Se tentássemos definir a qualidade maior de um bom cronista, poderíamos afirmar que é sua capacidade de captar instantâneos, de falar dos fatos cotidianos por pontos de vista inusitados, criando “retratos” que dizem mais sobre o olho que viu do que propriamente sobre o visto. Quando o cronista é Nelson Rodrigues, no entanto, tais instantâneos discursivos conjugam traços memorialistas e confessionais, revelam o flerte descarado da realidade com a ficção e não só subvertem a perspectiva habitual, como também criam novos ângulos e imagens nada menos que geniais. Nelson Rodrigues não é, portanto, apenas o maior dramaturgo do nosso país ou o autor dos famosos contos de “A vida como ela é...”; Nelson Rodrigues é o cronista esportivo mais importante que tivemos, aquele que definiu o gênero entre nós e influenciou as gerações que vieram depois dele. Se restringirmos o foco, o que poderemos dizer das crônicas dedicadas apenas ao futebol, esporte que era a sua paixão? É quase uma das tais unanimidades tão rechaçadas pelo autor — “Toda unanimidade é burra. A maioria geralmente está errada.” — apontar o futebol na sua obra como a melhor e mais evidente metáfora do Brasil e dos brasileiros. O olhar contundente do cronista, revelado a cada texto, parte da crítica à humildade do nosso povo, que motivou o autor a cunhar o “complexo de vira-latas”, e culmina num sentimento de nação vencedora promovido pela pátria de chuteiras. Mais do que imagens pontuadas por crônicas e excertos, o que pretendemos apresentar é um percurso marcado pela paixão; paixão que, em Nelson, se desdobra em dois níveis: um mais restrito, bairrista, que se dá pelo Fluminense Football Club e, com ele, pela cidade do Rio de Janeiro, numa espécie de patriotismo carioca; e outro mais amplo, que se volta para a seleção brasileira, elemento que nos dá unidade e é capaz de infundir um orgulhoso sentimento de patriotismo nacional. Nossa opção por costurar este livro com as linhas verde-amarelas fornecidas pelo futebol das crônicas de Nelson Rodrigues se pauta, portanto, pela abrangência. Afinal, o que Nelson revelava ali não era só o futebol: o seu olhar orgulhoso se espantava e desvendava o Brasil moderno que emergia. Observador atento das muitas transformações por que passavam o país e o mundo, tanto no papel de cidadão quanto no de operário da palavra, Nelson testemunhou a criação da Petrobras, vibrou com a Fundação de Brasília, registrou a chegada de Neil Armstrong à Lua, criticou o novo padrão estético que elimina as curvas das moças e tratou, também de forma apaixonada, de outros tantos acontecimentos marcantes ao longo das décadas de 1950, 1960 e 1970. Com seu olhar agudo, o cronista vivenciou a trajetória de um Brasil que ia se transformando paulatinamente, dando adeus à imagem agrária e fincando seus pés com força no asfalto. Além disso, soube como ninguém captar a potência dos mais desvalidos, basta-se pensar que sua obra ficcional é toda ambientada no subúrbio. Sua voz “profética” antecipou o que ele mesmo não chegou a presenciar. Aqui, temos a trajetória de um país registrada pelo pernambucano que não hesitou em se tornar carioca, pois nós todos somos o Brasil e assim é o mundo todo, em periferias que se agigantam e tomam, em mutação, os centros e os destinos.
Nelson Falcão Rodrigues (August 23, 1912 – December 21, 1980) was a Brazilian playwright, journalist and novelist. In 1943, he helped usher in a new era in Brazilian theater with his play Vestido de Noiva (The Wedding Dress), considered revolutionary for the complex exploration of its characters' psychology and its use of colloquial dialog. He went on to write many other seminal plays and today is widely regarded as Brazil's greatest playwright.
Nelson Rodrigues was born on August 23, 1912 in Recife, the capital of the Brazilian state of Pernambuco, to Mario Rodrigues, a journalist, and his wife, Maria Esther Falcão. In 1916, the family moved to Rio de Janeiro after Mario ran into trouble for criticizing a powerful local politician. In Rio, Mario rose through the ranks of one of the city's major newspaper and, in 1925, launched his own newspaper, a sensationalist daily. By fourteen Nelson was covering the police beat for his father; by fifteen he had dropped out of school; and by sixteen he was writing his own column. The family's economic situation improved steadily, allowing them to move from lower-middle class Zona Norte to what was then the exclusive neighborhood of Copacabana.
In less than two years the family's fortunes would be reversed spectacularly. In 1929, older brother Roberto, a talented graphic artist, was shot and killed at the newspaper offices by a society lady who objected to the salacious coverage of her divorce. Devastated by his son's death, Mario Rodrigues died a few months later of a stroke, and shortly after that the family newspaper was closed by military forces supporting the Revolution of 1930, which the newspaper had fiercely opposed in its editorials. The ensuing years were dark ones for the Rodrigues family, and Nelson and his brothers were forced to seek work at rival newspapers for low wages. To make matters worse, in 1934 Nelson was diagnosed with tuberculosis, a disease that plagued him, on an off, for the next ten years.
During this time Rodrigues held various jobs including comic strip editor, sports columnists and opera critic. In 1941, he wrote his first play A Mulher Sem Pecado (The Woman Without Sin), to mixed reviews. His following play, Vestido de Noiva (The Wedding Dress), was hailed as a watershed in Brazilian theater and is considered among his masterpieces. It began a fruitful collaboration with Polish émigré director Zbigniew Ziembinski, who is reported to have said on reading The Wedding Dress, "I am unaware of anything in world theater today that resembles this." In the play, set while the female chief character is hit by a car in the street and undergoes surgery, the stage is divided in three planes: one for real life action happening around the character, another for her memories, a third for her dying hallucinations. As the three planes overlap, actual reality melds with memory and delusion[1].
Rodrigues's next play, 1946 Álbum de família (Family Album)- the chronicle of a semi-mythical family living outside society and mired in incest, rape and murder - was so controversial that it was censored and only allowed to be staged 21 years later.
In all, Rodrigues wrote 17 full-length plays. They include Toda Nudez Será Castigada (All Nudity Shall Be Punished), Dorotéia, and Beijo no Asfalto (The Asphalt Kiss, or , better, The Kiss on Asphalt[2]), all considered classics of the Brazilian stage. His plays are frequently divided in three groups: Psychological, mythical and Carioca tragedies. In his Carioca tragedies Rodrigues explored the lives of Rio’s lower-middle class, a population never deemed worthy of the stage before Rodrigues. From the beginning his plays shocked audiences and attracted the attention of censors.
In spite of his success as a playwright, Rodrigues never dedicated himself exclusively to theater. In the 1950s, besides writing the hugely successful column A Vida Como Ela É (Life As It Is), he also wrote soap operas, movie scripts, a
Apesar de achar interessante a maneira como as crônicas esportivas de Nelson Rodrigues retrataram o modo de ser do povo brasileiro, eu achei que o livro pareceu mais uma propaganda dos investimentos do BNDES ao longo dos anos 50 a inicio de 70. Comprei o livro esperando uma coisa e na realidade era outra.
É muito bom rever e voar para o Brasil de um tempo em que nem era nascida, por meio das crônicas de Nelson Rodrigues. O que mais amei foi o quão intelectual era, o que mais odiei foi ele ter cima curto demais. Eu gostaria de recomendar este livro para todos os jornalistas, entusiastas e amantes do futebol. O critério de avaliação se toma conta em base do lido, o livro consegue ser quase perfeito, faltou mais páginas para se aproximar a perfeição.
Nelson Rodrigues com seu humor cínico e impecável. A reunião das crônicas sobre a seleção brasileira é ótima, e te faz querer ir atrás dos relatos de cada jogo que Nelson retrata aqui. Impossível ler e não tornar-se um apaixonado por futebol.
"A tragédia do subdesenvolvimento não é só a miséria ou a fome, ou as criancinhas apodrecendo. Não. Talvez seja um certo comportamento espiritual. O sujeito é roubado, ofendido, humilhado e não se reconhece nem o direito de ser vítima." - "A pátria de chuteiras", Nelson Rodrigues.
Livro oportunista patrocinado pelo governo brasileiro do início da segunda década do século XXI. Pena que o espólio do autor o tenha autorizado.