Quando a mãe é encontrada em situação de abandono no próprio apartamento, Laura, uma jornalista que vive sozinha, precisa passar a conviver com a mulher que ama e odeia ao mesmo tempo, abrindo velhas e novas feridas.
"Uma duas" nos apresenta a história de uma mãe e uma filha em conflito, por meio de três narrativas diferentes: uma em terceira pessoa, com as interações de Laura com outras pessoas; outra em primeira pessoa, no manuscrito de Laura sobre como a mãe a feriu; e, por fim, outro manuscrito, com a versão de Maria Luisa, a mãe, sobre sua própria incapacidade de amar.
A escrita desse livro é crua e até escatológica, do início ao fim. Laura disfarça para outras pessoas a aversão que sente pela mãe, mas não a esconde do leitor. Não existem eufemismos, vergonha ou pudor, e somos conduzidos em três linhas de narrativas não-confiáveis, recebendo a possibilidade de confrontar cada uma delas. As palavras são um elemento bastante importante, não só pelos relatos, mas também pela dificuldade de comunicação das personagens.
Acho importante dizer que esse é um livro em que os julgamentos morais precisam ser dispensados. Julgar as personagens pelo que fazem de errado, consigo mesmas e uma com a outra, me parece uma leitura muito superficial. Mais importante é entendermos como cada uma se afunda no próprio mundo, e como é difícil sentir apenas amor ou apenas ódio, sem deixar que uma coisa se misture com a outra.
Em uma história curta, porém densa, Eliane Brum questiona o amor maternal e os laços familiares, abordando também depressão, automutilação e abuso sexual. É um livro duro, que apesar da pouca quantidade de páginas, eu li devagar, pesando a intensidade de significados em cada narrativa.