Na alvorada do século XX, Joaquim Salavisa é um adolescente valente, boémio, engenhoso e pinga-amor, sem qualquer inclinação para os estudos, e que se desdobra em brincadeiras e partidas por toda a Lisboa. Aos 19 anos, um incidente rocambolesco corre mal e leva-o à prisão. Filho de boas famílias, o seu pai, para o safar do cárcere, alista-o no Corpo Expedicionário Português com destino à Flandres. Pensando livrá-lo depois através dos bons ofícios de um primo responsável pela mobilização. A mãe, porém, trata de que aconteça precisamente o contrário, na esperança de que a Grande Guerra faça o filho ganhar juízo e o torne um homem.
A Guerra do Salavisa conta as magníficas aventuras de um bom soldado português nas trincheiras da I Guerra Mundial. Um romance bem-humorado que retrata o esplendor de uma época que já não existe, e que exalta os valores do indivíduo, dos amigos inseparáveis e dos afetos.
Ganhei este livro na Feira Do Livro de Lisboa em 2019, num mini jogo da @editorial_presenca . Embora este tipo de livros não seja o meu género, fiquei muito satisfeita. Afinal, livros são livros! “A Guerra Do Salavisa” surpreendeu-me imenso. Pensei que seria um típico livro sobre guerra, sobre as pessoas que morreram e sofreram, e fui completamente apanhada de surpresa. Em parte do livro, temos um protagonista, o Quim Salavisa. Podemos acompanhá-lo desde os tempos em que vivia em Lisboa, até à sua partida para a guerra e quando consegue escapar da mesma. Temos ainda um outro protagonista, Evaristo, o neto de Quim Salavisa. Nesta parte do livro, somos levados para França, onde Evaristo conhece novas pessoas e tem a oportunidade de viver novas experiências. Ao longo do livro, temos a capacidade de comparar a vida de jovem adulto de Evaristo com a do seu avô Quim. Embora ambos tivessem estado em França, as suas experiências não podiam ter sido mais distintas. Algo de que não gostei, foi o facto de que a capa e a sinopse do livro nos levam a ter uma ideia errada do seu conteúdo. Dá-nos a ideia de que terá um relato da Primeira Guerra Mundial, o que não acontece.
O livro é diferente da expetativa que cria, a sua capa e a sinopse, uma vez que se espera que seja um romance pícaro todo ele passado na 1ª guerra mundial mas, afinal, isso apenas ocupa o terço inicial do livro, contando pequenos episódios da presença do (afinal) avô Salavisa na França, I Guerra Mundial, num sitio muito pacato sem stress e sem tiros; e o resto do livro são histórias e relatos do seu neto, Evaristo Salavisa Belinha, o narrador, sobre a vida deste (melhor sobre as suas escapadelas para França) e um pouco da sua descoberta da história do Avô (mas esta parte é menor). O estilo é diferente de uma parte para outra do livro: a primeira uma narração muito levezinha, com episódios cujo significado é exagerado; A segunda parte também episódios, mas muito carregados de auto-reflexão e densificação psicológica do narrador, em que a acção perde espaço em relação às considerações e reflexões do autor. Estive quase para dar apenas duas estrelas, por a certa altura ter pensado que esta incoerência interna do livro fosse por ele não conseguir fazer melhor. Mudei para 3 estrelas por dar o benefício da dúvida que, se calhar, esta desomogenização interna do livro seja um efeito proprositadamente pretendido pelo autor. Numa visão geral o livro é o cruzar de dois triângulos de amizades: Na 1ª parte entre o Quim Salavisa, o Francês Jean paul e o alemão Fritz Helmholtz. Na 2ª parte o Evaristo Belinha, o petit Marcel e o iraniano psiquiatra Vahid. Mas se o título do livro e apresentação sugere que o mais importante é o 1º triângulo, na realidade o maior peso é dado à análise intimista do segundo. Quanto à primeira parte conta-se como o Quim Salavisa vai parar à guerra contra sua vontade e do pai, por uma asneira que fez contra um tenente em Lisboa, e em que a mãe em vez de o livrar, podendo (um primo o "Matos" estava bem colocado no recrutamento, para o conseguir), faz pressão para ele ir para ver se se tornava um homem. Na França há dois ou 3 episódios que podem ser interpretados como partidas e patranhas, mas mas nada de absolutamente genial e divertido ou significativo. O salavisa a certa altura, mesmo estando num lugar muito calmo da Guerra (ali só se disparou um tiro) farta-se e finge-se maluco; no hospital não lhe dão muito crédito mas uns médicos revolucionários, agregam-no à célula comunista propagandistica e pretendem usá-lo para sublevar o exército. Nessa altura o mesmo Matos que o enviara, receando que ele fosse morto numa zona perigosa da guerra para onde estava prestes a ser enviado, desmobiliza-o e ainda por cima com um louvor embora ele nada tivesse feito por isso. Começa então abruptamente a história do neto, julga-se aí por volta dos anos 70 ou 80 (fala-se em PSD e cunhas), e como ele recém-licenciado consegue emprego com cunhas e dispensa para ir tirar mestrado em França. O que aproveita mais para folgar do que para estudar. Nesse período conhece um jovem rico francês (o Marcel) que tem uma relação existenciamente difícil com o pai produtor de vinho na região de Bordéus. Junta-se os conhecimentos um iraniano recem licenciado em psiquiatria, que acaba por ter o marcel como seu primeiro doente, na perspetiva do salavisa, cobaia. O marcel desaparece e os amigos separam-se. Quase uma terceira parte da história é o regresso do evaristo a frança, em busca do marcel, de quem sabe que tinha desaparecido de Paris (na época da sua amizade) por o pai ter falecido, embora ele nada dissesse. Em visita à terra de origem do marcel decobre que ele vendera o domaine de vinhas a japoneses, que tinha mentido sobre a sua mãe (uma polaca comunista da resistência que o abandonara mais ao pai) e quanto ao seu percurso liceal (afinal tinha estado num colegio religioso) e que o marcel tinha ido para o tibete tornar-se monge. O resto são refelexões psicológicas sobre o triangulo evaristo/marcel/vahid, que o narrador relaciona com a sua paixoneta pela prima do vahid, Sheyla, e que ele imputa ao iraniano querer contrariar. Finalmente uma quarta parte, digamos assim, o evaristo vai à alemanha a pedido do avô procurar o Fritz, que encontra, e trava amizade com um quase neto dele, Karl, de quem traça um retrato psicológico próximo do de marcel por este ser filho de uma polaca, ou seja ambos têm traços do frio individualismo e comportamento sistemático e organizado dos alemães do norte. Enfim, acaba o livro com considerações como, graças ao narrador, o Karl e família alemã ficaram cheios de amor por portugal onde compram uma casa no alrgarve e convivem entre famílias. Ao fim e ao cabo trata-se de 4 ou 5 histórias episódicas em que há um pretexto de um fio condutor para tornar um livro único com páginas suficientes para ser publicado.
"A Guerra do Salavisa" leva-nos para um Portugal de época a sofrer transformações reestruturantes da sociedade portuguesa, contextualizando o crescimento espontâneo e estouvado de um menino, no início do livro já rapaz (mas ainda com a cabeça na lua típica dos que não se preocupam porque não têm essa obrigação). O fim da Monarquia, a instauração da I República são os cenários de fundo com os quais convivemos muito brevemente, apenas para contextualizar o desenvolvimento de carácter de Joaquim Salavisa, amado pelo pai que certamente revê no filhos os sonhos cumpridos/ por cumprir de uma juventude desgarrada, e preocupação de uma mãe, que quer educar um fruto da sua linha hereditária para ser um homem, consciente, sensato e pelo menos, com algum nível de decência. A ida para a Grande Guerra quase passa despercebida, naquela frente de batalha que de batalha não tem nada, e que leva, tal como a sinopse indica, ao levantar de um acontecimento que criará laços de amizade entre Quim, Jean-Paul e Fritz. Esta parte do livro para mim foi a mais deliciosa. A relação entre os três, ainda que bastante breve, mostrou o quanto as barreiras e as composições das ideologias políticas escondem por vezes jovens resgatados para momentos com os quais não se identificam, e que no fundo, não fossem barreiras criadas por terceiros, os seus sonhos e interesses seriam os mesmos. Basta para isso ver a complexa família de Jean-Paul, que tanto atravessa um lado da barreira como se encontra da outra, e que em parte retractou a história de muitos outros na I Guerra Mundial. Essas passagens são muito rápidas, trazendo Quim para outra nova realidade, onde cruzará caminho com diversas personagens, ocupando lugares distintos na Guerra a decorrer, e que finalmente trarão alguma luz e sensatez a este rapaz que se preocupa consigo e não com os problemas do mundo. Quando a sinopse descreve a ponte de gerações, esperava que ela de facto tivesse ocorrido, e sinto que poderia ter sido melhor trabalhado. Senti que a passagem de avô para neto não só foi brusca como criou uma narrativa totalmente independente e confesso que me senti um pouco enganada, especialmente porque estava a gostar do desenvolvimento do enredo inicial. A estória do neto é completamente diferente da levantada ao seu avô. Também boémia e cheia de ajudas, para permitir a existência de bons vivants que só se preocupam com o umbigo e as boas ofertas gastronómicas e culturais de uma vida com regalias, não senti evolução nesta personagem. Paradoxalmente, esta segunda parte apresenta por vezes breves rasgos mais filosóficos que puxam a um lado mais maduro da narrativa, ainda que nem sempre bem conseguidos. Até certa medida gostei de Marcel (seu amigo) e do criaram em sua volta, mas o enfoque acabou por se tornar um pouco forçado e cansativo em algumas partes. É já a última parte, que passa quase que ligeira e despercebida que me fez gostar mais do livro novamente, com a mistura dos vários mundos e a miscelânea de acontecidos resultantes da composição da vida de várias personagens numa única tela, onde o passado e o futuro se misturaram ao ponto de surgirem como uma única época. O estilo literário do autor salvou este livro quando à criação de empatia com o leitor. Da minha parte, uma personagem corriqueira armada em Dandy que tem tudo o que cai do céu em cinco segundos não seria uma composição de que fosse gostar. Tantas cunhas e boa vida, facilidades que nem repara e sobre as quais não reflecte ou agradece soam-se aos chico-espertos que tudo querem e conseguem. No entanto, o estilo leve de J. F. Matias, solucionado numa mistura de brincadeira e tom irónico a um rectacto-tipo de uma sociedade portuguesa em estilo saudosista (e que infelizmente, em muitos casos correspondeu à realidade), acabam por criar uma ligação com o leitor que ainda que não se reveja nela conhece o seu país, o que inevitavelmente nos aproxima da estória que estamos a ler e, em parte, nos leva a desculpar os Salavisas, toda a sua linhagem, pelos defeitos de carácter que julgamos corrigidos neste narrador que reconta tempos idos. E falando em Salavisa e para terminar esta opinião, este título surge então como uma analogia um pouco mais vasta aos acontecimentos bélicos decorridos entre 1914 e 1918, passando antes a ser resultado do conflito da emancipação e da entrada na idade adulta, da compreensão do mundo por estes avô e neto, e da consciência da importância de estar vivo e de fazê-lo com dignidade. - Cláudia
Supunha tratar-se de um livro cómico e simples. Revelou-se um pouco complexo e psicológico. O enredo inicial é interessante mas muda abruptamente. Parece que passamos para outro livro.