O Duplo foi publicado em 1846, poucos meses depois de Gente Pobre, primeiro romance de Dostoiévski, então com 24 anos. Muitas das inquietações do autor estão já presentes neste uma história de um funcionário público obcecado pela existência de um colega, réplica de si próprio, que lhe usurpa a identidade, acabando por levá-lo à insanidade mental e à rutura com a sociedade. A afirmação da liberdade individual contra instituições e normas existentes é precisamente o tema central do livro, ainda que sobressaia a compaixão pela condição dos humilhados, outra recorrência na obra do autor.Com uma riqueza de recursos estilísticos admirável - comparada, por Nabokov, à de James Joyce - este é um romance intensamente criativo, que rompe com as convenções literárias.
Com uma escrita densa e introspectiva, Dostoiévski já começa em O Duplo a explorar temas que desenvolveria mais profundamente em obras posteriores, como fragmentação da personalidade, alienação e crise existencial. Goliádkin vive um desconforto intenso diante das pressões de pertencimento, status e validação social, e essas tensões externas se internalizam, dando lugar a um processo de autossabotagem inconsciente.
A narrativa deixa ambígua a linha entre realidade e delírio, fazendo o leitor questionar se o duplo é real ou apenas uma projeção da mente do protagonista. Apesar do terror psicológico, há momentos de humor e absurdo que amplificam a vulnerabilidade humana, tornando a leitura simultaneamente angustiante e fascinante.
Embora escrita muito antes da psicologia moderna, a obra ressoa com conceitos junguianos de projeção da ‘sombra’, oferecendo uma interpretação contemporânea sobre a complexidade da psique. Tudo isso se passa em um retrato vívido da Rússia do século XIX, marcada por rígida hierarquia social e burocracia sufocante, reforçando o deslocamento do protagonista e a universalidade de seu conflito interno.