Desejo e memória nos contos inesquecíveis de Milton Hatoum
Como disse uma vez o escritor argentino Julio Cortázar, o conto é uma pequena e perfeita esfera verbal que guarda uma única semente a ponto de eclodir. A semente pode ser de qualquer natureza — um lugar, um rosto, um episódio —, contanto que as mãos hábeis do bom contista saibam torná-la o ponto central a partir do qual se forma a esfera narrativa. Desse feitio, justamente, são os contos que Milton Hatoum reuniu em A cidade ilhada: relances da experiência vivida recolhidos em tramas brevíssimas, de dicção enxuta, em que tudo ganha nitidez máxima — e máximo poder de iluminação. As sementes desses contos não poderiam ser mais diversas: a primeira visita a um bordel em “Varandas da Eva”; uma passagem de Euclides da Cunha em “Uma carta de Bancroft”; a vida de exilados em “Bárbara no inverno” ou “Encontros na península”; o amor platônico por uma inglesinha em “Uma estrangeira da nossa rua”. Com mão discreta e madura, Hatoum trabalha esses fragmentos da memória até que adquiram, sem que se adivinhe como ou quando, outro caráter: frutos do acaso e da biografia pessoal, eles afinal se mostram como imagens exemplares do curso de nossos desejos e fracassos. Uns e outros, aliás, respondem pela rede subterrânea que amarra entre si os contos de A cidade ilhada. Se o desejo — sob a forma do amor, da literatura ou da viagem — leva os personagens a dilatar o raio de sua ação e a transpor as barreiras da infância e da moral, da classe e da província, estes mesmos elementos não se dão por vencidos e apenas aguardam a hora certa para se abater sobre os heróis como uma fatalidade erótica ou histórica que os traz de volta a um centro imóvel: “para onde vou, Manaus me persegue”. Esferas perfeitas ou espirais vertiginosas? Breves como são, as histórias de Milton Hatoum guardam em si a mesma potência expansiva e explosiva que o leitor já conhecia desde Dois irmãos e Cinzas do Norte.
Milton Hatoum nasceu em 1952, em Manaus (Amazonas), onde passou a infância e uma parte da juventude. Em 1967 mudou-se para Brasília, onde estudou no Colégio de Aplicação da UnB. Morou durante a década de 1970 em São Paulo, onde se diplomou em arquitetura na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, trabalhou como jornalista cultural e foi professor universitário de História da Arquitetura. Em 1980 viajou como bolsista para a Espanha, onde morou em Madri e Barcelona. Depois passou três anos em Paris, onde estudou literatura comparada na Sorbonne (Paris III). Autor de quatro romances premiados, sua obra foi traduzida em dez línguas e publicada em catorze países. Foi professor de literatura francesa da Universidade Federal do Amazonas (1984-1999) e professor visitante da Universidade da California (Berkeley/1996). Em 2008 foi nomeado Tinker Professor de literatura latino-americana na Stanford University (EUA). Foi também escritor residente na Yale University (New Haven/EUA), Stanford University e na Universidade da California (Berkeley). Bolsista da Fundação VITAE, da Maison des Ecrivains Etrangers (Saint Nazaire,França) e do International Writing Program (Iowa/EUA). Em 1989 seu primeiro romance (Relato de um certo Oriente), ganhou o prêmio Jabuti (melhor romance). Em 2000 publicou o romance Dois irmãos (prêmio Jabuti/ indicado para o prêmio IMPAC-DUBLIN), eleito o melhor romance brasileiro no período 1990-2005 em pesquisa feita pelos jornais Correio Braziliense e O Estado de Minas. Em 2005, seu terceiro romance (Cinzas do Norte ), obteve cinco prêmios: - Prêmio Portugal Telecom,Grande Prêmio da Crítica/APCA-2005, Prêmio Jabuti/2006 de Melhor romance, Prêmio Livro do Ano, Prêmio BRAVO! de literatura). Em 2010 a tradução inglesa de Cinzas do Norte(Ashes of the Amazon/Bloomsbury/2008) foi indicada para o prêmio IMPAC-DUBLIN.
Em 2008 publicou seu quarto romance (Órfãos do Eldorado), que faz parte da coleção Myths, da editora escocesa Canongate. Órfãos do Eldorado será traduzido em 16 línguas, tendo já sido publicado na França, Inglaterra, Alemanha, Portugal, Suécia e Croácia. Em 2009 publicou o livro de contosA cidade ilhada.
Hatoum publicou também ensaios e artigos sobre literatura brasileira e latino-americana em revistas e jornais do Brasil, da Espanha, França e Itália. Alguns de seus contos foram publicados nas revistas Europe, Nouvelle Revue Française (França), Grand Street (Nova York) e Quimera (México). Participou de várias antologias de contos brasileiros publicados na Alemanha e no México, e da Oxford Anthology of the Brazilian Short Story. Desde 1998 mora em São Paulo, onde é colunista do Caderno 2 (O Estado de S. Paulo) e do site Terra Magazine.
Por mais que eu tentasse adiar o fim, na noite passada conclui uma leitura maravilhosa, do meu autor nacional contemporâneo favorito: A Cidade Ilhada, de Milton Hatoum. Um livro que fez com que eu me emocionasse em diversas partes e que foi, sem sombra de dúvidas, uma das melhores leituras deste ano.
“A Cidade Ilhada” é um livro que reúne 14 contos do autor manauara, os quais trazem como temática assuntos diversos. Os contos abordam a ditadura (brasileira, argentina, espanhola), o amor, a morte, política, o suicídio, paixão e o colonialismo (principalmente europeu) o qual, infelizmente, ainda se faz presente na realidade de nosso país.
A maioria dos contos são ambientados em Manaus, ou em cidades próximas à capital, o que já é uma marca registrada de Milton Hatoum. Mesmo aqueles contos que não são ambientados nesses lugares abordam e resgatam alguma coisa da cultura, do modo de vida, das pessoas, da natureza, da arquitetura e/ou da paisagem manauara.
Além disso, os contos abordam questões como as Artes – mais especificamente a Literatura e a música – e a Filosofia. Como representantes da Literatura brasileira, Hatoum cita Machado de Assis, Eça de Queiroz e Euclides da Cunha, fazendo com que os/as leitores/as conheçam também mais sobre a obra e a vida desses importantes escritores.
Além dos autores citados acima, em um de seus contos, Hatoum traz Simone de Beauvoir, a qual tem um affair com o personagem principal. Jean Paul Sartre também é uma presença ilustre deste e de outros contos presentes em “A Cidade Ilhada”, juntamente com outros autores, poetas, músicos e pintores.
Trazendo relatos da própria memória e fatos por ele criados, Milton Hatoum oferece aos/as seus/suas leitores/as, um livro intenso, repleto de questões que nos fazem pensar sobre a nossa constituição enquanto povo(S) brasileiro(S), mas ao mesmo tempo abordadas de uma forma extremamente sensível e poética.
Recomendo fortemente a leitura, não somente de “A Cidade Ilhada”, mas também dos demais livros de Milton Hatoum. Milton é um autor que escreve lindamente e que tem a habilidade de nos transportar para qualquer lugar em que seus textos sejam ambientados. Conheçam a escrita deste autor brasileiro contemporâneo que representa com tanta propriedade a nossa cultura e quem somos.
3.5 ⭐ No geral, gostei dos contos. Milton escreve bem e de modo muito dinâmico, consegue criar uma boa ambientação para as histórias. Um ou outro me pareceram um pouco confusos, mas todos foram, de algum modo, interessantes. Não havia lido nada do autor antes, e este livro, que nem deve ser tão conhecido assim, foi um acaso — não fazia ideia do que esperar. Mas foi bom.
O livro de contos de Milton Hatoum foi uma grata surpresa. Ambientado em Manaus, em sua maioria, os contos de Hatoum são uma mistura das experiências vividas pelo autor, desde a sua infância até as frustrações da vida adulta. Quase uma autobiografia, contada de outra forma pelas suas personagens. Há, claramente, personagens que são reflexo das distintas fases de sua vida, ora mais triste e insegura, como mostrou ser a sua infância, ora mais confiante e culta, como mostra ser sua atual fase. Esta ordem cronológica está bem representada neste compilado de 18 contos. Os primeiros contos remetem à infância e suas decepções (o amor platônico vivido pelo garoto em “Uma estrangeira da nossa rua” é de extrema beleza e sutileza), enquanto nos próximos contos aparecem mais as experiências vividas de além-mar (Paris, Bombaim, Palo-Alto - locais em que o autor visitou e morou), a figura da morte e antigos amigos que se encontram. Assim, neste clima nostálgico e lírico, as personagens te levam às aventuras percorridas em Manaus, cercada por rios, ilhas e floresta ( “A cidade ilhada”), tornando a experiência da leitura muito mais interessante.
O manauara Milton Hatoum, nascido em 1952, chegou a estudar arquitetura mas não seguiu a carreira. A arquitetura perdeu uma pessoa de valor mas a literatura ganhou um precioso acréscimo. Já lecionou literatura na UFAM e na Universidade da Califórnia, em Berkeley. Seus instigantes romances “Relato de um certo oriente” (1989), “Dois irmãos” (2000) e “Cinzas do Norte” (2005) já venceram prêmios como o “Jabuti”, “Bravo”, APCA e Portugal Telecom e sua obra já foi traduzida para oito idiomas. “A cidade Ilhada” é sua primeira coletânea de contos e o autor se sai muito bem. Em seus quatorze contos, ambientados principalmente na cidade de Manaus, onde o autor nasceu e que primam pela objetividade, o livro nos traz relances e vislumbres de experiências vividas numa espécie de submundo onde o sexo, as compulsões, os desejos, os desvarios e os mistérios convivem, sobrepõem-se e misturam-se em narrativas que, muitas vezes, flertam com uma espécie de “realismo fantástico” numa cidade que realmente está ilhada pelas águas e por uma natureza luxuriante que fascina e ao mesmo tempo oprime. Todos os contos são dignos de uma leitura atenta mas chamaram, especialmente, a minha atenção o nostálgico e melancólico “Varandas da Eva”, o insólito e misterioso “Um oriental na vastidão”, o irônico e algo mordaz “Dois poetas da província”, o angustiante “Bárbara no Inverno” e o interessante e algo novelesco “Encontros na Península”. Boa pedida e ótima introdução à obra desse ótimo escritor.
Finais previsíveis. Personagens artificiais. Tem um conto ou dois que destacaria aqui. No mais, tal qual Franklin Távora adjetivou um dia a obra de Alencar, ironicamente, acho "A cidade ilhada" literatura "de gabinete".
Para além disso, o livro não tem nada de regionalista (fato que parece óbvio, mas vez ou outra me dou com o conceito associado a Hatoum).
É um livro escrito por alguém de Manaus. Ponto. Agora, se um paulista acha isso exótico, é porque ele ainda não se deu conta (e nunca vai se dar) que São Paulo também está no fim do mundo.
Difícil avaliar um livro de contos, ainda mais um tão diverso como A cidade Ilhada.
Manaus, Paris, Barcelona, Madri, São Paulo, Brasília, Bombaim, são muito cenários, todos trabalhados para se tornar familiares, bem elaborados, gostei muito da leitura. Muitos contos sobre relações humanas: amantes, amigos ou paixões.
Gostei particularmente de: Bárbara no inverno,Bárbara no inverno,Encontros na Península e Dois Tempos.
Livro de contos, na minha opinião, é o mais difícil de ser escrito. Precisa prender a atenção do leitor o tempo todo, sem tempo de enrolação e/ou construção de personagens. Esse livro curto não trouxe nenhuma história que me marcou, nem abordou nenhum assunto polêmico/inusitado. É mais do mesmo.
Esse livro é um presente. A maioria dos contos nos sensibiliza de maneira mágica. Há dois ou três contos que não senti muita empatia pelos personagens, mas a narrativa e a construção são fantásticas. Milton Hatoum não deixa nada a desejar ele te envolve em uma teia de emoções, no primeiro conto do livro você já sente o impacto do que te espera. Prepara-se para chorar, se divertir, passar raiva e rezar para que o livro não acabe.