Na continuação da saga Deuses de Dois Mundos, o ambicioso jornalista New continua a contar sua história. Ao mesmo tempo em que alcança a posição profissional que sempre quis, ele se vê dividido entre dois grupos poderosos, que podem lhe dar tudo que deseja ou deixá-lo sem nada.
Paralelamente, na África ancestral, o grande babalaô Orunmilá e seu grupo partem em busca dos príncipes odús, única maneira de impedir que o controle do destino de homens e deuses caia nas mãos erradas. Uma traição permeia as duas histórias, que tem mais em comum do que se pode imaginar.
Sabe aquela sensação de sair de novo com uma pessoa que você achou o máximo no primeiro encontro, mas aí você começa a perceber os defeitos? Essa foi a minha sensação com o segundo volume de Deuses de dois mundos.
Enquanto O Livro do Silêncio é muito legal por causa do frescor do tema e uma boa escrita, O Livro da Traição simplesmente soou um tanto machista demais. O personagem principal, New, não é mais cativante, é só um cara machista e sem escrúpulos. Confesso que no meio do livro eu comecei a torcer pelas vilãs da história. Ah sim, todas as vilãs são mulheres.
Não sei dizer se isso é culpa apenas do autor ou se a mitologia que ele está usando para criar a história também é machista (isso é sempre um risco...). Mas independentemente disso, a forma como a história é contada pode evidenciar mais ou menos isso, e J.P. Pereira decidiu escrachar de vez. Não foi uma boa escolha na minha opinião.
Veja bem, eu não tenho problemas com anti-heróis, aqueles personagens complexos, que não são 100% bonzinhos nem 100% maus. Eles podem até chegar mais perto do 100% maus. Mas bons anti-heróis tem características que te fazem gostar deles, ou então compreender suas ações (às vezes até concordar!), ou serem simplesmente tão charmosos que não tem como não gostar.
Mas New não tem nada que o redima. Absolutamente nada. É só um cara machista que acha que pode fazer o que quiser e vai conseguir se safar.
Pelo menos a parte mitológica da história é menos ruim. Menos ruim porque, apesar de machista também, os personagens são interessantes e a história é legal e você quer saber o que vai acontecer.
Vou ler o terceiro volume mais por curiosidade do que por gosto. Ah, e não acredite que dá para ler um livro dessa trilogia ser ler os outros. Isso é coisa do marketing querendo vender os outros volumes para quem não leu o primeiro.
As vezes tem algumas decisões editoriais, principalmente em obras brasileiras, que não dá para entender. Ou melhor, que dá para entender tendo em vista as peculiaridades do mundo literário brasileiro.
Uma delas é a prática comum entre as editoras de dividir livros grandes. E digo grande para o padrão brasileiro, onde quando um livro passa de 300 páginas já é considerado tijolão.
Coitado do povo que curte fantasia, por exemplo, onde tijolões de 600 páginas são quase que o padrão básico. E o leitor brasileiro já está se acostumando a ler tijolão, já tem muito tijolão de gringo saindo por aqui, e sendo consumido pela galera.
Mas porque falo isso em relaçã ao Deuses de Dois Mundos?
Como comenta o próprio autor no começo do Livro do Silêncio (Deuses de Dois Mundos #1), ele teve de dividir o Livro do Silêncio e o Livro da Traição, que inicialmente eram um único livro. Agora, tendo lido o Livro da Traição, não sei se concordo com essa decisão editorial, os dois livros juntos são MUITO MELHORES do que lidos em separado.
Um grande livro de fantasia sobrenatural tem suas peculiaridades. Além de descrever uma trama, passar os arcos de personagens de maneira completa, ainda tem o trabalho de construção de mundo. E tudo isso toma tempo, ou páginas.
Assim, o que eu quero passar com essa resenha é o seguinte; se você se interessar em ler a saga Deuses de Dois Mundos, leia direto, um livro atrás do outro. Ou pelo menos, leia os dois primeiros livros como sendo um só. Eu teria até mesmo preferido um tomo único com os três livros, gigante (e que daria o número de páginas do primeiro volume de Guerra dos Tronos - George R. R. Martin, por exemplo).
Com a leitura do Livro do Silêncio e do Livro da Traição um depois do outro, dá para perceber melhor o arco de personagem do Newton Fernandes, o quase anti-herói protagonista de uma das duas narrativas da saga. Ele fica mais arredondado, e seu arco fica mais delineado, e até mesmo a sua arrogância, seu materialismo e machismo, fortes no primeiro livro; começam a ser desafiados e quebrados no segundo livro. Fica recomendação então.
Vamos às minhas impressões em relação à leitura, porque isso é, ao meu ver o objetivo de uma resenha. Eu gostaria de martelar essa noção em muitos blogueiros e resenhistas que encontro pela net, resenha NÃO É DAR SPOILER, GALERA, é só dizer se gostou, se não gostou, porque gostou ou porque não gostou e fazer uma recomendação para quem possa gostar do livro. Simples, passar a trama geral do livro (se quiser, a premissa narrativa), as impressões e a recomendação (ou não) do livro. SÓ ISSO VÉÉÉÉÉIO, NADA DE SPOILER, DETONAÇÃO, ETC.! AFF!
O Livro da Traição continua as duas narrativas colocadas no Livro do Silêncio com a mesma competência e dando o mesmo prazer na leitura. Ou melhor, a trama fica até mais interessante, pois, já feito o "setup" dos personagens e cenário, agora é tacar obstáculos, complicações e drama em cima.
A narrativa dos orixás fica cada vez melhor, com a narrativa mítica apresentando cenas emocionantes. Amei, principalmente porque agora, cada um dos deuses africanos, na minha mente, ganharam personalidades distintas. E também ajuda o fato de que, suas histórias são belíssimas e passíveis de muitas interpretações.
A narrativa do jornalista Newton Fernandes também ganha muito nesse segundo livro. Adorei o mergulho no submundo dos cultos "esquisotéricos" brasileiros, sei que existem (já até participei de vários, durante meu período de busca existecial dos meus vinte anos, acho que todo escritor tem essa fase hahahahaha), e as cenas são muito originais e interessantes.
Tanto o New quanto os demais personagens se arredondam mais, e como disse antes, agora, nesse segundo livro, os arcos estão cada vez mais nítidos (arco de personagem = mudanças psicológicas ocorridas no personagem durante uma narrativa).
Continuo encarando New como um anti-herói, o personagem é bem antipático, metido a besta, egoísta, babacão, machista, e até bem homofóbico em alguns momentos, arrogante, e com a síndrome do fodão (é um super-jornalista, sabe jiu-jitsu, tem sucesso com as mulheres, acha "chato" o fato de que as mulheres começam a reclamar do patriarcalismo escrotíssimo do mundo das redações, etc). Mas, finalmente, ele começa a melhorar muito nesse segundo livro, começa a ter alguma auto-reflexão, começa a sofrer um pouco por causa de seus erros pessoais, mesmo que o mundo consumista e materialista em que habita e até curte ficando cada vez mais repulsivo (é o punk dentro de mim falando, hahahaha), principalmente contrastando com a sabedoria, e com a beleza mítica e pura (e violenta!) da narrativa e do universo mítico dos orixás.
Juro que até torci para que Ogun aparecesse no meio da playboyzada, no meio dos empresários das altas rodas brasileiras, no meio daquela metideza arrogante e metida a besta, no meio das descrições de restaurantes do Fasano, de raviolis regados a vinho caro, de jantares burgueses e decadentes, do universo escrotíssimo dos grandes jornais brasileiros, das babação de ovo entre os poderosos e o caralho a quatro e saísse decapitando todo mundo com sua espada de ferro, hahahahahaha!
O livro também revela mais detalhes tanto sobre a trama conspiratória quanto sobre a vida de New (seu passado, seu conflito interno). Com isso, algo que começou a chamar a minha atenção foram os paralelos entre as duas narrativas da saga. Vamos ver o que acontece no terceiro livro!
Senti uma melhora na prosa (que já era boa no primeiro livro), que ficou até mais direta e mais enxuta. A narrativa mítica é muito bem descrita, e a perícia do escritor se mostra na alternância de estilos entre as duas narrativas, me lembrou muito os livros do David Mitchell, como Cloud Atlas e Bone Clocks. A trama é estilo "page turner", com cenas terminando em ganchos, o que torna a leitura muito agradável.
Fica a recomendação, quem achou que faltou alguma coisa no primeiro livro, a resposta é ler o primeiro e o segundo livro um atrás do outro, a história só cresce com isso. Quem gostou do primeiro livro vai gostar até mais, acredito, do Livro do Silêncio.
E vamo que vamo para o terceiro livro, O Livro da Morte. E já sinto aquela ressaca de fim de trilogia literária, aquele vazio que dá quando se curte muito uma história, principalmente a saga dos meus orixás do coração! :)
Axé! :)
NITROLEITURAS | O Livro da Traição (Deuses dos Dois Mundos #2) - P.J. Pereira | Ed. Boa Prosa, 2014, 378 pgs | Lido de 09.12.15 a 11.12.15
"Deuses de Dois Mundos: O Livro da Traição" eleva ainda mais a série de P. J. Pereira, mergulhando o leitor em uma trama repleta de intrigas, traições e revelações surpreendentes. A história de Newton Fernandes continua a se entrelaçar com o mundo dos orixás, criando uma narrativa que é ao mesmo tempo épica e intimista. A maneira como Pereira desenvolve seus personagens é profunda e cativante, fazendo com que suas lutas e dilemas ressoem intensamente com o leitor.
O ritmo acelerado e as reviravoltas inesperadas mantêm a tensão elevada, tornando impossível largar o livro. A exploração de temas como poder, lealdade e destino é feita de maneira sofisticada, enriquecendo ainda mais a narrativa. "O Livro da Traição" é uma sequência digna e emocionante, que mantém a qualidade e a intensidade do primeiro volume. Recomendo esta obra a todos que apreciam uma boa história cheia de mistério e ação.
Novamente, fiquei desapontado com Pereira. Isso porque perdeu uma oportunidade tremenda em colocar a tona um tema (religiosidade de matriz afro-brasileira), pois apresentou de um modo jogado, sem despertar muito interesse. Não há uma coesão quando a história volta-se para o tempo de Orunmilá.
Além disso, muitas pontas soltas que precisam ser amarradas. Possivelmente, a narrativa deve ser conectada no terceiro livro.
Bem, não considero uma leitura que esteja dentro de uma aventura literária agradável, muito menos odiosa. Porém, não me deu prazer em ler tudo.
A história finalmente toma corpo e engrena de uma forma que torna quase impossível parar de ler. O grande problema é o New. O cara é um babaca, machista, chauvinista... Até entendo a ideia do anti-heroi, mas o New não passa nem perto de ser um, ele é só um grande babaca mesmo