Narrativa alegórica sobre uma revolta proletária contra um sistema corporativo prepotente, precisamente do tipo que os bilionários, por exemplo norte-americanos, receiam lhes aconteça (pelo que mantêm um sistema político, securitário e jurídico cada vez mais blindado, injusto e desumano). Nesse aspecto, o livro é na realidade muitíssimo actual, mais do que se poderá imaginar à partida, sobretudo na Europa.
A trama é demasiado linear para o meu gosto (também é um livrinho, desculpa-se) apesar de no fim, in extremis, a autora conseguir resgatá-la do facilitismo geral com a introdução do preço supremo pela conquista da liberdade.
Muito bem escrito, muito interessante, continuo absolutamente fã da autora.
«Ossi teme o que possa vir com a chuva grande, porque há um ano o mar ficou cheio de lixo à superfície. Os remos batiam em garrafas de plástico, copos de plástico, sacos de plástico, contentores de plástico, Ossi tirou a camisa, mergulhou em apneia. Babis, pomeias, tíndaros, todos os peixes de Alendabar nadavam atordoados no meio dos obstáculos. Era uma valsa de milhares de plásticos, alguns transparentes, delicados como seres vivos, outros espessos, opacos, todos desafiando a eternidade na água dos mortais. Sacos de ração embatiam em recifes de corais, aí ficavam. Uma embalagem de adubo veio bailando, colou-se à cara de Ossi. Contentores de gasolina flutuavam, depois de terem alimentado geradores, frigoríficos, o arsenal de milhares de cabeças de gado. E quando o mar e o sol desmanchassem todo esse lixo, ziliões de micropartículas continuariam a alojar-se no tecido de cada animal, de cada planta, no sal deitado na comida dos humanos. Lixo local, global, cósmico, advento de um futuro tão anunciado que nenhuma esfinge, nenhuma sibila hoje arranjaria emprego. O mal de toda a parte estava aqui. O mal daqui estava em toda a parte.»
«Para os humanos serem exclusivamente bípedes, a bacia teve de estreitar, e as mulheres pagaram isso sozinhas, muitas vezes com a própria vida. A evolução da espécie fez-se assim à custa de um sofrimento sem par entre os primatas: crânio maior, pélvis mais estreita. O parto de Clara prolongou-se por dezanove horas, e quando a cabeça do bebé enfim passou não foi possível estancar a infecção. (...) Ossi vem a chegar, Ira virá. Só falta Clara para sempre. E para sempre Aurora vai guardar aquelas dezanove horas do parto. A visão de um corpo a rebentar por todas as entranhas, com todos os seus líquidos, rasgado a cada esforço, para baixo, para fora. Sacrifício que nenhum homem conhecerá.» (N.B.: Graças a Deus!; literalmente).