O novo romance de Marcelino Freire reencena sua exuberante e mágica prosa poética ao contar a história de um pai e filho em cenário e solo bem brasileiros.
Escalavra é a história de um pai e de um filho e do silêncio sepulcral entre eles. Tudo contado (ou cantado) a partir de uma oralidade antiga, um vento sonoro, nada eólico, em que uma palavra vai “escalavrando”, ralando, friccionando, enganchando uma frase na outra, numa espécie de estrutura megalítica como a daqueles monumentos pré-históricos erguidos, pedra sobre pedra, para o descanso dos mortos. Livro que, enfileirado ao lado de outros livros em sua estante (ou uns por cima e outros por baixo), comporá o que de mais original há no cenário da nossa literatura latino-americana, de raiz sertaneja-brasileira.
Marcelino Freire nasceu em Sertânia, PE, em 1967. Viveu no Recife. Desde 1991 reside em São Paulo. É autor, entre outros, de Angu de Sangue (Ateliê Editorial), Amar É Crime (Edith), Rasif e Contos Negreiros (Record) - este último, vencedor do Prêmio Jabuti 2006, foi também publicado na Argentina em tradução feita por Lucía Tennina. É o criador e curador da Balada Literária, evento que acontece anualmente, desde 2006, no bairro paulistano da Vila Madalena. Nossos Ossos é seu primeiro romance.
Um pai e um filho possuem uma relação de conflito enquanto levam a vida pedreiro e servente em uma comunidade majoritariamente analfabeta controlada por forças políticas interessadas na preservação da ignorância do povo. Enquanto o pai se vê confiando apenas no esforço de seu trabalho e na obediência cega, o filho se vê atraído pelas palavras e pelos livros, e enxerga nessa nova relação uma possibilidade de um futuro diferente. Ambos compartilham uma tragédia que irá mudar para sempre suas vidas e sua relação. Escalavra é um livro não menos do que genial, uma prosa experimental que não perde nem por um segundo a musicalidade das palavras de Marcelino Freire. O livro sabe dizer muito sem esmiuçar todas as coisas. Nos mostras as peças necessárias para entendermos a tragédia que se apresenta e o quão caro pode custar a preservação da ignorância. Por toda a trama ainda perpassa a figura do professor, personagem que aparece pouco mas que é fundamental para que a história avance a ganhe contronos cada vez mais doloridos. Aqui ele representa a esperança, a persistência e também o que acontece quando essas duas coisas deixam de existir. Marcelino Freire já se provou um contista brilhante, e apesar deste ser o seu segundo romance, é ainda o primeiro que eu leio. Fica claro que, mesmo o autor admitindo sua dificuldade em escrever romances, ele toma o gênero para si de uma forma que fica a impressão que ele também sempre foi um romancista. A regra é clara: Marcelino Freire lançou um livro novo? Leia imediatamente.
O começo da leitura de Escalavra não foi fácil. O autor faz um tipo de malabarismo literário com a forma, usa a pontuação como ferramenta de expressão, ignorando aspectos da norma culta, e isso exigiu que eu me ajustasse para entender o ritmo. As primeiras 20 páginas, especialmente, pediram um esforço do meu cérebro para que eu aprendesse a acompanhar essa cadência. Mas, uma vez que me habituei ao uso da linguagem e passei a interpretar a forma, a leitura me engajou profundamente.
É um livro que não apenas exige dedicação cognitiva, mas também dedicação emocional. Logo no início, encontrei frases como: “Não se engane, toda oralidade vem carregada de sangue.” Essa frase eu consigo entender dentro do meu peito. Não é o meu cérebro que a entende, é o meu peito, são as minhas vísceras. Ou ainda: “A criança sabe que há navios ancorados no futuro.” São imagens fortes, carregadas de significado, que pedem mais do que uma leitura passiva; elas pedem entrega.
O livro fala do processo de aprendizado de um filho que descobre como ler às escondidas do pai, que tem um horror visceral a livros e à leitura. Ao longo das páginas, fui descobrindo as histórias que constroem esse contexto – as do pai, fragmentadas, escondidas na narrativa, mas que pouco a pouco revelam o processo de endurecimento dele; e as do filho, carregadas de uma coragem lírica e esperançosa que me tocaram profundamente.
Uma frase que me marcou profundamente e que ilustra bem a aridez do pai é: “Remoer, remoer, remoer, essa culpa eterna. O melhor é socar para dentro das pernas o escrecimento. A morte da mulher até o fim da vida continuará sendo, para lá e para cá, uma ferida viva de arrependimento.” É uma frase que carrega toda a dureza e o peso desse personagem, a culpa que parece ser tanto uma punição quanto um fardo inevitável. Belíssima construção.
Marcelino Freire está sempre quebrando regras em nome da evolução da Literatura. Isso vai além do texto, envolve a apresentação gráfica de seus escritos nas páginas do livro. Em parágrafos muito breves ou longos, alternados com pontos estilizados, o autor vai e vem numa narrativa que envolve pai e filho em um cenário árido. A novidade em sua vida é uma oportunidade de trabalho na casa onde vivia uma professor que desapareceu. Mais um mistério na vida do garoto, cuja mão também apagou-se de sua infância. Há uma pilha de livros na casa a ser reformada, um volume proibido tanto pelo pai como pelo patrão. Naquele monte de papeis reina a perdição da alma. Melhor não escrever mais, e deixar para o leitor a desfecho por meio do texto instigante de Marcelino Freire.
fechar um livro como quem coloca um último tijolo no último buraco onde ainda passava vento. tijolo por tijolo e já estamos entregues ao abrigo que é esta leitura.
um muro de palavras de esquecimento, morte, linguagem, abandono, axé e libertação.
os livros, sempre os livros, também em Escalavra suportam o fardo de viver. nos fazem percorrer os caminhos de um filho e um pai e um autor que não se esconde atrás da ficção.
Marcelino é Escritor que ousa inventar uma língua e o mundo.