"Becos da memória" se passa em uma favela em Belo Horizonte que está prestes a ser demolida para dar lugar à expansão do bairro rico logo ao lado. Acompanha vários personagens: a velha que fez o parto de todos do local, mães que precisam vender os filhos para conseguirem dinheiro, as mulheres que trabalham como empregadas e lavadeiras desde criança, os homens que fazem bicos em construção, e um homem que tem mais conhecimento de causas sociais e tenta fazer a comunidade lutar por seus direitos. O livro narra o dia-a-dia do local, com os campeonatos de futebol, a alegria de poder levar as sobras de comida para casa, a cachaça e o samba no fim da semana e os desastres cotidianos da pobreza. Tudo isso enquanto eles se perguntam se serão os próximos desalojados.
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"Maria-Velha, dizem uns que a vida é um perde e ganha. Eu digo que a vida é uma perdedeira só, tamanho é o perder. Perdi Miquilina e Catita. Perdi pai e mãe que nunca tive direito, dado o trabalho de escravo nos campos. Perdi um lugar, uma terra, que pais de meus pais diziam que era um lugar grande, de mato, de bichos. De gente livre e sol forte... E hoje, agora a gente perde um lugar de que eu já pensava dono. Perder a favela! Bom que meu corpo já está pedindo terra. Não vou mesmo muito além."
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"Duas ideias, duas realidades, imagens coladas machucavam-lhe o peito. Senzala-favela. Nesta época, ela iniciava seus estudos de ginásio. Lera e aprendera também o que era casa-grande. Sentiu vontade de falar à professora. Queria citar, como exemplo de casa-grande, o bairro nobre vizinho e como senzala, a favela onde morava. Ia abrir a boca, olhou a turma e a professora. Procurou mais alguém que pudesse sustentar a ideia, viu a única colega negra que tinha na classe. Olhou a menina, porém ela escutava a lição tão alheia como se o tema escravidão nada tivesse a ver com ela. Sentiu certo mal-estar. Numa turma de quarenta e cinco alunos, duas alunas negras, e, mesmo assim, tão distantes uma da outra. Fechou a boca novamente, mas o pensamento continuava. Senzala-favela, senzala-favela!"