"Melhor não contar" é um livro biográfico, difícil, maduro, introspetivo e, parece-me, bastante catártico. Tatiana Salem Levy, com quem tive a honra de falar brevemente na última edição do Festival Fólio, em Óbidos, parece-me, aqui, escrever para expurgar o mal, sendo que o mal, que não queria contar, foi esse assédio por parte de um padrasto. Não foi uma situação grave, no sentido de envolver violência física, mas apenas cada um sabe das marcas que as coisas leves deixam. Espero que tenha sido melhor contar.
Sublinho, porém, que este livro é muito mais do que a história de um assédio. A relação da Tatiana com a mãe nos vários momentos das suas vidas, incluindo na doença, fascinou-me.
"Todos choro meu contém um pouco da saudade que sinto da minha mãe."
"Poucos dias depois, ela acordou com as palavras bagunçadas - as frases tinham algum sentido, mas havia nelas palavras intrusas e uma ordem estranha."
"Pensando bem, eu engoli a alma da minha mãe quando estava na barriga dela. Às vezes penso que as enxaquecas, as dores nas costas, os formigamentos, as insónias advêm do excesso de alma herdada."
A sua reflexão sobre si própria, sobre o aborto que fez em Lisboa e sobre a condição feminina deixou-me maravilhada, pela sua extrema acuidade e honestidade.
"Quando foi que me dei conta de que nunca busquei essa felicidade pra valer porque me sentia presa à ideia de que só se é profundo e intenso na tristeza."
"Sobre o que é o livro, afinal?, me pergunta G. Hoje eu diria: sobre o sangue que sai da minha boceta, de todas as nossas bocetas. O sangue da primeira menstruação, do parto, do aborto, da violência sexual. O sangue com o qual lidamos tantas vezes ao longo da vida e do qual vocês têm tanta repulsa.
Então, penso: há tanto sangue na literatura, tanto sangue no cinema, mas é dos assassinatos, das guerras; às vezes das doenças nunca o que escorre pelas nossas pernas. Por que nos ensinam a ter nojo desse sangue, enquanto somos expostas a tantos outros?"
A escrita da Tatiana é, para mim, de uma franqueza desarmante, tocando em pontos sensíveis como em cordas de um instrumento que toca uma melodia harmoniosa e melancólica.
Quero ler tudo da Tatiana.