Brasil, 1866. A escravidão institucionalizada ainda era uma dura realidade e milhões de seres humanos pretos, escravos, livres ou libertos eram cotidianamente submetidos a humilhações, explorações e a um racismo abjeto cujas pérfidas sementes ainda se fazem germinar entre nós mais de 170 anos depois. Nesse ano, em São Paulo, vivia Teodora Dias da Cunha, africana de nascimento, trazida à força de sua terra além mar e escravizada no Brasil. Detida como suspeita de cumplicidade num roubo cometido pelos “escravos de ganho” Claro Antônio de Santos e um certo Pedro, “Tiodora” como era conhecida, teve apreendidas pelas autoridades cinco cartas, escritas a seu pedido por Claro, em que ela tentava se comunicar com seu marido (vendido para outro fazendeiro) para obter recursos com o intuito de comprar a sua alforria.
As cartas nunca chegaram ao seu destinatário mas, hoje em poder dos historiadores e autoridades no assunto escravidão, constituem importantes fontes históricas pois dão voz a uma mulher preta escravizada que, assim como suas irmãs, era simplesmente silenciada por uma realidade escravocrata e patriarcal.
Marcelo D´Salete, autor de HQs, ilustrador e professor, graduado em Artes Plásticas e mestre em História da Arte, autor do excelente “Angola Janga” (2017) e artista premiado, imaginou um final alternativo para a epopeia das cartas de Tiodora neste também excelente livro ilustrado (ou graphic novel) “Mukanda Tiodora” (Mukanda = carta, missiva em Quimbundo, uma das línguas de origem Banto faladas em Angola).
Quadrinizada com esmero e com um excelente material de apoio (textos, tabelas, quadros comparativos, cronologia da escravidão em São Paulo), “Mukanda Tiodora” nos emociona e nos cativa mesmo ambientado num contexto histórico brutal como aquele e surpreende de forma positiva ao incluir como um de seus personagens, numa espécie de “participação especial”, o advogado, cronista e ativista anti-escravidão Luiz Gama (1830/1882).
Mais um grande trabalho do artista e professor Marcelo D´Salete.