primeira obra portuguesa que fala sobre a formação do socialismo português e enaltece o sindicalismo, enquanto pinta o retrato de uma época, em plena revolução industrial, durante a passagem do século XIX para o século XX, numa altura marcada por inúmeros conflitos internos.
ABEL BOTELHO nasceu em Tabuaço, a 23 de Setembro de 1856. Oficial do Exército, deputado republicano, senador, académico e diplomata, romancista e dramaturgo, a sua obra literária situa-se na encruzilhada do naturalismo e decadentismo e pode, a esse título, considerar-se exemplar. Entre 1891 e 1910 publicou, sob a designação genérica de «Patologia Social» cinco romances – O Barão de Lavos, O Livro de Alda, Amanhã, Fatal Dilema e Próspero Fortuna –, que ainda hoje surpreendem pela ousadia dos temas abordados e pela solidez da construção. Por sua vez, nos contos de Mulheres da Beira (1898) encontram-se algumas das melhores páginas do naturalismo rural português. Usou, como poeta e dramaturgo, o pseudónimo de Abel Acácio. Faleceu a 24 de Abril de 1917.
Escrito em 1895-96, mas só publicado em 1901, eis o naturalismo literário português em toda a sua miséria depatologia social... Botelho é o nosso Zola, sem o talento deste -- mas é o nosso... E, como tal, é preciso lê-lo, tentar resistir ao ínfimo detalhe destes cirurgiões de aleijões sociais e atentar no que tem de bom (porque também o tem). E Abel Botelho, apesar do intrincado da prosa, não deixa de ter vigor, por vezes impiedosamente cru. Amanhã trata do operariado lisboeta finissecular, do lumpen-proletariado de maus fígados, mau vinho e deficiente nutrição, à beira da miséria -- embora ainda não os mais pobres dos pobres. Para já, primeiras páginas, apresenta-se-nos Serafim, chegado a casa ao fim duma jornada de trabalho, e Clara, sua mulher ("dois enjeitados da sorte"), a quem é exigido o jantar e o vinho. Surge em seguida Ana, a vizinha, mãe duma rapariguinha "de mal agouradas heptizações na face" (o vocabulário médico-cirúrgico é imprescindível...), cujo pai é o Esticado... Escusado será dizer que a sopa é "uma negra e triste aguadilha" e os purulentos carapaus fritos nadam "numa repugnante e crassa oleosidade". A casa é suja, o mobiliário tosco e, no estuque do tecto "negrejava, por milhares, um constelado planisfério de dejecções de moscas." Inevitável. Digamos que não é uma leitura leve, mas é imprescindível