Descobri O Exu que Habita em Mim por recomendação na internet, e logo de cara fui fisgada pela proposta e pelo impacto visual da capa — linda e simbólica, um verdadeiro acerto da editora.
Escolhi lê-lo como leitura matinal, aquele tipo de livro que guia o dia com alguma reflexão. Nesse ritmo mais calmo, consegui absorver melhor o conteúdo, sem pressa e com intensidade. Dito isso, meu objetivo aqui é ser honesta e respeitosa na avaliação — acredito que esse seja o primeiro livro do autor, e por isso é ainda mais importante oferecer uma leitura crítica e construtiva.
Começando pelo ponto mais forte: a proposta. Ter um livro de reflexões com Exu como eixo central é potente, necessário e ainda raro. Existe uma carência de literatura que dialogue de forma profunda com as espiritualidades afroindígenas, especialmente com senso crítico. A divisão do livro por Orixás torna tudo mais didático e interessante, e a presença dos itans (mitos) enriquece muito — especialmente para quem já estuda o tema, como eu, foi um prazer ler outras interpretações desses relatos. A diagramação, o projeto gráfico e o cuidado estético são belíssimos. Um trabalho editorial primoroso.
No entanto, alguns pontos me incomodaram. A linguagem do livro, muito próxima da escrita de redes sociais, fez com que a leitura parecesse, por vezes, um longo post do Instagram. Isso pode funcionar para alguns públicos, especialmente os mais jovens ou iniciantes, mas para mim tornou a leitura mais truncada. Talvez eu esteja mal acostumada com autores como Luiz Antônio Simas, cuja escrita é mais densa e elaborada, mas senti falta de um equilíbrio entre informalidade e profundidade. Além disso, há erros de concordância que uma revisão mais cuidadosa poderia ter evitado.
Outro ponto delicado: em algumas partes, o livro se torna excessivamente pessoal. Embora o autor tenha todo o direito de trazer suas vivências, às vezes o foco sai completamente do Orixá e mergulha em histórias particulares que não dialogam tanto com o tema proposto. Um exemplo que me marcou negativamente foi o trecho sobre Iemanjá e tsunami — uma associação que, para mim, flerta perigosamente com discursos que reforçam o racismo ambiental. Esse foi um momento em que quase abandonei a leitura.
No geral, é um livro com uma boa proposta, que pode ser bastante útil para quem está começando a se aproximar das religiões de matriz africana. Em vários momentos, me veio a sensação de estar lendo um “Café com Deus Pai” para pessoas de religiões afroindígenas — o que, honestamente, pode funcionar muito bem dentro de um nicho específico. É um estilo mais "coaching espiritual", o que não é um problema, desde que seja claro para o leitor qual é a proposta.
Recomendo a leitura com senso crítico. O livro não é uma obra-prima, mas tem valor, tem alma, e revela um autor que certamente ainda tem muito a crescer. Um começo promissor.
Avaliação por Aspecto
Enredo / Ritmo ⭐⭐⭐⭐ (Para o tipo de livro, a divisão por Orixás e ritmo funcionam bem)
Personagens / Desenvolvimento ⭐⭐ (Não se aplica muito, mas o excesso de autorreferência empobrece a profundidade do tema)
Escrita / Estilo ⭐⭐ (Estilo muito informal e linguagem de internet, o que compromete o impacto literário)
Temas / Profundidade ⭐⭐⭐ (Proposta potente, mas faltou aprofundamento e senso crítico mais refinado)
Impacto / Emoção ⭐⭐⭐ (Tem momentos tocantes e traz reflexões importantes, mas perde força em alguns trechos)
Design / Projeto Gráfico ⭐⭐⭐⭐⭐ (Impecável. Um dos grandes pontos fortes da obra)
Nota Final: 3,3 estrelas
Uma obra visualmente linda, com uma proposta corajosa e necessária, mas que ainda precisa amadurecer no estilo e no conteúdo para atingir todo o seu potencial.