"Diga-se o que se disser, diga-se o que eu mesmo disse e pensei, enquanto temos os olhos fixos no passado não é a morte que contemplamos. Mesmo que esse passado não tenha sido mais do que uma série de ultrajes e desgraças, há pelo menos uma coisa que está irrefutavelmente ausente dele: a morte, a nossa morte, a do ser que amamos. É no futuro que a morte está. É a minha Fernanda viva que recordo e abraço, é toda a sua vida, a sua imagem rejuvenescida (não cheguei a conhecê-la velha), a sua ternura radiosa. Fora disso, nada mais há do que a imagem, cada vez mais próxima, do túmulo e da irremediável privação."
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"É absolutamente certo que o amor carnal e o amor espiritual são um só. Entre nós, e por mais de quarenta anos, a atracção recíproca foi suficientemente forte para realizar a complementaridade absoluta, a unidade integral, ao mesmo tempo orgânica e psíquica."
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"Noite sem rasto guia-me até ao meu destino Escondido na solidão das ruas Inconcreto na vastidão das horas Onde tu existes misteriosa e nocturna No teu perfil de bruxa e de rainha Correndo saudosa pelo íntimo da terra Como um fulgor secular Deslizando no vidro da madrugada Azulando de raios gelados o dia que nasce Viva e oculta Cada vez mais viva e oculta Cada vez mais única de amor humano Com a tristeza das luzes marítimas Com a gravidade de quem parte Serenamente para sempre"
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Quando me sentei para escrever algumas palavras sobre este livro senti que tudo me falhava: noção de espaço, de tempo, capacidade para processar sentimentos e emoções. "Fernanda" (2000) é um elogio fúnebre, uma declaração de amor, um livro de memórias, uma despedida. A actriz Fernanda Alves morre a 6 de Janeiro de 2000, num hotel no Porto, e Ernesto Sampaio recebe a notícia em Lisboa. Durante mais de 40 anos haviam partilhado um corpo, um coração — "numa carta comovente, diz-me a Isabel de Castro que eu e a Fernanda éramos um. Penso que ainda somos." — e Ernesto Sampaio acabaria por "morrer de amor", como disse Mário Cesariny, a 5 de Dezembro de 2001.
Este livro ganhou um lugar cativo no meu coração, e ganhou-o quase de imediato, foi um coup de foudre: os diários íntimos, a poesia confessional, a exposição dos nossos sentimentos/emoções/sensações mais íntimos (sobretudo quando remetem para espaços de solidão, para angústias, dissabores, ou paixões e amores) interessam-me, é neles que encontro a fuga à superficialidade e à frivolidade, ao facilitismo, às primeiras camadas da pele. Ainda há dias conversava com uma pessoa sobre a falsa impressão que temos hoje em dia, a de que as pessoas se habituaram a expor muito da sua vida e dos seus sentimentos (online e não só), e digo "falsa" porque me parece que se produzem recorrentemente discursos que não passam de representações, há quase sempre uma vacuidade na forma como nos dispomos e apresentamos aos outros — no fundo, dizemos muito para não dizermos nada de essencial. E aquilo que encontro neste livro é como que um espaço de resistência: aqui reside a essência, e apenas a essência. Não há uma única palavra que seja acessória, uma única palavra que esteja lá para enfeitar: tudo quanto é exposto é extraído do lugar da dor, da solidão, e o leitor não fica indiferente (talvez os menos empáticos, mas vamos supor que a maior parte das pessoas que se sente atraída por este tipo de livros tem alguma capacidade de empatia). O meu peito doía-me, mesmo na zona do coração. E chorei, não me envergonho de o admitir: tive de fechar o livro várias vezes porque começava a chorar (porquê? De dor, por solidariedade, por imaginar o que é amar alguém assim ou ser amado assim — e dera a mim que todos nós pudéssemos, um dia, conhecer esse amor), e talvez nem todos se revejam nisso mas eu gosto, e preciso, de obras com as quais consiga criar uma relação afectiva forte, sejam filmes, sejam pinturas, sejam livros. Não é à toa que regresso aos mesmos livros, anos após anos, às duas da manhã, para ir reler um poema que bate nos nervos certos (e quem diz poema diz uma música, um filme, etc.)... e não é à toa que, por vezes, me é tão difícil terminar um livro e colocá-lo numa prateleira. Sinto que o "ciclo de vida" deste se abriu agora e que só terminará quando eu morrer: ganhou um lugar cativo no meu coração e vai ficar, por um período indeterminado, junto à minha cama, em cima ou em baixo do "Virá a morte e terá os teus olhos".
«Foste tu, com a tua atenção inesgotável aos pequenos nadas, aos mais ínfimos prazeres da vida, que impediste a progressão dos desertos, que a seiva do mundo se esgostasse para mim.»
***** OS DIAS PASSAM COMO NUVENS e a sua sombra sobre a terra. O moiliário não mudou: prédios, automóveis, aves cujo voo as espingardas interrompem, tardes fechadas, amor destruído. O deus cerca-nos quando quer, ou deixa-nos, deixa o universo dupla, triplamente deserto. A sua própria dor escapa-nos. É para um céu vazio que ergo os meus olhos e as minhas mãos. Adeus, luz que giravas sobre o mundo. Adeus, beleza das horas. A lua sobre a casa. Os morcegos sobre a lua. A lua sobre o pântano. A lua no fundo do pântano. A lua sobre as árvores. A brisa nas árvores. A bruma nos campos. Que me importam estes desenhos animados, este vazio. Murmuro o teu nome. Não há mais mundo senão o amor de ti. Tu não te desdizes. Quase não te afastas. Quase não ouço os mortos que estão atrás de ti. Não se decide pelos mortos. Pesam nas raízes como uma terra mais escura. E o caminho das sementes insinua-se entre eles e essa lei confusa que proferem. Astros queimados de sal, nada pode impedi-los de governar por dentro. Permanecer por dentro. Endurecer contra a casca. É por dentro que negamos ao vazio o seu reino. É lá que a tua sombra ainda está nos meus olhos. Não espero desfazer o desejo com a divagação do desejo, porque há um nome inscrito na minha carne, um nome, um grito imóvel na duração dos astros, um insecto com o aprumo dos mortos. *****
Este livro fala de amor como uma forma de viver, que não morre independentemente da partida e a ausência que fica. Para Ernesto Sampaio, o amor que tinha por Fernanda nunca morreu, foi aliás a única constante que ficou após a sua morte. "Fernanda" é, na minha opinião, uma carta de amor a Fernanda que em vida foi a vida de Ernesto e que na sua morte continuou a sê-lo, para Ernesto, que perdeu o rumo para o mundano. Como viver quando a sua vida já morreu? É uma leitura introspetiva, que nos leva não só a refletir sobre o amor e a vida de Ernesto, como sobre a nossa própria existência. Um livro triste, da forma mais bonita.
Uma das citações que precede o início do livro Fernanda, escrito por Ernesto Sampaio, prenuncia a paisagem predominante que acompanhará o leitor ao longo das noventa e poucas páginas que o compõem. Ernesto Sampaio traz à colação os versos imorredouros de Dante: "Nenhuma maior dor do que a de recordar tempo feliz já na miséria" (recorro à tradução de Vasco Graça Moura). Fernanda é um testemunho autobiográfico imensamente sério e comovente sobre as agruras de um condenado. Condenado no sentido concreto do termo. Durante quarenta anos, Ernesto Sampaio manteve uma relação amorosa com a actriz portuguesa Fernanda Alves. Um dia, mais especificamente no dia 6 de Janeiro de 2000, Fernanda Alves morre. É a partir de então que Ernesto Sampaio inicia a sua derradeira peregrinação - a peregrinação rumo à morte. Não é exagero nenhum dizer que este livro foi a última carta jogada por Ernesto Sampaio em vida. Em vida ou talvez já "à margem da vida", como diria o próprio Ernesto. Falando sobre a relação entre Ernesto Sampaio e Fernanda Alves, o poeta português Mário Cesariny afirmou celebremente: "Desde a morte de Fernanda Alves já não sabia viver. É a única pessoa que conheço que morreu de amor." Assim foi.
Sendo o inferno a "ausência de quem amamos", citando Ernesto Sampaio, este livro explora brilhantemente essa descida íntima ao inferno. Ainda assim - e este é um dos possíveis ensinamentos que retiramos da leitura de Fernanda - é possível que não exista um único inferno que seja puro, isto é, talvez exista sempre no inferno espaço para múltiplas galerias onde a evocação, a beleza, a saudade e a indómita ternura podem coexistir com a irremediabilidade do sofrimento que nulifica todo o ser humano.
Este livro pode ser entendido como um diário de luto, ainda que se trate de um diário sui generis, visto que não há nele uma linearidade temporal. Em certo sentido, é um diário atemporal, visto que as nossas modalidades de tempo (passado, presente e futuro) se esboroam no momento em que um evento cataclísmico (como a morte de alguém que amamos) perfura a nossa vida. À medida que vamos percorrendo a "via dolorosa" pela qual Ernesto Sampaio nos guia, surge no leitor uma interrogação capital, consubstanciada na seguinte pergunta: para quem é que este livro foi escrito? Ernesto Sampaio tê-lo-á escrito para o leitor anónimo? O bom senso talvez nos leve a crer que Fernanda foi escrito para nós, mas a verdade é que o bom senso nem sempre é bom conselheiro. Dada a natureza extraordinariamente íntima desta obra, tendo a crer que este livro foi concebido para ser lido por uma única pessoa, curiosamente a única pessoa que jamais poderia vir a ler a obra. Como é óbvio, falo de Fernanda Alves - a esposa de Ernesto Sampaio. Como nos diz Ernesto a certa altura, "o amor continua a evoluir na morte", observação essa que nos autoriza a pensar que este livro talvez constitua uma tentativa de perpetuar um diálogo prematuramente interrompido pela morte. Como é sabido, há diálogos substantivos, reais e lancinantes que podem ser estabelecidos com os mortos. Evidentemente que os mortos não habitam no plano concreto da realidade real, mas habitam no plano da realidade psicológica e subjectiva daqueles que lhes sobrevivem - os vivos, os últimos herdeiros das suas identidades.
A partir da morte de Fernanda, e agora uso parcialmente as palavras do autor, Ernesto desliga-se do resto do mundo para se ligar a um único ser que de repente lhe falta. Nas palavras do próprio: "Já não tenho nada, não me resta nada. [...] Já não há diferença entre o dia e a noite. A luz que me alumia não tem nada em comum com a que é sensível aos olhos. Também já não há diferença entre a vida e a morte. [...] É como se também eu já não tivesse existência - ou a tivesse apenas para recordar e adorar." Deste modo, a existência de Ernesto fica então à mercê de uma ausência, tendo como única ambição nem "ser um homem, nem um animal, nem seja o que for deste mundo, mas um nada[...]." Há uma passagem verdadeiramente extraordinária que ilustra na perfeição o amor que enlaçava Ernesto Sampaio a Fernanda Alves. Dou a palavra ao autor: "Comparados contigo, todos os objectivos que porventura atinja são irrisórios. A recordação de um só dia contigo torna inúteis o labor e o prazer de todos os dias que me restam viver." Na era horrorosamente fungível e solipsista em que vivemos, cuja propaganda é despenhada continuamente para cima das nossas cabeças, é impressionante sermos confrontados com um pensamento (quase revolucionário) que celebra a figura do outro como o objectivo supremo da existência. Para Ernesto Sampaio, Fernanda Alves representou sempre o cume da sua vida, o cume que representava aquilo que de mais elevado existia neste planeta. Olhar para outra pessoa e ver nela o maior objectivo da nossa vida: eis uma ideia que contém uma beleza inexcedível.
A escrita de Ernesto Sampaio é singularmente cuidada, elaborada, chegando a ascender à poesia pura. Alternando entre a poesia em prosa e a poesia em verso, o estilo poético do autor confere ao texto um conjunto de percepções e de verdades que só estão disponíveis quando se abdica da linguagem quotidiana. Por vezes, é preciso andar à volta do essencial para que este se mostre em toda a sua plenitude. O essencial nem sempre é percorrível em linha recta, como a poesia nos tem ensinado há já vários milénios. Por outro lado, este cunho poético vem acompanhado por um rol de dilemas de natureza intrinsecamente filosófica. Somos levados por veredas pelas quais circulam interrogações irresolúveis sobre a morte, sobre a natureza da realidade, sobre a plasticidade do tempo, sobre a angústia de viver, sobre o nosso lugar no cosmos, sobre o governo tirânico das emoções, sobre a identidade humana. Fernanda é um livro que deve ser lido com muito cuidado, muita delicadeza (imaginem que estão a ler em bicos de pés) e com uma sofreguidão lenta; lenta para que consigamos captar todas as nuances que visam atingir (quiçá ferir) o coração do leitor. É o justo preço que temos de pagar pelo facto de podermos entrever a intimidade abissal entre Ernesto Sampaio e Fernanda Alves.
Por último, termino com um esplêndido excerto que descreve aquele milagre que, no entender do autor, constitui o único milagre real. Dou-lhe a palavra: "Não é por teres morrido que deixaste de realizar o único verdadeiro milagre, o do encontro na terra, cujo sentido está inscrito a letras de fogo no mais profundo de mim próprio. Esse sentido é que o amor é maior do que a morte e o homem maior do que deus, que o homem existe e deus não." Algumas décadas antes de Ernesto Sampaio ter redigido estas observações, o poeta inglês Philip Larkin escreveu algo em termos idênticos: "What will survive of us is love." É uma sentença cuja veracidade continua a ser atestada pelos já falecidos Ernesto Sampaio e Fernanda Alves.
“Fernanda” Este “Fernanda” não foi mais um livro. Ernesto Sampaio escreveu o livro de uma vida, para mim, o livro da vida depois da vida. Um livro de amor, de entrega, e paz; a homenagem à mulher da sua vida ou o prenúncio da própria morte? A decadência, a renúncia ao futuro, o desequilíbrio, a saudade, o não saber (nem querer) por onde seguir, o parar no momento da perda para sempre. A leitura é rápida mas nada superficial: sente-se a angústia, o vazio em que Ernesto caiu durante um ano sem Fernanda; está lá o carinho e tudo o que ela representava para ele. Impossível ficar indiferente à descrição dos cenários, às reflexões feitas pelo autor em torno da vida e da morte. Impossível ficar indiferente quando se descobre que ainda se morre de amor.
“ O amor não admite a menor restrição: tudo ou nada, sendo o tudo a vida e o nada a morte”.
"Noite sem rasto guia-me até ao meu destino Escondido na solidão das ruas Inconcreto na vastidão das horas Onde tu existes misteriosa e nocturna No teu perfil de bruxa e de rainha Correndo saudosa pelo íntimo da terra Como um fogo secular Deslizando no vidro da madrugada Azulando de raios gelados o dia que nasce Viva e oculta Cada vez mais viva e oculta Cada vez mais única de amor humano Com a tristeza das luzes marítimas Com a gravidade de quem parte Serenamente para sempre"
"Não é por teres morrido que deixaste de realizar o único verdadeiro milagre, o do encontro na terra cujo sentido está inscrito a letras de fogo no mais profundo de mim próprio. Esse sentido é que o amor é maior que a morte e o homem maior que deus, que o homem existe e deus não."
"O que me faz temer esta espécie de desfalecimentos é o facto de me separarem da Fernanda; a corrente já não passa ou passa debilmente. É só então que ela está entre os mortos, que se esquece de que eu existo. Esta sombria e clara ligação com a Fernanda é o que dá sentido à minha vida (...)"
"Por mais longe que esteja, na terra mais irredutivelmente estrangeira, uma imagem da Fernanda vem de súbito arrancar-me a tudo, a qualquer espectáculo que veja, seja belo, estranho ou horrível. Sobre a reverberação das luzes dos aeroportos, nas intermináveis auto-estradas, de olhos fixos no mar, debaixo destas palmeiras, nestes museus, nestas esplanadas, ela lá está, por momentos apaga tudo, só a vejo a ela, sou aspirado até ela pela ferida que se abre em mim (...)"
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Este é um dos livros mais bonitos que alguma vez li. Na edição que li, constavam fotografias bonitas que traziam ecos do texto que lia. Seguramente passou a ser um dos meus favoritos.
É o amor cru e nu de Ernesto Sampaio por Fernanda. É descrito um verdadeiro amor que não resiste à separação pela morte. É o documentário dos últimos sentimentos de um homem que morre por amor.