O livro de Jessé divide o grupo de "pobres de direita" em duas vertentes, que formariam os principais blocos de eleitores de Bolsonaro: o branco trabalhador precarizado do Sul e de São Paulo e os evangélicos. Aqui, como em outros textos seus, o autor defende, em linhas gerais, que existe um fenômeno único capaz de explicar as mazelas brasileiras e que media a luta por reconhecimento no campo social por aqui, e esse fenômeno é o racismo. Considerando a "originalidade" do racismo no pensamento de Jessé, seu potencial de racionalizar uma série de fatores sociais irracionais (o preconceito regional, por exemplo, é visto como irracional a não ser que se considere o racismo que o fundamenta), é importante perguntar o que o autor entende por racismo. Jessé é um idealista, e para ele o racismo é, antes de tudo, uma estrutura de pensamento que fundamenta e dá sentido a determinadas práticas sociais. Sendo assim, a base do racismo não seria "racial" (ou econômica, ou cultural), mas antes "espiritual." Qual seria a estrutura desse racismo espiritual? O "branco" (que não precisa ser, fenotipicamente, branco) representaria as virtudes espirituais da "cognição e inteligência; moralidade refletida e capacidade de elaboração estética" (p. 172), enquanto no polo oposto o "negro" (que não precisa ser, fenotipicamente, negro) pertenceria ao "reino da animalidade incontrolável das pulsões do sexo e da agressividade" (p. 172). Em outras palavras, no ideário racista, o branco equivale à mente e à civilização, o negro, ao corpo e à barbárie. O poder desse esquema explicativo está na sua capacidade de se associar facilmente a uma infinidade de exemplos concretos, como as imagens culturalmente arraigadas da "mulata", do "malandro", ou, se aumentarmos nosso escopo, as representações do judeu nas peças de propaganda nazista. O exemplo dos judeus, inclusive, ajuda a entender o idealismo de Jessé, que descreve o genocídio dos palestinos pelos israelenses como uma guerra racial de um grupo "vinculado aos povos do Norte" contra outro "vinculado aos povos do Sul" (p. 60). Essa identidade racial do judeu como branco, por óbvio, é coisa nova e bastante flexível, o que mostra a não-essencialidade das categorias raciais no pensamento de Jessé; sendo ideais, essas categorias podem ser ocupadas em tese por qualquer conteúdo material concreto.
Essa é uma boa explicação do racismo? Uma pergunta que me vinha, conforme o autor ia racionalizando uma série de fenômenos através do preconceito racial, era esta: o que racionaliza o racismo? Ou, simplesmente -- por que o racismo existe? Qual é a sua causa? Talvez fosse possível falar da constituição da sociedade brasileira através da escravidão, mas isso seria colocar a organização econômica antes da estrutura ideal que determina que negros são inferiores aos brancos, e que legitimaria, para Jessé, a própria escravidão (e que continua legitimando, aliás, a opressão da "ralé" que é culturalmente negra). A passagem mais elucidativa do texto diz que "o racismo é o mapa social mais ao alcance do leigo -- que precisa de uma explicação convincente para a hierarquia social, mas que não sabe como o mundo social complexo e confuso funciona. O racismo permite esclarecer todas as dúvidas e passa a presidir a visão de mundo dessas pessoas congnitivamente carentes de uma explicação razoável acerca de como o mundo social funciona. Além da 'necessidade teórica' de explicação para o funcionamento complexo da sociedade, temos aqui também o vínculo emocional, que é o que torna essas distinções irresistíveis para um público sedento por autoestima e distinção social positiva à custa de quem for" (p. 115). O racismo é a maneira mais simples de dar conta da complexidade do mundo moderno, de explicar e legitimar seu funcionamento, e o lugar de cada indivíduo que o habita. Isso não responde inteiramente a pergunta sobre a origem do racismo, mas talvez eu encontre uma resposta melhor em algum outro livro do Jessé sobre o assunto.
No sentido idealista que Jessé atribui a ele, o racismo realmente explica muito bem por que a massa branca do Sul e de São Paulo votou em Bolsonaro (ressentimento, necessidade de reconhecimento social a ser obtido às custas dos negros, dos nordestinos, dos LGBTs etc.). Na parte do livro dedicada a explicar por que os evangélicos elegeram Bolsonaro, entretanto, o argumento começa a apresentar alguns problemas, no meu ponto de vista. O neopentecostalismo (na interpretação de Jessé uma religião criada por um homem negro, praticada por negros, com uma espiritualidade "mágica" análoga à das religiões afrobrasileiras e meramente envernizada por certos conceitos cristãos que não tocam mais do que a superfície) seria uma frente de batalha negra e popular contra os próprios negros no Brasil (cuja expressão religiosa genuína seria o Candomblé), e isso explicaria por que os evangélicos votaram em massa a favor de Bolsonaro. Jessé chega ao ponto de dizer que "o neopentecostalismo é ideal para quem pretende 'embranquecer'". Eu me pergunto, sem conhecer profundamente o universo evangélico no Brasil, se praticar uma religião associada culturalmente à população negra e pobre ajuda alguém a embranquecer socialmente, isto é, a aproximar-se de um ideal de "brancura moral" que Jessé presume constitutivo do esquema de legitimação social no nosso país. A despeito da pregação contra religiões de matriz africana, imagino que poucos membros de igrejas evangélicas tenham realmente se confrontado algum dia em suas vidas com a escolha de praticar o Candomblé, dado o número pequeno de praticantes dessa religião no Brasil (em sua maioria brancos), ou de entrar para a Universal. Um esquema explicativo quase freudiano do "retorno do reprimido" ou do "narcisismo das pequenas diferenças" que aponta para as semelhanças entre a religiosidade afrobrasileira e os cultos neopentecostais é gracioso como retórica ensaística, mas parece perder de vista inclusive o potencial racismo que informa o preconceito da classe média educada contra os evangélicos (preconceito que Jessé compartilha, e que faria sentido segundo a sua noção de racismo cultural).
O estilo do Jessé tende a ser provocativo e didático. Quando ele acerta, ele acerta nas linhas gerais. O custo é uma simplificação generalizada dos próprios conceitos que informam seu pensamento, principalmente (e ironicamente) do racismo.