Visitar Amigos reúne treze contos inéditos. Sem ter um fio condutor, a colecção revela, no entanto, certa homogeneidade nos temas e nas abordagens. Alguns contos propõem a revisitação de ideias e linguagens de época, outros vivem do presente e pensam sobre heranças e renovações. Uns mais vincadamente e acidamente humorísticos, outros de carácter sobretudo perplexo, terão como pano de fundo sempre o tempo e a História, e a acção que por acaso ou por necessidade vamos tendo nela.
Luísa Costa Gomes nasceu em 16 de Junho de 1954. É licenciada em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Foi por vários anos professora do Ensino Secundário e trabalhou ainda no programa Escritores nas Escolas. Traduziu livros, traduziu e legendou filmes. Tem colaborado em vários jornais e revistas, programas de rádio e televisão. A sua obra literária começou com a publicação, em 1981, do livro "Treze Contos de Sobressalto". Desde aí já lá vai dezena e meia de títulos, entre o conto, o romance, o teatro e a crónica, com variados prémios, e traduções no estrangeiro. Várias das suas peças subiram ao palco. Escreveu o libretto de algumas óperas, entre elas o célebre "Corvo Branco", de Philip Glass, com encenação de Robert Wilson, apresentado por ocasião da Expo' 98 (e também em Madrid e em Nova Iorque). Criou a revista de contos FICÇÕES, que dirige e coordena.
Gostei do conto inicial e do “Menino Prodígio”. Li 8 dos 13 contos.
Confesso que não sou fã do género, posso por isso ter uma opinião à partida enviesada. Mas pergunto-me por que razão terão considerado este um dos melhores livros do ano.
Deixo três sugestões: “Corpo Vegetal”, de Julieta Monginho, “Nostos”, de H.G. Cancela e “Toda a gente tem um plano”, de Bruno Vieira Amaral.
Luisa Costa Gomes consegue nesta colectânea de contos matar vários coelhos de uma cajadada só: deambulando este estilos, oferece-nos olhares bastante singulares de situações aparentemente corriqueiras mas que escondem uma luta de classes por trás (A Ditadura do Proletariado ou até mesmo Património), o estado de suspensão que é estar com velhos conhecidos (o conto que dá o título ou Bagagem) e até mesmo uma crónica sobre gatos (o hilariante Carilinaria). Onde Luísa mais brilha é quando pinta as personagens com desafios morais de uma complexidade invejável para quem tem "apenas" umas breves páginas para fazer (O bem de todos, Cabeça Falante e o maravilhoso Menino-Prodígio). Ela atinge em dezenas de parágrafos o que muitos não conseguem em livros inteiros: manter o investimento e interesse no mundo que nos rodeia, em como os simples gestos podem esconder intenções mais complexas. Uma grande surpresa, e duvido que vá parar por aqui na obra desta Escritoria tão diversa como a aguarela que pinta nesta livro.
Há boas razões para que isso não aconteça no atletismo real, mas imaginemos (para efeitos deste comentário) que as provas de sprint e a maratona se misturavam na mesma pista e podíamos ver correr ao mesmo tempo, em paralelo, tanto os atletas de fundo quanto os frenéticos velocistas. Fixando um único intervalo da corrida, é natural que achássemos lentos e calmos os maratonistas, pouco dedicados quando os comparássemos com os denodados sprinters, dando ao fole dos pulmões e aos pistões dos gémeos como se a vida dependesse disso. Alguma reflexão, porém, lembrar-nos-ia de que os maratonistas já vêm a correr há muito tempo. Mais: que é provável que a sua corrida não termine ali, onde já estão caídos, apoplécticos, os da velocidade, mas mais à frente, numa meta que ainda não vemos. Para os maratonistas, o frame apanhado no instante é apenas um dos gestos de uma prolongada obra, que se move até à exposição total do seu trajecto. Há contos muito bons aqui: o que dá o título ao livro, quase no final, logo o primeiro, que resolve a velhinha luta de classes num relato de obras feitas em casa, ou um intitulado O menino-prodígio, que tem lá dentro uns truques de desenhar personagens com um traço de que só o velho Eça era capaz.
É o primeiro livro que leio da Luísa Costa Gomes e gostei bastante da escrita e dos contos, que têm temas muito diversos e atuais. Recomendo vivamente.
13 contos magistralmente escritos e incómodos. Não todos mas alguns, em que a violência contra crianças e animais provoca reação ou aversão no leitor, ao expor males sociais que frequentemente ignoramos ou tememos em ignóbeis pessoas que, provavelmente muitos reconhecem. Outros, irónicos. Não são contos que, se leem de ânimo leve ou que se esqueçam facilmente. Suponho que seja essa a ideia. Afinal, o ser humano é bem complexo.
Há apontamentos bonitos e delicados, e acho interessante como tão depressa concede espaço para refletirmos sobre mudanças de casa, como nos inclui em conversas sobre «gatos, hospitalidade forçada e solidão». Se calhar, foi uma má gestão de expectativas da minha parte ou não o li no tempo certo, porque não resultou comigo. Ainda assim, tenho de destacar: A Ditadura do Proletariado, O Menino-Prodígio e Visitar Amigos.
A arte do conto moderno com o tópico problema logo apresentado bem na introdução para um conto rápido, embora com bastantes descrições que fazem perdurar um evento no tempo, tornando-o arrastado, interminável e longo nas vidas das personagens. A autora recorre a um certo vocabulário menos comum, passagens com ironia e tom risível que nos mostram cenas do quotidiano. O usa da negação marcante na construção frásica que enfatiza a assunção da contrariedade e o uso de uma certa hipálage, ao estilo de Eça de Queirós, o dos pensativos cigarros. Surpreende e cativa a escrita da autora em contos que retratam temas da atualidade e que visam a reflexão sobre tópicos críticos, como as obras intermináveis do "projeto e enjoo do projeto" que contratam dependências infindáveis; ou o cuidar dos mais velhos e da sua teimosia; a obstinação tresloucada pelos gatos de estimação ("o dono dos gatos é o dono da adversativa") e a negligência perante os humanos ou o tema da bem feitora mulher que vai acolhendo todos os filhos decrépitos do marido traidor, a bem de todos, título do conto, pois "Bete tinha um feitio assim, que via tudo sempre a encaminhar-se."
Em 𝑽𝒊𝒔𝒊𝒕𝒂𝒓 𝒂𝒎𝒊𝒈𝒐𝒔 𝒆 𝒐𝒖𝒕𝒓𝒐𝒔 𝒄𝒐𝒏𝒕𝒐𝒔, Luísa Costa Gomes parte de um gesto simples — visitar — para construir um conjunto de 13 narrativas que iluminam o quotidiano com ironia fina e uma inteligência subtil. A visita, aparentemente banal, transforma-se num palco narrativo que expõe a teatralidade das relações, a fragilidade dos afectos e a estranheza que habita os gestos mais rotineiros. Cada conto funciona como uma porta entreaberta para a vida dos outros, mas também para a nossa: ao observarmos as casas, os hábitos e os silêncios alheios, reconhecemos os nossos próprios desconfortos, expectativas e pequenas ilusões.
A autora trabalha a frase com precisão e humor fino, revelando tensões íntimas e pequenas contradições humanas sem nunca perder a leveza. Há humor, mas nunca gratuito; há crítica social, mas sempre filtrada por uma atenção profunda ao comportamento humano.
Logo no conto inaugural, “A Ditadura do Proletariado”, uma situação doméstica trivial — obras feitas por mãos inexperientes — transforma-se num retrato irónico das nossas ilusões: “a vida é breve e nem tudo é como sequer.” (p. 15) O título, carregado de ressonâncias políticas e históricas, contrasta de forma deliciosa com a realidade prosaica de quem tenta assumir tarefas para as quais não tem qualquer preparação. Entre ferramentas mal usadas, decisões improvisadas e um entusiasmo que rapidamente se transforma em caos, o conto expõe a fragilidade das nossas certezas e a tendência humana para acreditar que “qualquer um consegue fazer”.
Em “O lenço de seda italiano”, um encontro de senhoras para beber chá torna-se num retrato certeiro da futilidade social: conversas que se enroscam em ninharias, uma coreografia de vaidades que revela mais do que pretende esconder. O lenço, delicado e aparentemente insignificante, torna-se metáfora da leveza — quase do vazio — das relações sustentadas em aparências.
Já em “Catilinária”, a devoção exagerada aos gatos, superior à atenção concedida aos filhos, é observada com ironia afiada. O título, piscadela de olho a Cícero, acentua o humor: a indignação desloca-se para o desvio afectivo contemporâneo, onde é mais fácil amar quem não nos confronta. Entre tigelas gourmet, rituais de mimo felino e negligências silenciosas, o conto expõe afectos deslocados com graça e desconforto.
Outro traço distintivo do livro é a forma surpreendente como a autora escolhe terminar os seus contos. Em vez de oferecer conclusões fechadas, Luísa Costa Gomes prefere a ambiguidade que espelha a própria vida, onde o que não é dito pesa tanto quanto o que foi narrado. Estes desfechos interrompidos — ou melhor, deixados em aberto — reforçam a ideia de que o quotidiano raramente se resolve de forma clara.
𝑽𝒊𝒔𝒊𝒕𝒂𝒓 𝒂𝒎𝒊𝒈𝒐𝒔 𝒆 𝒐𝒖𝒕𝒓𝒐𝒔 𝒄𝒐𝒏𝒕𝒐𝒔 confirma, assim, a mestria de Luísa Costa Gomes em transformar o quotidiano num retrato lúcido e irónico. Ao visitar os seus “amigos”, o leitor aproxima-se também das zonas menos iluminadas da convivência, descobrindo que o banal, quando observado com rigor e imaginação, é tudo menos simples.
Para melhor livro português de 2024, por alguns considerado, foi decepcionante e penoso terminar. Admito que o conto é um estilo de que não gosto muito e pode ter ajudado, e concordo que alguns dos contos tem passagens de bela escrita, mas o fim de cada um é quase sempre um não fim, e os temas abordados sao muitos deles superficiais e sem densidade que se veja e sinta. Mas isto sou só eu!