Versão portuguesa: "La Musica/Cinema Éden", Artistas Unidos/Livros Cotovia
JOSEPH (docemente) Ela não sabia, a mãe. Nada. Ela havia saído da noite do Éden ignorante de tudo. Do grande vampirismo colonial. Da injustiça fundamental que reina sobre os pobres do mundo.
“Uma Barragem contra o Pacífico”, o “Amante”, “O Amante da China do Norte”, “Cinema Éden”, várias versões para o mesmo friso cronológico na vida de Marguerite Duras.
O Cinema Éden é o local onde a mãe de Duras tocou piano durante 10 anos, até ao fim do cinema mudo, a fim de amealhar dinheiro suficiente para comprar terrenos de cultivo, que acabaram por ser um logro. Caída na miséria, a família vê uma possível saída em Mr. Jo, um chinês abastado que mostra interesse em Suzanne.
VOZ DE SUZANNE (…) Era preciso deixar a planície. Eu sabia que a mãe tinha medo de morrer porque nós éramos tão novos. Percebi o olhar da minha mãe. Sorri para o plantador do Norte. (Pausa) Era a minha prostituição.
A relação romanceada e problemática entre uma rapariga e um homem 20 anos mais velho, que conhecemos já de “O Amante”, é posta a nu nesta peça como o negócio que realmente é.
SUZANNE Ela tentou vender-me, a mãe, em vez do diamante. Pedia a Carmen para me vender. Para me encontrar um homem com quem me casasse, que me levasse para longe, para sempre.
Como diz Deborah Levy, Marguerite Duras nunca pede desculpa pela sua moralidade. É isso que torna a sua escrita tão crua e verdadeira.
SUZANNE (…) Ela quer recomeçar. Vender os filhos, recomeçar. Ela quer ter razão contra a injustiça, a mãe, contra a injustiça fundamental que regula a história dos pobres do mundo. Ainda. Ela quer ter razão contra a força dos ventos, contra a força das marés. Ainda contra o Pacífico. Ela ainda vê estradas sobre as águas do Pacífico. Arroz. É preciso ter cuidado com a mãe.
É esta mãe que é o pivô da peça “Cinema Éden”, uma personagem que no palco parece apenas uma presença, como se fosse um fantasma ou um fardo que os filhos têm de carregar mesmo após a sua morte.
O que ela representa na peça ultrapassa o que ela é, e disso ela é responsável.