Quando Kael Vitorelo decidiu remover cirurgicamente seus seios, em um procedimento conhecido como mastectomia masculinizadora (ou eletiva), se viu envolvida em um processo burocrático e judicial tortuoso e extenuante. Neste livro, ele retrata sua experiência, como pessoa transexual não binária, e escancara o despreparo e a violência do sistema judicial brasileiro com aqueles que não se enquadram no padrão normativo.
Transitando entre diferentes gêneros e linguagens (história em quadrinhos, ensaio, autobiografia), Vitorelo retrata o corpo humano como um território de mutações e disputas constantes. Um campo de batalha, mas também um espaço de criação, de invenção, de novas possibilidades.
Visualmente belíssimo (alguns quadros me comoveram profundamente), preciso no juridiquês e nas disputas com saberes médicos, inspirador na afirmação da relação com o corpo(-eu) e nossos agenciamentos nisso. O prefácio da Helena Vieira, com os múltiplos significados do seio/teta/peito, também é muito bom!
Recomendado pra pessoas cis aprenderem, pra pessoas trans sentirem junto. Que pérola.
Muito mais do que uma biografia, é uma denúncia das violências institucionais. De como a sociedade, a medicina e o judiciário não conseguem enxergar e entender pessoas não binárias. Um livro extremamente necessário.
Lindo quadrinho de Kael! Como pessoa não-binária varias coisas ressoam comigo. Já flertei com mastec e nas pesquisas realmente parece que tudo é um teste feito pra gente não passar 🫠🫠
Vinha aguardando ansiosamente esse trabalho de Vitorelo desde que se chamava "Semiótica do Mamilo". Embora semiótica seja um termo mais preciso, quem hoje em dia que não é acadêmico sabe o que é semiótica? Então coube a Filosofia, que além de um questionamento da realidade também significa um estilo de vida. E é isso que este trabalho de Vitorelo traz: um baita questionamento do cistema e da heteronormatividade que é capaz de deixar muitas cabeças bugadas se elas tentarem ler com olhos conservadores. Também é uma forma de mostrar, a partir de recortes biográficos, como foi o processo de mastectomia de autore, que é uma pessoa não-binária, o que causa entraves na legislação e na forma como a psicologia está amparada não apenas no Brasil como no mundo. As leis e a medicina ainda precisam evoluir muito para entender as dissidências de gênero e Filosofia do Mamilo é uma prova disso. Eu queria ver mais semiótica no trabalho de Vitorelo, falando mais sobre os sentidos e significados do mamilo, mas gostei muito do que li, uma obra com certeza revolucionária não só para o universo dos quadrinhos mas também para quem estuda ou busca entender as mais diversas expressões de gênero. Por mais estudos de semiótica e de gênero nos/com quadrinhos assim desse jeitinho que é Filosofia do Mamilo!
Antigas engrenagens arcanas pesam sua alma. Quem você é. Quem você foi. Quem você quer ser. Do alto de sua imutabilidade plenamente homologada, velhos senhores tentam sopesar sua alma. "Quem você quer ser? Pois bem, mostre-nos seu esforço, atinja os padrões mínimos impostos para que você mereça ser quem é." As engrenagens giram, pois não sabem fazer outra coisa. Os senhores pesam, pois nunca sonharam em ser outra coisa. Nunca pesaram sua própria alma. As engrenagens giram, mas não andam. Não importa, sinta o vento em suas asas. Eles não sabem que vivem na ignorância, nunca entenderam a si mesmos. Se reconstruir é o único jeito de se entender plenamente, de terminar de nascer, de continuar o ato da criação. Só navega quem consegue enxergar o rio.
Narrativa dolorida e poética sobre as injustiças do judiciário, que se mostra completamente desleixado e ignorante a um pedido de mastectomia eletiva feito por uma pessoa não binária. Leitura muito bonita e recomendadíssima.
amei demais ambas a escrita e as ilustrações. como pessoa não-binária que tambem quer fazer a mastec, me identifiquei bastante com os relatos e pensamentos registrados neste livro