Eu sei que esse livro é o segundo de uma série, mas só me interessei pq é gay. Não li o primeiro e não pretendo ler os outros.
Esse livro tinha MUITO potencial, que acho que é o que me deixa mais frustrado em relação a história. O casal principal tem muita química e eu gostei muito da dinâmica entre eles. Não há fragilização de nenhum dos lados, os dois são igualmente doidos e eu AMO grumpy x sunshine, mas meio que as qualidades terminam aí. Que escolha infeliz da autora de além de ter POVs duplos dos protagonistas, enfiar também POVs de narração onisciente (terceira pessoa) COMPLETAMENTE DESNECESSÁRIOS. Sério, não tem objetivo nenhum além da preguiça de autora de arrumar outra maneira de mostrar a visão dos outros personagens sobre determinados aspectos da narrativa. Era mais fácil ter narrado o livro todo em terceira pessoa do que ficar nisso. Tem MUITOS diálogos extremamente longos e desnecessários em espanhol com tradução entre parênteses, o que deixou o texto feio e cansativo. A dinâmica de amizade do Logan com as paquitas é até legal e crível, mas todos os diálogos do grupo parecem envolver sexo e isso me cansou bastante. Queria ter tido mais de found family, do porquê eles serem tão amigos, mas terminei o livro sem saber. Sem mencionar o Juan, melhor amigo do Martín, o personagem gay, preto e afeminado cujo único traço de personalidade é se sexualizar a torto e a direito.
Apesar do tanto de páginas que essa história tem e dos protagonistas terem bastante química, ambos são rasos. A autora enfia traumas neles que nunca são desenvolvidos ou abordados com a profundidade que merecem, e acaba que os capítulos do passado deles ficam jogados e desnecessários. Servem meramente para dar contexto, o que não seria necessário se a autora soubesse como desenvolver personagens e narrar como eles se sentem além do básico. O Logan passou a infância inteira convivendo com um pai homofóbico e claramente tem homofobia internalizada (já que rejeita fervorosamente a possibilidade de ser gay por boa parte do livro), mas em nenhum momento isso é abordado, sobre a desconstrução do personagem nesse aspecto. Não há uma única reflexão sequer sobre isso. É dito que ele usa drogas para preencher um vazio interior, que o Logan é visto como uma pessoa triste, apática, raivosa e o próprio crê que nunca vai ser amado assim. O que é válido, mas os motivos que o levaram a ser viciado e ter essa visão cinzenta do mundo nunca são bem explicados. Porque ele é e se sente assim? Só Deus sabe. Talvez isso seja explicado melhor no livro anterior da série, mas esse é o livro dele, ele é o protagonista. E ainda tem o Martín, que cresceu num contexto de crime organizado, foi abusado sexualmente pelo pai homofóbico e seus capangas, e isso não parece afetar em nada a vida dele fora do aspecto sexual. Fiquei com a impressão de que a autora quis escrever o Martín como alguém que esconde uma história triste por trás do sorriso, o que às vezes funciona, mas faltou substância Parece que tudo é só para se encaixar no subgênero de dark romance. Sem falar que o casal resolve todos os problemas “conjugais” com sexo. Ao menos eu gostei dos hots e da dinâmica de casal flex que eles têm.
A escrita tem os seus bons momentos, a leitura foi extremamente fluida e as páginas passaram tão rápido que eu nem senti, mas pra um livro desse tamanho eu esperava mais. Uma coisa que me incomodou muito nesse livro é que a história se passa entre os EUA e o México, mas a autora usa muitas referências, citações, memes e expressões brasileiros, o que não seria um problema, se a história se passasse aqui ou se os protagonistas fossem brasileiros. Fica essa zona de estranheza no livro e dá a impressão de que não houve pesquisa antes de escrever. Tem muita cena desnecessária nesse livro, e destaco a cena de self insert da autora, que surge como uma figura misteriosa num diálogo com o Logan, cena que eu inclusive pulei de tão sem pé nem cabeça que é. As cenas de ação e aventura pouco ou nada tem impacto. Salvo que a autora claramente tem uma fixação com nome composto, o que me incomodou um pouco, mas é de gosto pessoal.
E por último, mas não menos importante: a autora precisava muito de leitores sensíveis pra esse livro. Muito mesmo. A todo o momento eles resumem ser gay a gostar de pau e, como pessoa trans, me incomodou MUITO durante a leitura. Todas as piadas que envolvem a sexualidade do Logan giram em torno de ele “não gostar de boceta”. O coitado também é tratado o livro inteiro como branco, sendo que ele tem descendência árabe, sobrenome árabe e fala árabe. Mas a autora gosta muito de insistir que ele é branco, inclusive não tem um único aspecto da cultura árabe que faz parte da rotina dele. Nem comida árabe ele come. Sem falar de um trecho que a demissexualidade de um personagem é descrita como “falta de apetite sexual”. Eu não sei se essa autora é hetero/cis/allo, mas ela, apesar da boa vontade, claramente tem um problema em escrever minorias.