Tubarão é uma história de paixão e perigo. A epopeia erótica de um personagem de frente para uma obsessão. O texto é desobediente e brutal, se dirigindo a você – a destinatária, personagem com quem a narradora contracena. A narrativa se revela pela sucessão de imagens em movimento, e os personagens se mostram a partir das ações. No livro, escrever e se apaixonar são ações semelhantes, que se contaminam. A intimidade é uma revelação e o perigo ronda o livro na figura do tubarão. “Pelo conceito biológico de espécie, há duzentos milhões de anos, é a primeira vez que um peixe se parece com uma diegese", escreve Bruna Beber, que assina o texto de orelha. "Falta nesse livro só um galão de gasolina". Maria Isabel Iorio acerta em cheio na lembrança de que estamos terrivelmente vivos. E a vida pode ser inventada com êxtase.
em qualquer desenho feito à mão, um tubarão é desenhado de lado. assim as pessoas não o encaram de frente. é uma técnica de autopreservação. já eu, tenho outros interesses.
Tubarão me engoliu. Já repeti muitas vezes que gosto da escrita da Maria Isabel Iorio, mas esse livro tá um primor. Um jogo visual que não se leva tão a sério, mas leva o amor a sério demais. Como deve ser.
UAU. Que livro eletrizante. Comecei a ler era umas 22h40. Acabei agora 0h55. Li pausando porque são doses intensas de um filtro criterioso mas cortante. Senti tesão, pavor, alegria, rancor, inveja e ternura. Tão bem escrito. Visceral. Uma vez eu sonhei que caía no mar sangrando e era devorado por tubarões. Me senti revivendo esse sonho estranho. E penso que o tesão vem menos pela insinuação de sexo lésbico (eu sou gay) e mais por essa fome mesmo de estar presente e se fazer presente diante do outro. E inveja, porque por mais que tenha vivido amores inconstantes, nenhum deles me atravessou com tanta ira. Talvez um, mas o fato de que eu mesmo duvide indica que não não foi unanimidade. Eu não fumo cigarro, mas fumaria um cigarro com a Isabel. Parece o certo a ser feito.
"Tubarão" parece dilacerante à primeira vista, mas se revela frágil, como uma criança ou um doente — são tão parecidos, não? — porque é assim que nos deixa o desejo. Pela variação entre os pronomes feminino e masculino, vou oscilando entre a vontade de penetrar e ser penetrada, de morder e ser mordida. Um livro transespécie, muito mais bicho que gente.
Caminhei pela vivência de Maria Isabel, imaginando seus olhos doces, enquanto ela amava, rasgada, sua musa. Pesquisei imagens da musa, tentando entender, até perceber que nem Maria Isabel nem a outra eram quem mordia na escrita.
Foi aí que entendi: ela cumpriu seu papel. Uma novela sapatão que vai costurando cada linha de calça quadriculada, colando cada armação de cada óculos de lente amarelada, cacheando os cabelos com cheiro de cigarro. Cheguei ao ponto de buscar o prédio que ela desenha, pra imaginar melhor. Mas Tubarão te leva até um certo ponto da verdade; o resto é com a gente.
Tubarão — o último livro lançado por Maria Isabel Iorio — é meio prosa meio poesia. Cenas em movimento constante; imparáveis, inevitáveis. Se houvesse algum freio iríamos usar os dentes para arrancá-lo do carro acelerado. Terrível, engraçado e — antes de tudo — sexy; é uma mordida inseparável do corpo. Tudo que você quer e nada do que você precisa. Perigo e Paixão. É a curiosidade e prazer de queimar a mão no fogão para descobrir a textura do fogo pela primeira vez.