O livro tem como personagens centrais mãe e filha e através delas conta a história de uma família que passou pela ditadura no Brasil.
Este relato é, além de uma denúncia dos horrores, um testemunho das sequelas físicas e psicológicas que ficaram nas vítimas, diretas e indiretas, dos atos criminosos ocorridos neste período da nossa história.
O tema do livro por si só já é bastante delicado, mas tudo piorou quando descobri que Ana criou este livro a partir da história vivida pela própria mãe, Cléa. Ela foi presa pelos militares enquanto estava grávida de Ana.
A narrativa começa com Cléa apagando uma frase que foi escrita no muro da casa em que morava com o marido e dois filhos, gestando Ana. A partir disso conhecemos os desdobramentos, as consequências da tal frase e, durante boa parte da leitura, vivemos a expectativa de descobrir qual é a frase e quem a escreveu.
Ana escreve os relatos como se tudo fosse um grande diálogo entre mãe e filha. Como Cléa nunca falava sobre o que passou durante o encarceramento, a autora usou memórias contadas pelo pai, pelo tio e também informações retiradas de documentos oficiais da Comissão Nacional da Verdade (CNV) para escrever a história.
Em uma entrevista para o canal do YouTube chamado 'Senta direito garota!', Ana revela que um dos intuitos do livro era imaginar o sofrimento da mãe durante seu tempo como prisioneira e entender o motivo do afastamento entre elas.
Estes são alguns temas presentes no livro: a prisão sem provas; a incriminação sem base legal; como as pessoas tinham que confessar crimes que não cometeram; as torturas; a sexualização da mulher prisioneira. Também fala das consequências, do depois disso: sobre tantos muros que se constroem depois de tanta violência; a dificuldade de falar sobre isso por sentir medo ou vergonha; do medo de que aquilo se repetisse; sobre a dualidade de pensamento de uma mãe que, ao mesmo tempo quer que o bebê não resista (para não ter que enfrentar os horrores do cárcere), mas se apega a ele como um motivo para continuar viva.
A autora também traz o ponto de vista da filha que foi negligenciada pela mãe - que tinha que trabalhar muito para reestabelecer a vida da família e que não sabia como lidar com o trauma da tortura - ; a filha que carrega em si o fardo de ser a geração do depois; a filha que herdou o título de comunista criminoso por causa da história de seus pais, mesmo que eles próprios não os fossem.
A história é contada em cinco atos, com escrita poética e fluída. Mas não dá para dizer que é um livro fácil e rápido de ler. O conteúdo é profundo e fica ainda mais complexo se o leitor é empático.
A narrativa reforça o que é retratado no livro/ filme 'Ainda estou aqui': o apagamento, o silenciamento e sumiço das vítimas em muitos aspectos: "As autoridades procuradas sugeriam que a pessoa desaparecida vivia na clandestinidade, teria abandonado o núcleo familiar ou partido para o exílio. Sempre ressaltando que os desaparecidos eram "terroristas", "subversivos" e "perigosos", atribuíam às próprias vítimas a culpa por seu destino "desconhecido" ou "ignorado"."
Também mostra como a sociedade tenta minimizar o sofrimento imposto pela ditadura: "[...] Foi a primeira vez que tive coragem de dizer em público: meu pai foi preso político, minha mãe foi presa grávida de mim. A maioria deles, entre os quais não me esqueço, um filho de um general, disse, disseram, jura? O que é isso? Não, não acredito. As coisas não foram tão ruins assim. [...]".
Como você pode ver, é um livro curto, mas que tem muitos assuntos nele. Recomendo a leitura desse livro, independente de partido ou convicção política, pois esse livro não é sobre isso. É sobre pessoas e sentimentos, como diz a própria autora. Leia para que a gente não se esqueça da história do nosso país, para que não deixemos que aconteça tudo outra vez.