“No momento em que morreu, Joaquim escrevia um livro que nunca me mostrou. Meu pai, meu estranho. Ouvi falar da sua obra inacabada desde criança. Onde guardar a dança da mão direita do escritor, enquanto projectou o romance, toda a vida adulta, o pontilhado de gestos abortados, os rascunhos‐fantasma, tentativas, planos, ou seriam sonhos, a energia despendida, o fogo de que irradiavam ideias que jamais viram a luz? O que restou foi o vazio. Mas talvez o vazio seja um lugar — uma cidade — repleto de avenidas.”
Livro composto de vários livros, finais e andamentos, Livro da Doença tem na sombra um livro inacabado e nunca lido por Djaimilia Pereira de Almeida, à volta do qual se constitui uma elegia pelas várias mortes e nascimentos da imaginação.
DJAIMILIA PEREIRA DE ALMEIDA nasceu em Luanda em 1982. É licenciada em Estudos Portugueses, pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e Mestre em Teoria da Literatura (2006) e Doutorada em Estudos Literários (Teoria da Literatura) (2012), pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Em 2013, foi uma das vencedoras do Prémio de Ensaísmo serrote atribuído no Brasil pela revista serrote, do Instituto Moreira Salles. Fundou e dirige a Forma de Vida (www.formadevida.org). Trabalha na Fundação para a Ciência e a Tecnologia e é, desde março de 2021, consultora da Casa Civil do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.
Em março de 2025 comprei o primeiro livro de Djaimilia Pereira de Almeida. Não conhecia nada da autora, escolhi-o pois creio que era o mais recente. Em dezembro deste ano, por impulso, tirei-o finalmente da estante. Após uma leitura espaçada, terminei o livro anteontem. Entretanto, estava longe de prever que, como por funesta magia, eu próprio iria perder neste período em que lia o “Livro da Doença” o meu pai. Eis, pois, um livro de luto e um leitor de luto. Uma comunhão na perda e na sobrevivência à perda. Antes do dia fatídico recordo-me de pensar que o livro mais ou menos a partir das 100 páginas (do terceiro capítulo em diante) parecia estagnar, conhecida que estava a premissa. Como se desse uma volta sobre si mesmo e regressasse ao início. Isso fez-me desacelerar a leitura na altura. Mas, com os acontecimentos dos últimos dias, dei por mim a querer eu próprio retomar um tempo em que o meu pai estava vivo, reviver cada momento como se pudesse eu agora fazer tudo certo, saborear cada instante. Só então compreendi como uma certa estrutura circular da escrita de Djaimilia Pereira é, creio, a escrita desse luto, de um processar lento que volta ao mesmo, que quer compreender esse vazio. No seu caso querer imaginar o livro inacabado, ao mesmo tempo que este deve permanecer aberto para que o seu pai não desapareça em definitivo. Não, isto não é uma impressão crítica ao “Livro da Doença”, embora me agrade pensar que escrever seja, no caso, o melhor dos exorcismos, sobretudo quando fechado num livro, numa obra acabada, mais protegida da circulação do ódio do momento das redes sociais. Quase no fim, Djaimilia escreve: “Podia escrever para sempre este livro, mas seria o mesmo que deixar o meu pai morrer para sempre. Para que ele ressuscite, é preciso que a sua voz cesse. É preciso que cesse o meu egoísmo de querer ouvi-lo para sempre.” Ontem mesmo sonhei que conversava com o meu pai, não sei se dormindo, ou se entre o sono e a vigília. Hoje que já terminei o “Livro da Doença” — que no caso do meu pai, foi súbita — aprendo que é preciso começar a afastar a sua voz e compreender a sua presença na luz das coisas, como um silêncio que lentamente floresce. Ou como diz Djaimilia, que ressuscita.
a escrita da djaimilia é um negócio inexplicável, de ter que ler com calma pra conseguir acompanhar os pormenores ao mesmo tempo que ela joga umas coisas que são como um susto, como se no meio do marasmo viesse um murro inesperado
O último antes das férias. A escrita da Djaimilia é um portento. Acabo sempre rendida…e profundamente saciada! ❤️
“Há um silêncio atrás da página, como há dentro dos olhos de algumas pessoas sorridentes.”
“…se calhar existe no mundo alguma coisa muito bela que é parecida com uma mulher livre quando ainda não sabe que o é, que não sabe o que fazer com a liberdade, e se agora, fora de brincadeiras, me ensinasses, pai, a caminhar pelo meio da estrada?”
“A lápis ou a tinta, conservo o meu pai em movimento perpétuo. “
“Quero entupir-me daquilo em que me distingo dos outros, pois apenas assim posso expiar o que não me lembro de ter feito.”
“"Povo" escreve-se com maiúscula. Povo.”
“O meu pai foi o meu primeiro livro.”
“Só eu posso sonhar o meu sonho e não posso decidir o que sonho. A sonhadora sou eu, mas o sonho é que manda.”