"O turista aprendiz", de Mário de Andrade, é uma publicação da editora "Tinta da China”. Traz 14 fotos feitas pelo autor e mapas. Foi organizada por Flora Thomson De Veaux, diretora de pesquisa da Rádio Novelo. Ela traduziu para o inglês esse mesmo livro e "Memórias Póstumas de Brás Cubas", de Machado de Assis.
Mário de Andrade já pesquisava trabalhos de antropólogos e exploradores sobre povos originários do Brasil. Tinha muito interesse pelo folclore e pela cultura popular. Um ano após escrever "Macunaíma", foi convidado para participar de uma expedição à Amazônia por Olívia Guedes Penteado, patrocinadora das artes, amiga de artistas modernistas e militante pelo direito voto para as mulheres.
Entre maio e agosto de 1927, Mário de Andrade fez a jornada que ele mesmo descreve como "Viagem pelo Amazonas até o Peru, pelo Madeira até a Bolivia e por Marajó até dizer chega”.
"O turista aprendiz" reúne descrições dos cenários, habitantes das cidades e da floresta, e personagens embarcados — como Olívia e suas convidadas Balança e Trombeta.
A obra é considerada um clássico da literatura de viagem. É um diário de bordo que oferece um ritmo agradável de leitura. Entre seus relatos, há observações maldosas e, claro, escapadas pelo universo da ficção.
Por conta de Olívia Guedes Penteado, Mário de Andrade é recebido com a baronesa do café por autoridades em cada lugar em que a embarcação aporta. Ele fica enfastiado, porém não deixa de descrever e elogiar cada refeição que o encanta. O que inclui tartarugas. Não raro, suas observações são as de uma pessoa bem nutrida da aristocracia paulistana.
Entre suas anotações, o autor registra cada agrupamento indígena visitado. Por vezes, faz observações banais de um turista. Em outros casos, encanta-se com a musicalidade de um grupo. Lembrando que Mário de Andrade também era músico e estudioso da música.
A viagem foi em 1927, ano em que, entre outras restrições, mulheres ainda não tinham o direito de votar. O olhar sobre elas estava longe de ser lisonjeiro, para dizer o mínimo. Mas é estranho ler nas palavras de um dos fundadores do modernismo referências questionáveis às mulheres. Como esta: "Não cantam nada estas praias, bonitas por demais pra serem também inteligentes, como sucede com as mulheres.”
Incomodam também as anotações do autor sobre embarcações abarrotadas de madeiras nobres partindo para os Estados Unidos. A pilhagem da Amazônia vem de longe. Uma conduta então naturalizada, como também a exploração de animais.
Além de se deliciar com carne de tartaruga e reclamar da carne dura de papagaio, Mário de Andrade comprou e ganhou peles de tamanduás, cobras, onças, lontras, preguiças e bugios. Cascos de tartaruga ainda serviram como matéria prima para peças de artesanato encomendadas por ele.
Além de recomendar a leitura, eu gostaria muito de repetir esse roteiro de Mário de Andrade. Apesar de, um século depois, a Amazônia já não ser mais a mesma que ele viu.