Algumas considerações sobre o livro:
- Romance de uma grande atualidade. Tal é tanto uma força como uma fraqueza, pois, se é verdade que a proximidade temporal tem a vantagem de nos expor nomes e imagens que estão frescos na nossa memória (o massacre de Christchurch, a invasão do Capitólio, QAnon, etc.), também acontece que reler este livro daqui a dez ou vinte anos, presumivelmente com conhecimento do desfecho histórico de alguns eventos como a guerra da Ucrânia, os legados de Trump e Putin, etc., irá retirar força à narrativa e à perspetiva pessimista que o livro faz do futuro próximo, como sucedeu, creio, com "O Sétimo Selo".
- O ponto mais forte da escrita de JRS é, acho, a sua capacidade de informar e explicar a um público leigo grandes temas da Humanidade, sejam eles políticos, religiosos, filosóficos ou científicos, como, aliás, seria de esperar de um jornalista consagrado.
A "Nota Final" que acompanha este livro em particular expõe magnificamente os fundamentos do confronto entre Rússia e Ocidente, a diferença entre os regimes e o papel de Trump.
- No entanto, considero que esta tentativa (conseguida) de expor assuntos o mais claramente possível sacrifica a naturalidade dos diálogos, dando a entender que as personagens estão claramente a falar para o leitor e não entre elas, pela quantidade de vezes que repetem ideias, o uso de expressões que pessoas não usam em conversas informais, personagens que seria de esperar, pela sua posição, terem conhecimento de assuntos que, para conveniência de ser explicado ao leitor, não têm.
- A personagem de Tomás Noronha, tal James Bond, já o conhecemos bem e como herói literário tem de se dar o desconto de que, se fosse na vida real, depois de todas as aventuras que já teve, seria um herói nacional que dificilmente poderia ir a algum lado sem ser reconhecido. Muitos autores combatem este "problema" fazendo de cada enredo um episódio "estanque" (e este livro pode ser lido sem os outros) mas notei bastantes referências a livros anteriores, ao ponto de ser realmente uma sequela de "A Mulher do Dragão Vermelho", especialmente no que toca à relação com Maria Flor.
- Como acontece em muitos dos livros de JRS, há várias linhas narrativas paralelas que se vão alternando de capítulo em capítulo até confluírem no final. E se a linha Russa e Americana, assim como o contacto inicial com Tomás são bastante coerentes, já a parte passada no Myanmar parece um desvio demasiado conveniente, apenas para ser usado como exemplo de massacres causados devido às redes sociais, que é o tema do livro, e quase dá a sensação que se não fosse com essa função utilitária para a narrativa, Tomás nunca lá teria ido. Aliás, durante este interregno Tomás simplesmente esquece a pressão de que está a ser alvo pelos russos. Foi um side-quest.
- A partir de certa altura tornou-se previsível que era Leroy que teria o telemóvel que os russos queriam recuperar, mas passei o livro todo a questionar-me porque recorreram eles a Tomás. A resposta é dada no epílogo mas é-me pouco convincente: porque Chernyshev sabia da relação de Tomás com a agência americana DARPA e que lhes iria entregar o telemóvel quando o encontrasse, fazendo do russo um herói mártir.
Nada do que acompanhámos desde o início indica que ele não acreditasse no sonho imperialista russo ou que tivesse intenção de trair a Rússia. Apenas um breve questionamento moral sobre os bombardeamentos nos anos 90, mas nada mais. Ele ter perdido o telemóvel com informação sensível foi de facto um acidente. E recuperá-lo era a única forma de sobreviver. Supor que ele procurou alguém que fosse teoricamente capaz de o encontrar e que fosse aliado, de alguma forma aliado dos americanos a quem o entregasse, estando sob ameaça é demasiado inverosímil.
Ou seja, Tomás foi recrutado pelo russo porque a história assim o exigia.