Alguns poemas deste livro foram anteriormente publicados em revistas do movimento modernista de 1922 como Estética, Klaxon e Revista do Brasil. Com efeito, em Libertinagem é possível captar a sedimentação do papel central exercido por Manuel Bandeira nesse movimento que tanta importância teve em nossa literatura. A liberdade formal é sem dúvida uma das grandes marcas deste livro, embaladas pelos temas mais simples que remetem à pureza da infância e às vezes a uma fina ironia ou humor irreverente. Também um tom de “brasilidade” ecoa em poemas como “Mangue”,“Belém do Pará” e “Evocação do Recife”, traço característico das mais importantes manifestações literárias dos anos 1920. Poemas como “Vou-me embora pra Pasárgada” e “Pneumotórax”, por sua vez,se enraizaram profundamente na alma de gerações de leitores ao longo das últimas décadas e firmaram o nome de Manuel Bandeira entre nossos maiores artistas da palavra.
Manuel Bandeira (April 19, 1886 – October 13, 1968) was a Brazilian poet, literary critic, and translator, who wrote over 20 books of poetry and prose. ~ Manuel Bandeira foi desenganado pelos médicos por causa de uma tuberculose, aos dezenove anos de idade. O que provou ser um engano: ele viveu até os 82. Toda a sua poesia tem esse sentimento, em suas palavras, de "Toda uma vida que poderia ter sido e não foi".
Ele foi um dos poetas nacionais mais admirados, inspirando, até hoje, desde novos escritores a compositores. Aliás, o "ritmo bandeiriano" merece estudos aprofundados de ensaístas. Por vezes inspira escritores não só em razão de sua temática, mas também devido ao estilo sóbrio de escrever.
Manuel Bandeira possui um estilo simples e direto, embora não compartilhe da dureza de poetas como João Cabral de Melo Neto, também pernambucano. Aliás, numa análise entre as obras de Bandeira e João Cabral, vê-se que este, ao contrário daquele, visa a purgar de sua obra o lirismo. Bandeira foi o mais lírico dos poetas. Aborda temáticas cotidianas e universais, às vezes com uma abordagem de "poema-piada", lidando com formas e inspiração que a tradição acadêmica considera vulgares. Mesmo assim, conhecedor da Literatura, utilizou-se, em temas cotidianos, de formas colhidas nas tradições clássicas e medievais. Em sua obra de estréia (e de curtíssima tiragem) estão composições poéticas rígidas, sonetos em rimas ricas e métrica perfeita, na mesma linha onde, em seus textos posteriores, encontramos composições como o rondó e trovas.
É comum criar poemas (como o Poética, parte de Libertinagem) que se transforma quase que em um manifesto da poesia moderna. No entanto, suas origens estão na poesia parnasiana. Foi convidado a participar da Semana de arte moderna de 1922, embora não tenha comparecido, deixou um poema seu (Os Sapos) para ser lido no evento.
Uma certa melancolia, associada a um sentimento de angústia, permeia sua obra, em que procura uma forma de sentir a alegria de viver. Doente dos pulmões, Bandeira sofria de tuberculose e sabia dos riscos que corria diariamente, e a perspectiva de deixar de existir a qualquer momento é uma constante na sua obra.
A imagem de bom homem, terno e em parte amistoso que Bandeira aceitou adotar no final de sua vida tende a produzir enganos: sua poesia, longe de ser uma pequena canção terna de melancolia, está inscrita em um drama que conjuga sua história pessoal e o conflito estilístico vivido pelos poetas de sua época. Cinza das Horas apresenta a grande tese: a mágoa, a melancolia, o ressentimento enquadrados pelo estilo mórbido do simbolismo tardio. Carnaval, que virá logo após, abre com o imprevisível: a evocação báquica e, em alguns momentos, satânica do carnaval, mas termina em plena melancolia. Essa hesitação entre o júbilo e a dor articular-se-á nas mais diversas dimensões figurativas. Se em Ritmo Dissoluto, seu terceiro livro, a felicidade aparece em poemas como "Vou embora para Pasárgada", onde é questão a evocação sonhadora de um país imaginário, o pays de cocagne, onde todo desejo, principalmente erótico, é satisfeito, não se trata senão de um alhures intangível, de um locus amenus espiritual. Em Bandeira, o objeto de anseio restará envolto em névoas e fora do alcance. Lançando mão do tropo português da “saudade”, poemas como Pasárgada e tantos outros encontram um símile na nostálgica rememoração bandeiriana da infância, da vida de rua, do mundo cotidiano das provincianas cidades brasileiras do início do século. O inapreensível é também o feminino e o erótico. Dividido entre uma idealidade simpática às uniões diáfanas e platônicas e uma carnalidade voluptuosa, Manuel Bandeira é, em muitos de seus poemas, um poeta da culpa. O prazer não se encontra ali na satisfação do desejo, mas na excitação da algolagnia do abandono e da perda. Em Ritmo Dissoluto, o erotismo, tão mórbido nos dois primeiros livros, torna-se anseio maravilhado de dissolução no elemento líquido marítimo, como
leitura rápida que pode ser feita em um dia. manuel bandeira teve uma carreira multifacetada que marcou o século xx, mas seu livro mais importante é libertinagem, que se enquadra no modernismo de 1922.
constam, aqui, poemas tão emblemáticos que se tornaram expressões idiomáticas. é o caso de "vou-me embora pra pasárgada". alguns de seus poemas mais famosos para além de pasárgada também foram escritos para "libertinagem"; por exemplo, "o cacto", "pneumotórax", "poética" e "o último poema".
adoro as reflexões sobre o cotidiano propostas por bandeira; são repletas de sensualidade, ironia e costumam discutir temas como a mortalidade.
alguns de meus poemas favoritos do livro: "não sei dançar", "camelôs", "o cacto", "pneumotórax", "poética", "chambre vide" "belém do pará", "evocação do recife", "poema tirado de uma notícia de jornal", "lenda brasileira", "o major", "andorinha" "profundamente", "macumba de pai zusé”, “noturno da rua da lapa", "vou-me embora pra pasárgada" e "o último poema".
foi tão rapidinho de ler. gostei! me identifiquei com a depressão e a melancolia e com certeza (se eu chegar na fase adulta) vou sofrer com saudade da infância que nem ele
É flagrante na poesia de Manuel Bandeira a tensão de quem se equilibra entre a vida e a morte. Mas não pense que isso o torna, simplesmente, um poeta mórbido. A morte é presença constante, sim — afinal, ele passou a vida inteira convivendo com a ameaça da tuberculose —, mas essa condenação não paralisa o poeta. Ao contrário: é a partir dela que ele constrói uma poesia profundamente viva. Libertinagem é permeado por um lirismo irônico, terno, nostálgico e, como não poderia deixar de ser, melancólico. Mas é uma melancolia que convive com o cotidiano, com o humor, com a leveza. A poesia de Bandeira celebra as pequenas coisas da vida como quem sabe que pode perdê-las a qualquer momento.
Como o poeta deixa bem claro no poema "Poética", aqui ele vai em busca de um lirismo libertador. Longe das amarras do vernáculo, da forma, da métrica — o poeta quer o lirismo dos loucos. Mas que não se enganem os olhos que não veem: há método na loucura. Sua poesia é construída com liberdade, sim, mas também com precisão.
A tensão entre vida e morte, forma e liberdade, se resolve num lirismo muito próprio — ao mesmo tempo popular e sofisticado, erudito e simples. Libertinagem é isso: uma libertação não só da forma, mas dos temas solenes. Ao invés de idealizar a existência, Bandeira encontra beleza nas paixões breves, na cidade, na infância, no corpo.
Lirismo dos loucos? Sim. Mas também lirismo dos que veem a poesia que há nas coisas.
Leitura interessante, fiquei surpreendido com o pessimismo ou negativismo do Bandeira. E também com o “longing for” dele, um desejo saudosista, triste, que reflete uma falta. Meus favoritos foram Pneumotórax, Evocação do Recife, Vou-me embora pra Pasárgada, O impossível carinho, e Poema de finados. Recomendo.
"Recife... Rua da União... A casa de meu avô... Nunca pensei que ela acabasse! Tudo lá parecia impregnado de eternidade Recife... Meu avó morto. Recife morto, Recife bom, Recife brasileiro como a casa de meu avô."