“Os Contos de Giuseppe Tomasi di Lampedusa” que a editorial D. Quixote deu à estampa, em boa hora em 2017, compila quatro histórias escritas pelo autor siciliano que se celebrizou com a publicação de “O Leopardo”, obra imortalizada pela adaptação cinematográfica de Luchino Visconti,e que foram pblicdas nos dois últimos anos da sua vida, ou seja, entre 1955 e 1957.
O conto que mais gostei, aquele que falou à minha sensibilidade foi “A Sereia”. É uma história belíssima, carregada de magia, poesia, encanto e possui todos os atributos que enformam os grandes escritores, os notáveis romancistas de todos os tempos.
Não ficamos indiferentes à sua pujança narrativa e até diria, sem cometer o erro de cair nas excentricidades do exagero, que consiste num momento literário único em que nos é fácil transportar para aquela praia em Augusta, algures no litoral oriental siciliano, para onde o erudito em filologia grega, o senador Rosario La Ciura se evadira para a preparação de um concurso para uma cátedra universitária de literatura grega na Universidade de Pavia. Que personalidade interessante!
Conhecemo-lo graças à construção inicial da narrativa personificada por um possível alter-ego de Lampedusa, Paolo Corbera conterrâneo de La Ciura que também nascera em Palermo, essa cidade idilicamente solarenga, jornalista de profissão e, como já é tradição no país augusto, homem de vários e diferentes amores, solitário, factor que decorre da característica agora mencionada: “Em doze horas, perdera duas raparigas, utilmente complementares entre si (…) o meu sicilianíssimo amor-próprio estava humilhado; tinha sido ferido; e decidi abandonar durante algum tempo, o mundo e as suas pompas”. Os diálogos que trava com Rosario La Ciura que conheceu num bar lúgubre em Turim, são absolutamente fantásticos! Este último, em relação às questões amorosas, possui uma clarividência que só podemos encontrar em quem, neste tema, teve a oportunidade de viver algo muito, muito especial! Agora, passados cinquenta anos, partilha conosco. E, de facto, consiste num episódio insólito, inimaginável, até pouco credível aquilo que confidencia ao amigo e, indiretamente, com o público … no entanto, sendo fantasia, sonho ou sendo fruto de um momento de alucinação, a história toca-nos profundamente, muito por força da extraordinária composição que Lampedusa, na sua capacidade criativa, constrói.
Os outros contos também são interessantes mas “A Sereia”, merece o lugar de “prima dona” nesta compilação.