Capa/grafismos a partir de ‘Motorways’, de Robert Ellis.
O livro apresenta-nos uma auto-estrada com duas faixas de rodagem: de um lado temos poemas, versos que funcionam como pistas para um texto policial e, paralelamente, mas noutra direcção, temos a narrativa, a história de dois amantes em fuga. As pistas-poemas guiam-nos até uma terceira ficção, a de uma bizarra investigação criminal onde nos deparamos com o cadáver de Ezra Pound. Esta junção e sobreposição de estradas fala-nos do desejo, do sangue, da economia e da literatura. É uma paisagem em movimento na qual se indagam lugares onde a poesia nos pode trair. De resto, diz-nos a autora logo a início, “como um policial, um poema derrapa sempre na sua própria pista, e cada pista é um indício para a morte”.
/// da autora: Susana Araújo é ensaísta, ficcionista e poeta. É a autora dos livros de poesia 'Dívida Soberana’ (Mariposa Azual, 2012), 'Discurso aos Pacientes Cirúrgicos’ (não edições, 2020), entre outros textos de poesia, prosa e teatro em antologias e publicações fugitivas. Faz pela vida como Professora na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e Investigadora no CEComp, Universidade de Lisboa. Entre os seus trabalhos académicos destacam-se 'Transatlantic Fictions of 9/11 and the War on Terror’ (Bloomsbury 2015; nomeado Outstanding Academic Title pela Choice - Association of College & Research Libraries), vários livros de ensaios publicados em editoras internacionais e artigos em reconhecidos periódicos como European Journal of English Studies, Atlantic Studies, Studies in the Novel, Women Studies ou Critical Survey. Enfim, tira facas da garganta e cospe fogo.
«Os Amantes da Auto-estrada do Sul», de Susana Araújo, começa por ser um objecto literário singular. Será uma novela? Um livro de poesia? É as duas coisas ao mesmo tempo. As epígrafes, convocando Walt Whitman, David Lynch, Sophia de Mello Breyner e Mário Cesariny, começam por dar algumas pistas sobre as influências que a autora assume na sua escrita.
Sobre a narrativa (embora não se trate de uma narrativa no sentido convencional do termo) paira o espectro da «Odisseia» e a figura de Ulisses. Mas a «Odisseia» que aqui se conta, o «nostos», para usar o termo clássico, é uma «Odisseia» às avessas. Não é um regresso a casa, mas sim uma fuga para longe de casa, em busca de uma felicidade etérea e fugidia, no meio da confusão e da insegurança deste nosso mundo. E, em vez de resistir às tentações (as sereias da Pedra da Anicha), os protagonistas decidem, talvez, entregar-se a elas, ceder-lhes. E toda a narrativa se faz sob a égide de Ezra Pound, o poeta maldito, o génio capaz de abraçar o mal absoluto e de se confundir com ele. A não perder.