Este livro traz um compilado dos textos escritos para o UOL TAB entre os anos de 2018 e 2023. Ao longo de cinco anos, o autor traduziu e codificou recortes de fatos sociais de forma fluida e acessível, estabelecendo elos entre culturas tão díspares como a brasileira e a coreana, a europeia e a indiana. Sua produção contextualiza e costura conceitos caros às ciências humanas, a fim de tentar compreender o mundo e seus assombros atuais — por mais intrincados que pareçam alguns fenômenos, a cultura explica muita coisa. “De tédio, ninguém morre” enfoca um período dinâmico, de disputas narrativas e informações desencontradas, com a internet e seus usuários sendo palco e plateia ao mesmo tempo, produzindo e propagando realidades (e fake news). O lugar de onde o autor fala possibilita perspectiva única. Alcoforado transita por lugares da alta sociedade e acessa um mundo de privilégios disponível apenas às elites; mas ainda é contestado e des(a)creditado nesses espaços, quando enxergam a cor de sua pele antes de suas credenciais. Essa dualidade é um bônus que lhe permite raro poder de análise e capacidade de transpor, para a linha reta, o que poderiam ser montanhas.
“gosto da ideia de que a cultura é uma lente que a gente usa para enxergar o mundo”
uma coletânea de textos dinâmicos e com temáticas interessantes, um pouco de repertório para entender melhor os nossos tempos, mesmo que o formato do livro, coletânea de artigos já publicados, não deixe espaço para aprofundar os assuntos.
“o ritmo de mudança dos comportamentos sociais junto do impacto vertiginoso das novas tecnologias tem acirrado a confusão, a percepção de que estamos todos perdidos. Do mesmo modo, nos empurra a buscar algum sentido, um porquê para o vivido”
gostei da primeira parte que relata o esvaziamento do conteúdo pela forma nos tempos atuais. escancara como estamos perdidos, sedentos por informações em um mundo que nos fornece apenas meias ideias, meias verdades e incapaz de nos dar certeza de um futuro ou de aprofundar relações, por culpa também da tecnologia e das redes que mudam por completo o ritmo da vida, e acabam criando uma nova forma de intimidade. em diversos artigos me lembrei do livro “as perfeições”, que discorre sobre “a falta de tempo e a sensação de que a vida escolhida não cabe dentro da nossa própria vida e é o principal sofrimento da nossa época”.
“as redes sociais capturam nossas vidas e nos colocam em um jogo com regras diferentes dos da vida real (…) com elas, surge um novo jeito de contar as próprias histórias, que mudam sobretudo, a nossa relação com o tempo”
- “antes da era digital, nós tínhamos menos informação, menos vozes e mais certezas. hoje temos mais informação, mais vozes e mais dúvidas. e não podemos voltar atrás”
“nós somos produto dos contextos culturais nos quais vivemos, mas também somos agentes da invenção e da transformação da cultura… muitas vezes somos guiados por seus mandamentos, sem qualquer reflexividade, sem tempo para pensar”
“de um lado, estamos sedentos por novas informações que nos deem uma visão mais ampla e geral do problema. e, do outro, qualquer um acha que pode falar sobre qualquer coisa e influenciar comportamentos.”
O livro é uma coletânea dos textos que o autor publicou no UOL. É realmente um prazer perceber que existem pessoas com pensamento crítico profundo como o dele em um mundo cheio de "palestrinhas".
Quotes:
"o que parece liberdade vez ou outra se transforma numa jaula de controle sobre o que somos."
"O capitalismo não aceita vazios. Se há brechas, ele entra, domina, coloca à venda e nem te conta o preço."
"O crescimento doa casos de burnout, depressão e estafa mental, são fruto da nossa inabilidade de aceitar que o tempo da transformação humana é o de uma vida inteira"
"No Brasil, a reputação entre os homens é medida pela conexão com o território do protagonismo e da potência. E, tendo os corpos como base fundamental da expressão da masculinidade, reservamos ao pênis o papel de congregar todos esses valores. É como se acreditássemos que onde há um pinto em ação, automaticamente há um homem viril."
"classificar o comportamento de alguém como ostentação é se valer da própria moralidade e das réguas de valor para aferir o que os outros podem ou não comprar com seus salários ou herança."
Adoro a maneira como o Michel fala de assuntos complexos de forma próxima, contextualizando os eventos às questões antropológicas maiores. Porém, devido ao formato do livro em artigos já antes publicados, falta profundidade em todos os assuntos. Acaba sendo menos interessante por só levantar a bola e cortá-la rapidamente com um argumento simples.
Não conhecia o Michel, mas vinha acompanhando o burburinho em relação ao seu livro "Coisa de rico". Acabei encontrando esse no K.U. e aproveitei para ler e conhecer um pouco do trabalho do autor antes de ir para sua obra de sucesso. Gostei bastante da leitura. O livro reúne textos da coluna do autor no UOL entre os anos de 2018 e 2023. Michel pega assuntos que estavam em voga no momento e faz uma breve análise sobre eles. Não é uma análise tão aprofundada, mas achei que tem uma tom simpático e convidativo para instigar reflexões. Acho bem legal essa forma de falar sobre estudos antropológicos trazendo exemplos reais e cotidianos, de fácil reconhecimento e acesso. Desmistifica a disciplina e a aproxima do leitor comum.
Compilado de artigos publicados pelo autor no UOL Tab de 2018 a 2023. Dito isso, não espere análise profundas dos temas abordados. O que você lê no livro são análises pontuais dos fatos e, tendo em vista a origem das mesmas, é possível aprender com e reconhecer o olhar crítico do antropólogo sem perder de vista o seu sarcasmo e bom humor.
michel é gênio! consumir qualquer coisa produzida por ele é sempre um convite para repensar a cultura e as relações que são formadas (consciente ou insconscientemente) a partir de códigos sociais
Sou muito fã do Alcoforado. Ouço os podcasts, leio seus artigos e livros sempre que posso. A capacidade interpretativa é fantástica, tenho aprendido muito. sucesso!