Uma coletânea de histórias afiadas, bem-humoradas e nostálgicas sobre crescer na Zona Leste de São Paulo.
"Eu sou muito bom em inventar brincadeiras sem futuro", diz o narrador deste livro, na pele do menino que foi. Tirando a parte do "sem futuro", ele estava certo. Pois aquele que inventava as "esculturas de poeira com feixe de luz que entra pelas telhas" e a "batalha estelar de tampas de refrigerante", no beliche de baixo do quarto de pensão onde morava com a família, agora fabula estas páginas comoventes, ásperas e muito originais, trazendo à tona um tesouro às a indignidade de ser negro e pobre no Brasil, pano de fundo de quase todo o trabalho do autor.
Um conjunto de histórias e dramas do dia a dia de uma criança/jovem que cresceu no subúrbio de São Paulo é o que compõe o presente livro. Desde o status de desempregado, as escapulidas de aula para ir ao parque até a vida em um beliche e o significado para quem deveria distribuir seus brinquedos pois no barracão de um só quarto não caberia nem um carrinho a mais, é traçado um retrato fiel e concreto da desigualdade do país, ainda que ela não seja discutida como ponto central da narrativa e esteja presente no cotidiano de muitas famílias.
Ademais, a ideia do racismo também é abordada; o padrão branco prevalece enquanto deixa cicatrizes no couro cabeludo queimado de quem tenta tornar o cabelo mais liso. É, portanto, meio a situações sutis que o escritor narra parte de sua infância e juventude entrelaçada a histórias divertidas, de compreensão com o outro e de empatia que o escritor descortina ao leitor a uma realidade que todos sabem que existe, embora nem todos dela tenha vivenciado. Quanto a mim, tive uma ótima leitura.
Cresci na mesma quebrada e época do autor e me identifiquei muito com a maioria dos contos. De uma forma leve, muitos aspectos da vida na ZL aparecem pra roubar risos ou marcar angustias. O livro é super bem escrito e fluido. Não dura uma viagem do Diretão até o Vale do Anhangabaú.
como toda gente, ele cumprirá o arco comum das vidas humanas, será confrontado com a fragilidade do corpo, a brevidade da vida dos melhores cães, o terror de ser uma perspectiva única entre os bilhões possíveis, terá prazer ao se ver em vantagem e protegido, será violento, será egoísta, haverá de esquecer ou perdoar uma porção de vezes na vida coisas impossíveis de esquecer e perdoar, terá dívidas, doenças, prazeres estranhos, crenças absurdas, descobrirá a beleza e a vergonha, mas, antes de tudo isso, ele aprende que pode mentir.
A experiência quase universal de crescer sendo pobre no Brasil. O gênero crônica, que anda meio escanteado, aqui é muito bem tratado.
"meus pais trabalham para o céu chamado 'um dia'. Para um dia encher a casa de móveis, para um dia convidar toda a família para um churrasco, para um dia rever a praia, para um dia ter uma televisão grande, para um dia quem sabe até ter um carrinho, e esse nem precisaria voar, porque o futuro era ter o carro em si".
Pois, se existe o romance de formação, por que também não haveria a crônica? Em seu “Brincadeira sem futuro” (Todavia), um dos melhores livros do gênero em 2024, Ricardo Terto reúne algumas boas crônicas que falam sobre a sua formação.
O escritor usa a crônica como forma de contar a sua própria biografia. Ele reúne pequenas histórias, curiosas, inocentes e bonitas do seu passado e as retrabalha com a mentalidade de hoje, chegando a alguns resultados dos mais interessantes.
Essas histórias partem de um lugar de periferia e estão sempre próximas à pobreza. Negro, Terto aproveitar para falar também dos preconceitos e das violências, ainda que simbólicas, pelas quais precisou passar, sobretudo em sua adolescência.
Sobressai-se, em seus relatos, uma relação um tanto problemática com o pai, que é, afinal, quem lhe lança a frase que virou título do livro. Terto narra episódios da família, outros tantos da escola, sempre com um ótimo manejo da narrativa.
É interessante que, mesmo com uma proposta voltada às reminiscências, não se percebe no cronista uma visão idealizada da sua própria trajetória. Afinal, nota-se que muitas vezes ele também manifesta um olhar irônico sobre o seu passado.
Também é oportuno lembrar que, por mais que essas crônicas estejam vinculadas a eventos reais, não necessariamente serão 100% verdadeiras, pois Terto explica: "Não há quem escreva que não tenha uma relação muito complexa com a mentira".
Entre os textos mais marcantes estão os da busca do cronista por um emprego decente, assim como a crônica “Tartaruga”, sobre o primeiro beijo, que é repleta de verdadeiros “achados”. Há claramente muito beleza nas memórias que ele evoca.
Ricardo Terto é mais um cronista que não nasceu em berço esplêndido e que, por meio da crônica, encontra uma forma de expressão para as suas lutas pessoais, gerando identificação com o leitor e admiração pelos feitos da sua jornada.
Em tempo: este livro era um dos poucos realmente merecedores de constar na lista de semifinalistas do Jabuti 2025. Não chegou à final porque Ricardo ainda não era suficientemente conhecido pelos Jurados, que preferiram cronistas mais famosos.