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A faxineira mais bem paga do Bom Fim

No terceiro livro da carreira a escritora Nathallia Protazio nos traz crônicas movidas pela ideia de que todo trabalhador está limpando a barra de alguém. O livro nos faz mergulhar na subjetividade da Porto Alegre proletária com o tom crítico e bem humorado que já é sua marca. A leitura ainda ganha envolvência e diversão através da veia ficcional que se atreve a transformar em criatividade o que o gênero carrega de instável. Neste novo trabalho a autora vem defender o quanto a crônica anda vivona e vivendo.

160 pages, Paperback

Published November 1, 2024

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Profile Image for Henrique.
1,067 reviews30 followers
September 23, 2025
Muita gente escreve livros de crônicas, mas nem todo mundo “vive” a crônica. Às vezes, o cronista é só alguém que quer expressar algumas coisas sobre a sua vida e acha que não existe jeito mais fácil do que fazer isso no formato da crônica. Esse tipo de cronista pode até escrever alguma coisa interessante aqui e ali, mas ainda faltará algo: certo tempero, certa “alma”, que só o cronista-cronista saber alcançar.

Nathallia Protazio está no time dos que fazem da crônica algo mais do que o registro de suas experiências pessoais. Ela tem uma escrita deliciosamente livre, com estilo e voz autoral muito próprios, coisa que não é tão simples de encontrar por aí. E, se faz também as inescapáveis divagações sobre o cotidiano, é sempre de uma maneira em que se sente que ali está uma cronista, assumida e bem resolvida.

Muito bem temperada, sua linguagem apresenta marcas da oralidade, conta com o humor frequentemente, mas não abre mão jamais da dimensão poética. A cronista é daquelas que falam com sinceridade coisas que gostaríamos de ouvir mesmo. Grande personalidade, Nathalia deixa antever as outras crônicas que poderia fazer somente com coisas que disse de passagem nas crônicas que escreveu de fato.

A cronista chega a quebrar o suposto “pacto de linguagem”, que existiria entre autor e leitor. Fruto do jornal, a crônica foi por muito tempo refém da etiqueta de linguagem. O cronista não podia falar um palavrão, não podia descrever um ato sexual, e simplesmente porque o resto do jornal também não podia fazer isso. Em um texto com “O cu de Adão”, Nathallia desfaz essa lógica de modo muito original.

Nesse sentido, é até possível dizer que ela contribui para que a crônica passe a ter sua dimensão literária mais reconhecida, pois essas são “liberdades” com as quais todos os demais gêneros da literatura sempre contaram. Atenta ao gênero e à sua própria condição de cronista, ela também se vale muitas vezes da metalinguagem e promove reflexões variadas sobre a crônica, sobre a escrita, sobre a publicação.

Conta muito de onde parte o olhar dessa cronista. Trata-se de uma pernambucana que vive no Rio Grande do Sul e tematiza as classes de baixa renda e o proletariado. Como mulher e negra, o machismo e o racismo, evidentemente, são pautas que surgem em sua crônica, porque, afinal, é algo que precisa enfrentar no cotidiano. É ótimo que a crônica hoje dê voz a essas pessoas, em uma perspectiva crítica.

Deve-se destacar as homenagens que faz a bell hooks, a Rita Lee, a Lygia Fagundes Telles, porque não são vazias e protocolares, mas criativas e inspiradas, valendo-se de tudo o que a crônica pode oferecer. Também se percebe que as construções poéticas são importantes para ela, que usa o gênero para escrever o que poderia ser chamado de “cartas”, dirigidas a um você não identificado, mas importante.

Dá gosto ler uma cronista como ela. Nathallia mostra que a crônica continua muito viva. Talvez a gente nunca mais consiga repetir a era de ouro do gênero, mas é que os tempos são outros, e o que importa é que a crônica continua relevante, capaz de promover diálogos com nossa vida contemporânea e, de quebra, provocar “prazer estético” e tudo que se convencionou esperar da literatura, alta ou ao rés-do-chão.

Diante disso tudo, não há a menor justificativa para que "A faxineira mais bem paga do Bom Fim" (Editora Zouk) não tenha estado entre os semifinalistas do Jabuti – sua ausência chega a ser até escandalosa. Ao menos, venceu o Prêmio Sabiá.
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