Que me desculpem os leitores mais sensíveis, mas eu não sou apologista de trigger warnings (gatilhos) no geral, antes de mais por serem potencialmentespoleirs, no entanto, há um comentário de que nunca me abstenho que é o da violência contra os animais, não porque seja mais grave do que a violência contra os humanos, antes porque geralmente não acrescenta nada à história para lá de proporcionar o fator choque. Numa obra de ficção, por muito que me impressione, percebo a importância de cenas de guerra, de violação, de maus tratos infantis e violência doméstica, por exemplo, como enredo e como caracterização das personagens; já atos bárbaros contra os animais, com pormenores escabrosos, acho de uma gratuitidade tremenda.
Esta obra abre com uma cena desse calibre contra o cão da família e não encontro justificação para ela, a menos que Gyuri, o pré-adolescente que a protagoniza, fosse um psicopata em estado embrionário, que não me parece o caso. É um miúdo mimado, desocupado, frio, conflituoso e confuso a quem os pais, altos funcionários do Partido Comunista húngaro, não prestam muita atenção. “A Bíblia” é, por conseguinte, uma mera e trivial história de formação que aborda o despertar sexual…
Abriu a boca com desprezo, olhando-me de cima a baixo:
- Nem sequer beijar sabes! Em Németland toda a gente sabe – disse ela, pegando na bola e fugindo com ela para a rua.
…com a particularidade de se situar na Hungria dos anos 50, onde se põe em causa a religião…
- Ai tu também és comunista? – perguntou, erguendo o olhar para mim.
- Claro! – respondi orgulhosamente. – Essa é a diferença entre nós, tu acreditas em Deus e nós somos comunistas. Tu acreditas em Deus, podes dizê-lo sem problemas… eu também andei na catequese.
Voltou a erguer o olhar e na sua expressão vi que gostaria de perguntar: Então os comunistas também andam na catequese?”
- Só porque era obrigatório, claro – acrescentei.
…e se sublinha as questões de classe.
- A senhora disse-me que hoje podia ter a tarde livre, porque no domingo temos visitas…
A minha avó olhou para ela com raiva e não se deixou convencer.
- Em primeiro lugar, eu já disse várias vezes que não é “senhora”, mas sim “camarada”, em segundo lugar pode sair amanhã. Hoje é preciso passar a ferro.