“A Conversa” demorou um pouco para me fisgar. Eu não fui a maior fã da arte e, no começo, embora didático, o livro não parecia oferecer muito para alguém que já conhece mais questões de raça. No entanto, ao longo da obra, o autor surpreende ao trazer, através de momentos reais da vida dele, exemplos muito particulares, mas também muito cotidianos de racismo nos EUA. Momentos que quem não vive diariamente às vezes deixa passar despercebido.
Uma questão que eu nunca tinha considerado e que me marcou profundamente foi a constante dúvida de não saber até que ponto o que estava acontecendo com ele era uma questão pessoal ou racial. Essa sensação de não saber se os outros estão vendo mais do que só a cor da sua pele, se aquilo é um reflexo de quem ele é ou só fruto do preconceito intrínseco americano, foi algo que me doeu particularmente pela sensibilidade que o autor usa para essa discussão.
Outro momento que me marcará ainda por muitos anos foi a relação dele com o pai, que tentou protegê-lo do racismo através do silêncio, ao contrário da sua mãe, que tentou fazê-lo através da informação. Isso enfatizou para mim a importância da verdade, da clareza e entendimento do mundo em que vivemos, de que conhecimento não precisa ser falta de esperança, mas uma maneira de se preparar e proteger.
A visão dele sobre pessoas brancas e uma possível reconciliação também foi impressionante. Tudo foi feito de forma tão clara e cuidadosa que eu genuinamente sinto que a minha própria visão de raça foi transformada para melhor compreender que, sim, eu também sou parte do problema, mas eu posso - e devo - ser parte da solução.
Dei 5 estrelas, porque achei um livro fenomenal. Entretanto, depois que acabei, eu descobri que o autor foi preso duas semanas antes por posse de pornografia infantil. Isso afetou minha relação com a obra de muitas formas.