Houve tempos piores, mas não se conhecem outros mais infames que este.
- Nadejda Khvoshchinskaia (1821-1889) -
Há cerca de dois anos, aquando da publicação de “Medos – Antologia de Contos Insólitos Russos”, critiquei a editora E-Primatur por ter lançado uma segunda colectânea de autores russos sem um único vestígio feminino pelo meio. É, juntamente com a Cavalo de Ferro e a Antígona, a editora que mais respeito pelas suas opções arrojadas (clássicos e autores praticamente desconhecidos por cá) e pelas suas traduções/revisões irrepreensíveis, mas ao contrário daquelas duas, dá muito pouca relevância às escritoras, que devem contar-se pelos dedos de uma mão no seu catálogo. Larissa Shotropa, responsável pelas prévias recolhas cheias de testosterona, está agora de parabéns pelo magnífico trabalho que fez em “Os Imbecis e Outros Textos Clássicos de Escritoras Russas”, reconhecendo que “a ausência de escritoras russas representa um enorme vazio” nas livrarias portuguesas.
Infelizmente, uma “escritora esquecida”, como fenómeno cultural na Rússia, é quase um cliché.
A uma soberba introdução (“Contrariando o esquecimento”), essencial para se perceber por que só os russos e não as russas fazem parte do cânone, seguem-se 30 contos ou poemas de 13 autoras que escreveram no século XIX e no início do século XX, todas elas com notas biográficas que, muitas vezes, superam os contos em si.
Sofia Kovalevskaia (1850-1891): “Na Rússia, no final do século XIX, as mulheres não tinha a oportunidade de ingressar no ensino superior. Havia, isso, sim, a possibilidade de continuarem os estudos no estrangeiro, mas para isso era necessária a autorização escrita do pai, do tutor ou do marido. Porém, o pai de Sofia, tenente general da artilharia (…) recusou-se categoricamente a deixar a filha partir; então, a jovem convenceu um amigo da família (…) a contrair um casamento fictício para poder sair da alçada do pai."
Lidia Zinovieva-Anniball (1866-1907): “A primeira tentativa de os pais a enviarem para a escola correu mal: foi imediatamente expulsa por rebelião. Decidiram então que Lidia iria estudar na Alemanha, nunca escola de diaconisas, o que também não resultou: foi novamente expulsa por ter um comportamento rebelde. (…) Em 1893, depois de ter abandonado o marido, viajou pela Europa.”
Lidia Charskaia (1875-1937): “Após a Revolução de Outubro, Charskaia, como muitos escritores de origem nobre considerados depositários de “visões burguesas fúteis”, foi banida; os seus livros foram classificados como “literatura de pouca qualidade e de mau gosto”, a ponto de nas escolas se fazerem “julgamentos públicos” dos seus livros. (…) Nas escolas, a maior ofensa para uma menina era a acusação de se parecer com as alunas dos colégios dos livros de Charskaia. (…) Viveu os seus últimos anos numa pobreza extrema, sobrevivendo com os donativos e a ajuda daqueles que conheciam a sua situação deplorável.”
Há, ainda assim, autoras com percursos mais pacíficos e agraciadas até com elogios unânimes.
Anna Bunina (1774-1829): “Poetisa e tradutora, recebeu dos críticos da época os epítetos de “Safo Russa” (…) Anna Akhmatova referiu-se a Bunina como “a primeira poetisa russa”. (…) Foi a primeira mulher na Rússia a viver da criação literária; conseguiu ocupar um lugar digno na história da literatura russa, retratando com um talento extraordinário os mais diversos temas históricos e sociais."
São exemplos em que a vida supera, de facto, a arte, mas há o caso especial de Nadejda Durova (1783-1866), responsável por um dos meus contos preferidos desta colectânea, “A Fonte Sulforosa”, que me fez lembrar Chinghiz Aitmatov, cuja vida dava um filme. Rejeitada pela mãe e criada por um amigo do pai, desenvolveu uma enorme paixão pelos animais e uma intrepidez notável. Forçada a casar-se numa tentativa de a controlarem, acabou por cortar as tranças, envergar um uniforme cossaco e apresentar-se num regimento como Aleksandr. Depois de 10 anos a servir no exército, com o apoio de Pushkin, dedicou-se a escrever contos e romances onde a sua maior preocupação era a diferença de estatuto entre homens e mulheres.
Enquanto oficial do Exército Russo, Nadejda participou nas Guerra Napoleónicas como cavaleiro. O destino desta mulher, que usou roupa de homem um nome masculino durante quase 60 anos, foi absolutamente invulgar e heróico. (…) A lendária jovem da cavalaria, que surpreendeu o próprio imperador com o seu mérito, morreu aos 83 anos e foi enterrada com todas as honrarias militares.
É importante dizer que não duvido do valor literário e cultural das histórias escolhidas, mas poucas vieram ao encontro do meu gosto, que é bastante específico no que toca à literatura russa. No fundo, com a excepção de Pushkin e Tchékhov, dispenso a ficção curta produzida na Rússia do século XIX, que acho bafienta, moralista e miserabilista. Não me espanta, pois, que a estrela de “Os Imbecis” tenha sido Nadejda Teffi, que escreveu já no século XX, tendo conquistado o epíteto de “rainha do humor russo” e admiradores como Nicolau II e Lenine. É dela o conto que dá título a esta obra, que acaba por ser ultrapassado em qualidade por “Anteu”, “Os ‘nossos’ e os ‘estranhos’: uma história” e “O tesouro do mundo”. Tal como as minhas autoras russas preferidas, Teffi emigrou para França após a Revolução de Outubro, tendo sido publicada no seu país natal com prefácios que reinterpretavam os seus contos de acordo com o regime vigente e os submetiam à censura.
Não foi da morte que tive medo. Tive medo de focinhos raivosos que apontavam a lanterna directamente para o meu rosto, tive medo da raiva estúpida e idiota. Do frio, da fome, da escuridão, dos gritos, do choro, dos tiros e da morte de outras pessoas. Estava tão cansada de tudo.