“Permitam-me que dedique as minhas palavras esta noite às crianças das localidades israelitas na fronteira da Faixa de Gaza, às crianças de Gaza e a todas as crianças que viveram na carne e na alma a última guerra. O frenesim de ambos os lados em «gravar na consciência» a sua vitória, criou milhares de pequenas derrotas. Uma geração inteira de crianças, em Gaza e em Ascalão vai sem dúvida crescer com o trauma dos tiros, das explosões e das sirenes.
Vocês, as crianças, sois as consciências realmente marcadas do conflito, e eu sinto a necessidade de me desculpar perante vós por não termos conseguido criar uma realidade melhor para vocês, como a que todas as crianças do mundo merecem.”
Discurso proferido na Manifestação pela Paz em Telavive, 22 de maio de 2021
“O que tem acontecido em Israel desde as eleições' é aparentemente um processo democrático e legal. Mas
- como aconteceu várias vezes na História - sob essa capa infiltraram-se sementes de caos e de vazio nas instituições mais vitais do Estado de Israel.
Não estou a referir-me apenas à promulgação de novas leis, por muito radicais e revoltantes que sejam, mas à mudança profunda e fatídica, uma mudança de identi-dade, do carácter do Estado. Não foi para essa mudança que as eleições se realizaram, não foi para ela que os israelitas votaram.”
“Caos”, 30 de dezembro de 2022
“Netanyahu argumenta que a vitória nas eleições - com uma diferença de 3o 000 votos - dá-lhe o direito de fazer o que quer, ou seja, o que ele apelida de «reforma». Como acima dissemos, do ponto de vista oficial, pode fazê-lo. Mas os cidadãos de Israel não votaram para autorizar um procedimento tão radical como este, com consequências tão graves na vida dos cidadãos. Com efeito, as mudanças em curso através do processo legislativo significam que o primeiro-ministro - neste caso Netanyahu - terá o poder de tomar as decisões que quer, sem consideração pelos desejos, princípios ou bem-estar de metade da nação.”
“Porque, de repente, muitos israelitas descobriram que é possível amar o país - não com um amor sentimental e kitsch, não com uma idolatria fascista, quase divina, mas com um amor realista, por vontade de fazer do país uma casa, e a aspiração genuína a viver em paz com os seus vizinhos. Com uma consciência cívica desenvolvida e madura. Com a compreensão, agora mais profunda, do significado de democracia, liberalismo, igualdade e liberdade.”
“A Situação: Um instantâneo atual”, 25 de março de 2023
“O judaísmo com o qual me identifico repudia a arrogância e a euforia que vejo em certos grupos, partidos e círculos do judaísmo atual; as suas fusões manietadas que me estrangulam: a fusão de religião e messianismo, de fé e fanatismo, de nacional e nacionalismo e fascismo.”
“O que É um Estado Judeu? Para o projeto “75 anos do Estado de Israel”, 25 de maio de 2023
“Que refrescante foi ver aquela vaga de centenas de milhares de israelitas a descer lentamente do cume do monte, gente de todas as etnias e idades, apoian-tes de diferentes partidos, pessoas que, eles, os pais ou as mães deles fundaram o Estado, e que recusam desistir do sonho. Porque, se esse sonho for distorcido ou cor-rompido, a sua vida não terá pura e simplesmente sentido.”
“A Marcha para Jerusalém “, 23 de julho de 2023
“Mesmo depois da tragédia que aconteceu à minha família, quando perdemos o nosso filho Uri na guerra*, aprendi que a forma que me permite enfrentar essa dualidade de ausência e presença - que é para mim a essência da existência humana - é estar imerso sempre que possível no ato de criar. Na arte.
E aprendi também a alegria que me invade quando escrevo sobre uma pessoa a propósito da qual pensava negativamente antes de a conhecer, por preconceito e de forma estereotipada, e subitamente, quando a encontro e escrevo sobre ela, vejo um ser humano total, em todos os sentidos, com todas as suas contradições, em toda a sua essência e singularidade. O próprio lugar dentro de mim, no qual confinei aquela pessoa e a encerrei numa jaula de estereótipos e de clichés, distende-se subitamente, enche-se, alarga-se e revive.”
“Coração Pensante - Cerimónia de entrega do Prémio Erasmo em Amesterdão”, 29 de novembro de 2022
* A guerra entre Israel e o Hezbollah no Norte de Israel, Líbano e montes Golan, no verão de 2006
“«Ficava deitada à noite no meu beliche, entre mulheres e raparigas que ressonavam levemente, sonhavam em voz alta, choravam num sussurro; mulheres que durante o dia diziam: "eu não quero pensar", "não quero sentir, ainda vou enlouquecer"; naquelas noites, uma imensa ternura sub-mergia-me, e ficava deitada, desperta [...] e dizia interior-mente: "quem me dera ser o coração pensante do campo, quero voltar e ser o coração pensante, o coração pensante do campo de concentração inteiro".”
Etty Hillesum, Diário
“Um outro fenómeno vergonhoso surgiu e cresce em consequência da guerra: Israel é o único Estado no mundo em relação ao qual é legítimo apelar à sua destruição.
Nas manifestações de centenas de milhares, nos campus das universidades mais conceituadas, nos jornais de maior distribuição, nos média, nas mesquitas, em tantas outras situações, ouve-se a palavra de ordem «morte a Israel».
Quando se trata de Israel, a crítica política racional, que considera a complexidade da situação, transforma-se numa retórica estridente de ódio, que só a destruição de Israel poderá arrefecer (o que já não é totalmente certo).”
“Causa horror pensar que este ódio assassino se dirige unicamente ao povo que ainda há poucos anos foi quase eliminado. Igualmente revoltante é a relação tortuosa e cínica entre a ansiedade existencial judaica e o desejo de muitos povos e religiões que Israel deixe de existir. Igualmente intolerável é a insistência de certos elementos em aplicar ao conflito israelo-palestiniano o discurso colo-nialista. A obstinação com que esquecem que os judeus não têm outra terra (condição essencial da definição de uma nação ou estado como coloniais) - e o facto de que o povo judeu não é um ocupante estrangeiro na terra de Israel; que a sua ligação a esta terra já tem quase 4000 anos, e que aqui nasceu como povo, religião, cultura e língua.”
“AINDA EM QUEDA PARA O ABISMO, 1 de março de 2024”
Neste pequeno livro, o autor dá-nos a conhecer um conjunto de ensaios escritos antes e após o 7 de outubro. Ensaios que desvendam uma realidade vivida em Israel que de certa forma antecipava o 7 de outubro, apesar de ninguém imaginar o inadmissível horror que este dia encerrou.
Antes de mais nada gostaria de deixar uma nota pessoal. Não partilho de algumas ideias que o escritor tem sobre Israel, nomeadamente a de ser um estado ocupante. Com isto não quer dizer que não partilhe da ideia inicial aquando da formação de Israel e que era a de existirem dois estados: Israel e Palestina. Ou seja, quando eu afirmo que admiro e defendo o direito à existência de Israel, não afirmo que os palestinianos deveriam ser extintos. Muito pelo contrário, defendo que têm direito a uma vida digna, num território que também é o seu. Afirmo que o extremismo islâmico e do governo extremista de Netanyahu são os grandes responsáveis pelo estado atual do Médio Oriente e pela triste sorte que estes povos têm de viver. O mundo de guerra em que as crianças têm que crescer. É esta a visão do autor e eu concordo.
O 7 de outubro veio, contudo, mergulhar os judeus de todo o mundo num sentimento já de todos muito conhecido. O de que o ódio por eles é quase unânime, o de que correm o risco de não terem para onde fugir novamente. Israel é o único estado judaico do mundo, o único para onde os judeus de todo o mundo podem fugir do anti-semitismo renascido e intensificado. Ninguém chora os reféns e as vítimas do 7 de outubro, dos ataques no Norte de Israel, das centenas de jovens israelitas que morrem a defender o seu país e esse facto é uma espada atravessada no coração dos judeus. É notória a diferença de discurso do autor antes do 7 de outubro e depois do 7 de outubro.
O mundo está a fragmentar-se aos nossos olhos, a radicalizar-se, a entrar num conflito à escala mundial. A nossa vida vai mudar. A única solução é sabermos ouvir quem tem soluções de paz e compromisso, quem não deixa de ver a realidade, mas também não julga todos pela mesma bitola. Inteligência, bom senso e conhecimento dos factos precisam-se. Basta de propaganda das redes sociais que desinformam e criam ódios entre todos. Basta!
A palavra moderação devia ser o mote dos próximos tempos.
Resolvi deixar-vos alguns excertos dos diferentes ensaios. Penso que será a melhor forma de vos fazer compreender a importância de lermos sobre estas matérias e percebermos que não nos podemos polarizar radicalmente, nem voltar a ter comportamentos antisemitas ou passar a ter atitudes anti Islão. O autor é um orgulhoso judeu israelita, mas não deixa de ter uma visão crítica sobre Israel. Tem um coração pensante. Gostaria de encontrar a mesma atitude do lado árabe e tentarei fazê-lo através dos livros.
Recomendo muitíssimo esta leitura, mais uma que nos traz uma outra visão sobre o Médio Oriente e que nos ajuda a ver os dois lados e a criar na nossa mente uma vontade de paz.