Eu tentei. Escrevi uma palavra a seguir à outra. Sabendo que cada palavra podia ter sido diferente. Como a vida da minha amiga, como qualquer outra vida, podia ter sido diferente. Eu tentei. Amor e honra e piedade e orgulho e compaixão e sacrifício… Que importa se falhei.
Quando nos cruzamos com alguém com quem ficamos com uma impressão menos boa, raramente sabemos qual é a história daquela pessoa, o que a traumatizou, o que a aflige, até mesmo se disfarçar bem e apresentar um comportamento polido, o que oculta do resto do mundo. Qual é o tormento de cada uma delas? Qual é o tormento de cada um de nós? Na dúvida, é um bom exercício praticarmos a tolerância e a delicadeza, mas nem sempre é fácil.
Não sei quem foi, mas alguém, talvez Henry James, ou talvez não, disse que há dois tipos de pessoas no mundo: as que vendo alguém sofrer, pensam: Isto podia acontecer comigo, e as que pensam: Isto nunca me acontecerá. As primeiras ajudam-nos a sobreviver, as segundas fazem da vida um inferno.
“Qual é o Teu Tormento” é um livro tese em que Sigrid Nunez lista uma série de casos que exemplificam essa ideia de toda a gente carregar um peso e fá-lo seguindo a sabedoria de William Faulkner quando recebeu o Prémio Nobel da Literatura, com as “velhas verdades universais – amor e piedade e orgulho e compaixão e sacrifício.”
O que me atormentou nesta leitura e subsequente avaliação foi ter apreciado a empatia que a autora revela com as suas personagens e não tanto os exemplos escolhidos para ilustrar o seu enunciado, tal como já me tinha acontecido com “O Amigo”, onde também recorre a um artifício que, para mim, desvaloriza a narrativa. Em “Qual é o Teu Tormento”, surge uma meditação sobre temas como a velhice, a solidão, a ficção feminina, o assédio, a perda da beleza física e o luto, havendo também lugar para o tema do fim do mundo.
Cultivar o bem-estar pessoal, aliviar as angústias quotidianas, evitar o stresse: estes tinham-se transformado em alguns dos objetivos mais elevados da nossa sociedade, disse - mais elevados, ao que parece, do que a salvação da sociedade em si mesma. A moda da atenção plena não passava de mais uma distração, disse. É claro que devíamos estar tensos.
Nunez é claramente uma escritora de escritores, enriquecendo a sua exposição com citações de autores consagrados e incluindo referências aos livros que está a ler.
Memória: Precisamos de outra palavra para descrever a forma como vemos acontecimentos do passado que continuam vivos dentro de nós, pensava Graham Greene. De acordo. De acordo também com Kafka. E, ao mesmo tempo, com Camus. O sentido literal da vida é tudo aquilo que fazes para não te suicidares.
Aliás, é escritora e jornalista a amiga da narradora em torno da qual gira esta obra, que já sem esperança de recuperar do cancro, lhe pede que a acompanhe nos últimos dias de vida, até ela ganhar coragem de tomar os comprimidos que lhe garantiriam, como diria Simone de Beauvoir, “uma morte suave”.
Tinha querido ser forte. Tinha querido ter controle. Tinha querido morrer à sua maneira e com o mínimo incómodo possível para o mundo. Tinha querido paz. Tinha querido ordem. Paz e ordem à sua volta era tudo quanto havia desejado. Uma morte tranquila, limpa, até – porque não? – bonita. (…) Era o fim que a minha amiga havia escrito para si própria.
Esta mulher é uma pessoa inteligente e difícil, intimidante e frontal, cerebral até, com uma capacidade implacável de processar o sofrimento, incluindo a hostilidade com a que a filha desde muito nova a brindou.
Queres perdoar tudo, disse a minha amiga, e devias perdoar tudo. Mas descobres que há coisas que não podes perdoar, nem mesmo quando sabes que estás a morrer. E isso transforma-se numa ferida aberta, disse: a incapacidade de perdoar.
Tendo Sigrid Nunez sido assistente de Susan Sontag e vivido com ela quando esta estava a recuperar de uma mastectomia, pergunto-me até que ponto se inspirou nesta intelectual, que apelidou de “monstro de arrogância e indelicadeza”, ao construir esta personagem.
É então que, na segunda parte do livro, as duas amigas se instalam numa casa isolada, a conversar, a ver filmes, com a narradora a cozinhar e a ler-lhe em voz alta, visto que até a paciência para os livros ela perdeu, fazendo lembrar a dinâmica de “O Quarto de Hóspedes” de Helen Garner, ainda que mais pacífica e contida, visto a doente já se encontrar numa fase de aceitação, ainda que não livre de angústia.
Depois de uma pausa arrancou-me aos meus pensamentos gritando: Nunca na minha vida fui tão infeliz! Odeio-me!
Morrer de desespero. A frase veio-me à cabeça e toda a água do quarto se transformou em gelo. (…) Agora a minha amiga guinchava. Oh! Que é isto, que merda é esta.
Era a vida, só isso. A vida que continuava, apesar de tudo. A vida complicada. A vida com que é necessário lidar.