Um livro sobre os contrastes de um dos problemas mais preocupantes da atualidade que, por não ser de simples resolução, temos considerado aceitável não debater.
Sobre o desinteresse dos meios de comunicação, que não veem novidade no fluxo contínuo de pessoas que, há mais de uma dúzia de anos, tentam chegar por mar à Europa (uma das razões pelas quais subestimamos tanto o número de pessoas que tentam chegar por mar à Europa; o número de pessoas que morrem ao tentar chegar por mar à Europa). Sobre o interesse resiliente de jornalistas que, mesmo com financiamento insuficiente, fazem questão de noticiar o fluxo contínuo de pessoas que, todos os dias, tentam chegar por mar à Europa (e que se apercebem, todos os dias, de quão alto é o número de pessoas que tentam chegar por mar à Europa; o número de pessoas que morrem ao tentar chegar por mar à Europa).
Sobre o desespero de quem elege como solução entrar num barco demasiado frágil, perigosamente cheio, previsivelmente insuficiente perante uma onda ou uma rajada de vento mais forte - tantas vezes, com os/as filhos/as ao lado; com os/as filhos/as nos braços; com os/as filhos/as na barriga. Sobre a esperança dos/as familiares de quem entrou num barco demasiado frágil e perigosamente cheio, que anseiam a melhor das notícias - que, tantas vezes, não recebem quaisquer notícias (que, tantas vezes, muito menos recebem quaisquer corpos).
Sobre a monetização doentia do sofrimento humano, por parte de quem obtém dinheiro das pessoas que procuram os barcos demasiado frágeis, deixando-as a aguardar à beira-mar durante horas por barcos que nunca irão chegar; por parte de quem obtém dinheiro dos/as familiares das pessoas que entraram nos barcos demasiado frágeis e perigosamente cheios, a quem prometem notícias que não têm para dar, a quem vendem fotografias de pessoas que não são as que os/as familiares procuram (garantindo-lhes que são as que os/as familiares procuram).
Mas, acima de tudo, o livro é sobre a dedicação sofrida de quem definiu como missão diária - como missão horária - não abandonar as pessoas à procura de entrar nos barcos demasiado frágeis, aconselhando-as a não partir quando a meteorologia ameaça ainda mais a viagem (conscientes de que elas partem mesmo quando a meteorologia ameaça ainda mais a viagem), telefonando-lhes durante a viagem para acompanhar o seu progresso (enquanto a falta de rede ou a falta de bateria não impossibilitam a comunicação), solicitando ajuda às autoridades quando o socorro é necessário (mesmo sabendo que a resposta é cada vez mais demorada; mesmo sabendo que, mesmo quando há resposta, alguns barcos não chegam a ser encontrados), atendendo repetidamente os telefonemas dos/as familiares esperançados (a quem podem dizer que, um dia, apareceu um barco após ter estado à deriva 34 dias, com oito das 21 pessoas ainda vivas), divulgando em massa pedidos de informação sobre pessoas desaparecidas e, quando o desfecho é o pior, ajudando a repatriar ou enterrar os corpos daqueles/as para quem a única solução foi entrar num barco demasiado frágil, perigosamente cheio, previsivelmente insuficiente perante uma onda ou uma rajada de vento mais forte.