Amizade sempre foi algo muito importante para mim. Na verdade, graças às minhas amigas, eu permaneço aqui, viva. Foram elas que desde sempre seguraram a minha mão. São elas que não permitem que eu sucumba diante dessa sociedade chamada patrirracialcapacitalista por Marcia Tiburi (2024). Em um texto que mescla relatos pessoais e considerações históricas importantes, Ingrid Gerolimich defende a ideia de que a amizade entre mulheres é "aquela que nos revela que o amor é muito mais do que este que sempre foi vendido para nós como o único caminho possível para a felicidade". Para revolucionar o A crise do amor romântico e o poder da amizade entre mulheres é livro para presentear e ler com as amigas, naquela terapia que só a conversa entre as nossas consegue promover. Conceição Evaristo, Silvia Federici, bell hooks e Audre Lorde são algumas das autoras citadas na obra. É interessante ressaltar que, com vocabulário próprio, cada uma dessas pensadoras trata sobre o tema. Audre Lorde, inclusive, faz uma bela distinção entre sororidade (termo adotado, em geral, pelas feministas brancas) e irmandade (relação que se estabelece – ou que deveria se estabelecer – entre mulheres negras, marrons, trans; enfim, à margem). Ter (e ser) amigas é autocuidado, mas é, também, cuidar de outras existências, é conversa-diálogo, escuta-respeito. "Ter amigas, além de agregar prazer à vida, é a maneira como construímos nossa subjetividade por meio de laços que nos integram ao mundo em vez de nos aprisionar [...]. A amizade é uma convocação à liberdade", diz Ingrid. Honro e celebro as minhas amigas. E você, já falou um "eu te amo" para as suas hoje? | Maria Carolina Casati
Ingrid Gerolimich é psicanalista, socióloga, documentarista e apresentadora.
Apresentou a primeira temporada de seu programa “Brasil no Divã” na revista Carta Capital.
Também é comentarista sobre temas da atualidade , tem artigos publicados e contribuições em importantes veículos como Revista Cult, UOL, Revista Marie Claire, Revista Forum, Revista Carta Capital, Jornal O Dia, além de contribuir como consultora em temas ligados à psicanálise, sociologia e politica para outros diversos veículos.
É autora e diretora do curta-metragem Revolução dos Afetos, que fala sobre o tema da solidão na contemporaneidade.
Ainda, criou e dirigiu o documentário Explante, com grande repercussão nacional. O filme levanta o debate sobre pressão estética e o impacto na saúde física e mental das mulheres.
Teve sua estréia internacional em Lisboa - Portugal e, no Brasil, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, no Centro Cultural São Paulo (CCSP) em parceria com a SPCINE, e, em Brasília, no icônico Cine Brasília, entre outros.
É tão bom encontrar uma autora com a qual você se identifica completamente em termos de políticas dos afetos! Como uma boa aquariana clássica (rá!), sempre privilegiei relações de amizade acima de qualquer interesse romântico, porém a nossa sociedade é tão doentiamente calcada no ideal de monogamia capitalista que o amor acabou virando uma propriedade privada. É disso que trata o livro da socióloga e psicanalista Ingrid Gerolimich, de como algo tão belo como o amor, se tornou algo tão mesquinho na sociedade capitalista. Sempre lembrando de perguntar: já amaram suas amigas hoje?
Neste livro, Ingrid Gerolimich, socióloga e psicanalista brasileira, discute questões importantíssimas sobre o lugar que vem sendo dado a mulher no que diz respeito às relações interpessoais.
Ela conta como, ao longo da história, o patriarcado minou todas as relações fraternais entre mulheres, transformando, por intermédio de afirmações e narrativas falsas, a amizade feminina em algo socialmente mal visto. Esse é o caso da palavra "gossip", por exemplo, que antes era um signo cujo sentido denotava algo como conversa entre comadres (tendo como parâmetro o português), mas que depois foi distorcido para o atual sentido que possui hoje: uma conversa cujo o intento é "destruir" a sociedade, a famigerada fofoca.
Nesse sentido, além de pincelar assuntos como o supracitado, Gerolimich propõe uma pedagogia da amizade (entre mulheres, sobretudo), inspirada evidentemente em bell hooks. Ela argumenta que o Capitalismo privatizou as relações sociais ao âmbito apenas familiar, sendo isso prejudicial a todos, mas sobretudo às mulheres, a quem historicamente o trabalho de cuidado é imputado, apesar de que, hoje, sejam também provedoras do lar, tal qual os homens.
Portanto, na visão da autora, a amizade em geral, mas principalmente entre mulheres, é importante não só para fugirmos da solidão, que segundo muitos especialistas é o grande mal do século (os autores apontam que isso é em virtude do apenas do capitalismo, mas para mim há outra motriz a ser considerada, o desmonte das relações possibilitadas pela religião, que é iniciado a partir humanismo, mas com seu ápice na era moderna e contemporânea - aponto isso, visto que é inegável o papel que a religião carregou e carrega em toda a história humana, esse foi o único ideal coletivo capaz de unir povos distintos durante a história, ainda que tenha todas as suas contrariedades.), mas também para possibilitar a existência de redes de apoio e cuidado para as mulheres, as quais fundamentam e cuidam da sociedade, sem que não haja ninguém para cuidar delas.
Livro que aborda temas mais profundos do que o título possa parecer ser. Fornece um histórico sobre a posição das mulheres na cultura ocidental, especialmente após a criação do patriarcado e os instrumentos de controle, como o mito da femilidade e a demonização das mulheres (inquisição e caça às bruxas são só exemplos mais radicais). Mostra os objetivos por trás da crença de que as mulheres devem centralizar suas vidas em relacionamentos afetivo-amorosos e na criação de filhos, enfraquecendo suas redes de apoio, e criando uma relação de competição e desconfiança com outras mulheres. Trata da crise do amor romântico e de como as relações estão se transformando, especialmente neste século. Propõe transformação de relações atuais e fortalecimento de vínculos, especialmente com mulheres, e de como isso impactaria a estrutura da sociedade. Livro curtinho, mas muito bem escrito e interessante.