Dos papéis que se encontraram no sótão, conta-se a história de um menino que sonhava ser cornaca, de uma bailarina manca, de um pirata sem pernas, de um preto que queria ser branco, de uma actriz que ficou cega, de um homem que não conseguiu matar-se, de um corpo adiado e de uma mulher que nunca existiu.
Aqui Onde Canto e Ardo é uma caixa de oito vozes. Oito sentidos dispersos que tomam um só corpo que arde na escuridão, cantando o absurdo da morte, a fragilidade e o desconcerto dos homens perante a sua condição fatal.
Francisco Mota Saraiva afirma que o romance, "passado entre Tete, em Moçambique, Lisboa e Serpa, com vagas referências aos períodos pré e pós-colonial, pretende ser um conjunto de diversas narrativas que, entrelaçadas umas nas outras, e através de um coro de oito vozes, de algum modo se unem para contarem a história do absurdo da morte, tanto através da imagística como do quotidiano mais corriqueiro".
Francisco Mota Saraiva nasceu em 1988, em Coimbra. É licenciado em Direito e tem um mestrado em Direito e Gestão. Em 2021, foi-lhe concedida, pela DGLAB, uma bolsa de criação literária, e, em 2023, uma residência literária pela Fundação Eça de Queiroz.
"Não hei-de morrer sem queimar muito do que aqui está. Talvez tudo arda e se faça cinza. Quem quer saber das cinzas? As coisas ardidas são o que são: escória, eflúvios de lamentos anónimos que se erguem no vento e que depois deixamos de escutar, deixamos de observar e deixamos de sentir... ... Imagine-se eu pegando fogo aos poetas e aos trovadores! Gente de devaneios ridículos... Chamam-lhes versos, para mim não passando de patetices e mais patetices a juntar à grande pira. ... Haverá ainda tempo enquanto a barba, as unhas, o cabelo..., enquanto não vier o medo."
Aqui Onde Canto e Ardo não é um livro com uma história, é um livro com oito histórias, oito personagens que aparentemente nada têm em comum mas cujas vidas se interligam pelo sangue e pelas circunstâncias da vida. Oito personagens complexas que por vezes nos confundem: Será que o que estou a ler é um sonho ou as suas memórias? A escrita do Francisco Mota Saraiva é uma escrita sem mácula que transforma este romance num livro muito original que nos agarra mas ao mesmo tempo nos obriga a lê-lo devagar e a degustar esta maravilha.
Não que se trate de uma comparação. Mas, numa altura em que António Lobo Antunes parece já não conseguir oferecer o desabafo mordaz (relatos esbeltos de uma carreira digna de Nobel), parece existir aqui em Mota Saraiva um estilo similar, onde cada capítulo exige uma atenção redobrada para se saborear a relação interessante entre quotidiano e magia. Um escritor promissor. O livro que lhe valeu o prémio Saramago chega em 2025, mas, por agora, vale bem a pena conhecer o seu trabalho neste pequeno canto, onde tudo arde.
Ao ponto de abandonar a leitura, no primeiro terço do livro.
Ponto positivo: Boas ideias - a exploração do homem pelo homem. Colonialismo. Racismo. O sonho. Reconheci temáticas saramaguianas.
Pontos negativos: - Considero que a polifonia de 8 personagens é desnecessariamente complexa e retira o leitor de uma leitura fluída. Há vozes que não acrescenta nem enriquecem o livro. -Não obstante o gosto que tenho numa linguagem cuidada e num vocabulário rico, por vezes, utiliza-se uma linguagem demasiado erudita, até pedante. - Com parecenças várias com António Lobo Antunes, cuja escrita não aprecio particularmente.
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- Um menino que sonhava ser cornaca. Papel de parede, com os quarenta ladrões e corridas de camelos. Num centro educativo, “meu sargento Albino”. Espera pelo pai que vende melões numa carrinha aos domingos. Graça, Lisboa. A sua avó é a atriz cega e a sua mãe é a bailarina. É mesmo filho do Cesário ou do amante da mãe? 2 anos em África. Diz-sePríncipe das Arábias, porque se casou com uma negra muçulmana/moura.
- Jorge. Um preto que queria ser branco. Com o patrão (o Africano), Rosália tem um filho que morreu. Enforcou-se. Cinzas deitadas ao poço. Nascido em Moçambique (Tete e Zambeze), veio para Serpa (Guadiana).
- Atriz, cega pelo pai. Em velha é levada pela filha bailarina e pelo genro Cesário para um lar. Quer ser enterrada em Serpa, ao lado das cinzas do irmão Jorge. Shakespeare, as três bruxas. Tenta suicidar-se no lar, com gás.
- O Africano, patrão. Um corpo adiado. Feroz e cruel, terras de Moçambique. Com medo, a morrer de cancro do estômago. Degradação da quinta e do corpo. Construiu barragens em Moçambique e os negros ficaram-lhe com a fazenda. Em Portugal (Serpa), ficaram-lhe com a propriedade os comunistas. Queria que a Rosália e o filho mestiço bastardo tomassem bicarbonato de sódio e se lavassem com cal para ficarem brancos.
- Rosália, a empregada negra. Uma mulher que nunca existiu. O Africano cortou-lhe o dedo mindinho.
- Bailarina que era manca. Assim ficou numa aula de ballet. Mulher de Cesário (o corno), por arranjinho (por ele ser o neto do Pita, amigo do avô Africano, que sabia de coisas…), trai-o com o patrão a quem assentava pedra na calçada, por conta da Câmara. Filha da atriz cega, neta do Africano. Tem o filho cornaca.
- Albino, um pirata sem pernas. E soldado, que perdeu as pernas na guerra em África. Tem irmãos - irmão Laureano.
- Cesário. Um homem que não conseguiu matar-se. Marido da bailarina manca e pai do menino que quer ser cornaca. “O corno”.
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Um livro diferente. O cuidado e a destreza no uso da língua saltam à vista. Um texto que exige do leitor uma atenção constante pois todos os pormenores contam. Em suma, brilhante!
(…)Francisco Saraiva afirma que o romance, "passado entre Tete, em Moçambique, Lisboa e Serpa, com vagas referências aos períodos pré e pós-colonial, pretende ser um conjunto de diversas narrativas que, entrelaçadas umas nas outras, e através de um coro de oito vozes, de algum modo se unem para contarem a história do absurdo da morte, tanto através da imagística como do quotidiano mais corriqueiro".
"Apesar das diversas narrativas se construírem quase como contos isolados, há toda uma amálgama de pormenores e detalhes que vão surgindo aos olhos do leitor como aparentemente supérfluos e secundários, mas que servem para afinal contar a história única da fragilidade e do desconcerto do ser humano perante a sua condição fatal. A par disto, há relações proibidas ou devastadas pela cor da pele, pela falta de dinheiro, pelo passado, por aquilo que nos torna inevitavelmente mais frágeis. Depois disto, há o luto e mais nada sobra", conclui Francisco Mota Saraiva. (…) Como suas referências cita autores como Agustina Bessa-Luís, António Lobo Antunes, Eça de Queirós, Ferreira de Castro e Gonçalo M. Tavares, entre os autores nacionais; quanto aos estrangeiros, enumera García Márquez, Dostoievski, Jorge Luis Borges, Proust, Louis-Ferdinand Céline, Lispector e Dickens, citando também referências cinematográficas, como os realizadores Stanley Kubrick, Ingmar Bergman e os irmãos Coen, e na pintura, como Paula Rego, Graça Morais, Goya e Rembrandt. "A arte é um multiplicador", atesta o autor.
Sobre a sua escrita declara: "Um estilo confuso e enigmático, porém, creio, digno. A linguagem hoje não é a mesma. Amanhã não será. E, no entanto, as palavras, a frase escrita, permanecem".(…) LUSA, 20-11-2023