Em novembro de 2006, Paulo Cesar de Araújo lançou Roberto Carlos em detalhes, primeira biografia de fôlego do maior ídolo da música brasileira. A recepção imediata do livro foi proporcional ao tamanho da empreitada. Em poucos dias, ele ganhava resenhas entusiasmadas e atingia a lista de best-sellers. Não foi para menos: o trabalho consumiu dezesseis anos de pesquisa, contou com centenas de entrevistas com as maiores personalidades da MPB e figuras-chave na vida do cantor, e condensava em uma narrativa ágil e equilibrada todo o percurso do ícone da Jovem Guarda. Mas a boa onda duraria pouco. Em sua coletiva de Natal daquele ano, Roberto Carlos reagiu com virulência quando indagado sobre o livro. Acusando o autor de invadir sua privacidade, disse que o caso já estava com seus advogados, que em breve entrariam na Justiça para impedir a circulação da biografia. Em 10 de janeiro de 2007, o rei de fato bateu às portas dos tribunais contra o autor e sua então editora. Foi o início de uma rumorosa batalha judicial, dolorosíssima para todas as partes, e também de uma das mais graves agressões à liberdade de expressão na história brasileira recente. A reação que se seguiu à notícia de que Roberto Carlos propusera ações nas esferas cívil e criminal contra Paulo Cesar - que resultaram na apreensão do livro - ocupou os principais veículos de comunicação do país e alguns no exterior. A polêmica envolveu não só personalidades da política, da cultura e das artes no Brasil, como pessoas comuns, que comentavam avidamente o caso, em redes sociais, blogs, praças, praias, bares. Nunca antes o debate sobre a proibição de uma obra alcançou tamanha repercussão no país. O livro conta a história interna dessa história. Os detalhes, os bastidores. Trata de música e censura. De artistas e advogados. De entusiasmo juvenil e audiências judiciais. Da busca por fontes e negativas. Da luta entre liberdade de expressão e controle da informação. É, antes de tudo, a história de um biógrafo que tenta encontrar sentido nos anos dedicados a estudar a trajetória de seu ídolo na música brasileira. É uma história ainda sem ponto final, mas sobretudo por isso necessária, que deve ser lida por todos os que se interessam pela discussão em torno da liberdade de expressão em nosso país.
É baiano de Vitória da Conquista, formado em história pela UFF e em jornalismo pela PUC-RJ. Especialista em música popular brasileira, além de Roberto Carlos em detalhes (Planeta, 2006), é autor de Eu não sou cachorro, não (Record, 2002), obra que revelou a censura à música brega durante a ditadura militar. Atualmente é professor da rede Faetec e do departamento de comunicação social da PUC-RJ.
Passaram-se semanas. Ainda bem. Se eu escrevesse este texto há vinte dias, logo depois de concluir a leitura de O Réu e o Rei, de Paulo César de Araújo, teria começado o texto com impropérios. Muitos impropérios, aliás. Dirigidos, claro, contra aquela que considero a personalidade mais abominável da nossa música: Roberto Arght Carlos.
Mais do que um relato simples, direto e revoltante do abominável caso de censura envolvendo o cantor fanho e perneta e o biógrafo, O Réu e o Rei é uma história de deslumbramento, superação, descoberta e decepção. No livro, o cantor imbecil é personagem secundário; o protagonista é mesmo Paulo César de Araújo, que narra décadas de adoração que foram jogadas no lixo dentro de uma salinha num tribunal de São Paulo.
Aí reside a maior qualidade e o pior defeito de O Réu e o Rei. Paulo César de Araújo pinta para si mesmo um “retrato sócio-cultural” que por vezes cansa o leitor. Em certo momento, fica-se com a impressão de que a violência de que Paulo foi vítima se deveu mais à sua origem humilde, o que evidentemente não é o caso. Ao mesmo tempo, trata-se de uma abordagem corajosa, emotiva e intelectualmente honesta – o que sempre é bom exaltar.
Roberto Arght Carlos e seu comportamento abjeto são dignos de estudos sobre psicopatias. Trata-se de um ego que se considera acima do bem e do mal. E que, infelizmente, encontra respaldo jurídico (e cultural) para tanto. O episódio da audiência em São Paulo, aquela na qual o excelentíssimo juiz pediu autógrafo a uma das partes, é revoltante. Sem exagero, ao ler estas passagens eu virava as páginas e gritava obscenidades para o quarto vazio. É, com o perdão do termo (o mais ameno possível), escroto.
Aliás, talvez sem querer Paulo César de Araújo acabe por criar um retrato bastante preocupante do nosso sistema jurídico. Não apenas por conta do juiz/compositor evidentemente ansioso por entregar seu trabalho ao reizinho e, quem sabe, ter uma música gravada na voz famosamente fanha do ídolo, como também por conta do caráter gelatinoso dos advogados envolvidos no caso, dos argumentos baseados em manipulações grotescas e do mais preocupante: a consciência que se vende por qualquer trocado.
Digno de menção é também o relato direto e nada diplomático (como seria de esperar no complexo mercado editorial brasileiro) que Paulo César de Araújo faz da subserviência da poderosa editora Planeta diante das ameaças daquele Cujo Nome Me Provoca Ânsia de Vômito. A opção editorial e política por não brigar com o censurador é vergonhosa e incompreensível, em se tratando de um dos maiores conglomerados editoriais do... planeta.
Ao narrar toda a saga de entrevistas que o levou a escrever a biografia de Roberto “Arght” Carlos, Paulo César de Araújo também mostra um pouco do caráter esquizofrênico do mundo artístico brasileiro: “jênios” louvados por lutarem contra a ditadura que, uma vez expostos à liberdade própria e alheia, não hesitam em assumir uma postura autoritária e proibir textos biográficos. Isso sem falar na mesquinharia de intelectos limítrofes como o de Djavan, para os quais a questão é meramente financeira.
Mas atenção: a leitura de O Réu e o Rei tem um perigoso efeito colateral: é praticamente impossível continuar ouvindo as músicas do Néscio Real. Para mim, o efeito colateral foi potencializado: não consigo ouvir nenhum dos “jênios” da chamada Máfia do Dendê (apud André Forastieri, se não se engano) sem sentir nojo.
Por último, vale a pena notar que O Réu e o Rei é também um livro “malandrinho”. Aqui e ali, o livro dribla a censura e cita e comenta todas as passagens que poderiam ter motivado a proibição da famigerada biografia do Monarca Abjeto, como as orgias da Jovem Guarda e a amputação da perna. Paulo César de Araújo menciona até mesmo piadas deliciosas do fictício jornalista Agamenon, que não poupa críticas pesadas – e muito engraçadas - ao Reitardado.
É o humor que consola. Até que, claro, resolvam proibi-lo também. O que, infelizmente, é uma possibilidade.
_______________________________ * Em certo momento do livro, Paulo César de Araújo gentilmente menciona o perfil biográfico de Manuel Bandeira que escrevi e que também foi censurado pela família do poeta. Mas o caso do meu livro é bem diferente. Em breve, pretendo contá-lo em mais detalhes. Nada muito dramático; só para esclarecer algumas coisas.
Quando o livro "Roberto Carlos Em Detalhes" sumiu das prateleiras em 2007, recolhido por ordem judicial, eu nada sabia sobre o autor e não tinha interesse no cantor, já então (para meu gosto) um artista decadente e invasivo, que remetia ao popularesco calendário de fim de ano da TV aberta. Não me interessei pelo livro e provavelmente aceitei da imprensa os argumentos favoráveis à suposta "invasão de privacidade" do Rei que o livro acarretara, razão pela qual provavelmente dispensei-o como trabalho de um aproveitador.
A gente se engana muito nesta vida.
"O Réu e o Rei" é, como a contracapa diz, a tentativa de Paulo Cesar de Araújo encontrar sentido na proibição do livro que foi resultado de 15 anos e mais de 170 entrevistas com personagens com todo grau de relacionamento possível com Roberto Carlos. É a história de um escritor projetado nacionalmente como um injustiçado pelo desequilíbrio alheio, e repentinamente tornado uma espécie de mártir em vida em prol da liberdade de expressão no Brasil, este País onde a toga mata obras de acordo com a interpretação de artigos conflitantes na Constituição e deletérios no Código Civil.
Quando peguei o livro emprestado, achava que seria um mimimi de 500 páginas, mas me surpreendi -- além de uma bela introdução à obra e fases de Roberto Carlos, uma espécie de resumo executivo de "...Em Detalhes", o livro se expande à medida que os autos do processo são registrados, colocando um contexto que envolve artistas, Congresso, juristas e o famigerado grupo Procure Saber, que deixou todo mundo de queixo caído há uns dois anos. É difícil não ler o livro e não ter raiva da estupidez do mais popular e esquisito cantor do País, que termina pintado (por estrita razão de seu comportamento e declarações públicas) como uma espécie de Michael Jackson à brasileira, um artista de passado significativo e influente que desandou na terceira idade, afetado por seu TOC, suas tragédias pessoais e seus assessores mercantilistas e intensamente voltados à defesa desse patrimônio pecuniário que anda sobre duas pernas, uma delas mecânica.
"O Réu e o Rei" é uma leitura, quem diria, fundamental. Para entender como algumas coisas realmente funcionam nesse País, em especial a Justiça. Oxalá seja um texto-arauto que impressione o STF em prol da revisão de idiossincrasias jurídicas que tornam a redação de biografias, esteja o objeto de estudo vivo ou não, uma atividade de alto risco.
Fiquei impressionado com a destreza de Paulo Cesar de Araújo em passar tantas informações com tanto cuidado e precisão dos fatos, muitos deles naturalmente envolventes - como a própria narrativa autobiográfica, relatando sua admiração ao cantor biografado desde a infância - mas muitas outras que poderiam cair no enfadonho informativo jurídico, o que jamais acontece. A leitura deste livro me tirou o sono tanto pelo envolvimento narrativo e pela interessante rede de acontecimentos e personagens, quanto pela indignação sobre como a maldade e a mesquinhez de uma pessoa pode levar ao engano coletivo e à calúnia sobre uma obra ou seu autor. Como o próprio Paulo Cesar aponta, foram desdobramentos e interpretações kafkianas ou dignas de um teatro do absurdo. Um retrato de um país que tem toda sua peculiaridade seletiva sobre a quem se curva e quem se condena.
Nunca comprei sequer um disco do Roberto Carlos e provavelmente não leria a sua biografia. Acho o cara uma mala. Li O Rei e o Réu, curiosa sobre a polêmica sobre as censuras a biografias não autorizadas. E é muito pior do que eu imaginava.
A proibição de “Roberto Carlos em detalhes” foi apenas o capítulo mais radical e polêmico dos litígios que no Brasil envolvem biografados, herdeiros, autores e editoras. Na opinião do jurista Gustavo Binenbojm, por trás dessa voracidade censória há, na maioria das vezes, mais interesse econômico que real preocupação em preservar a imagem do personagem. É o que ele chama de “monetização da história”, e exemplifica: “Há escritórios de advocacia que são constituídos como procuradores de figuras públicas e que buscam quantias milionárias para autorizar a publicação de determinada obra”.
(…) o imortal Carlos Heitor Cony alertou que, a prevalecer o critério da absoluta privacidade reclamada por Roberto Carlos, “se houver um descendente de Antônio Conselheiro ainda em atividade, ele poderá pedir que se recolham todos os exemplares de Os sertões”.
Artistas, políticos, empresários, intelectuais e até fãs do cantor concordam que ele comete uma insensatez ao insistir na proibição desse livro. É um desgaste incessante e desnecessário para a imagem do maior ídolo popular da história do país. Hoje, a situação de Roberto Carlos faz lembrar a dos senhores de escravos nas vésperas da abolição. Àquela altura, eles tinham a condenação moral de grande parte da sociedade e apenas uma folha de papel legal a lhes garantir a posse sobre seres humanos. Depois de tudo que aconteceu até aqui, é apenas uma folha de papel assim que permite a Roberto Carlos ser o triste senhor de um livro que outra pessoa escreveu.
(…) Antonio Penteado Mendonça afirmou que a maior vítima da legislação atual é a própria sociedade, privada de informações relevantes da sua história. “É uma situação incabível. Se a família do Hitler tivesse de autorizar a publicação da sua biografia, ela não mencionaria o Holocausto. A de Stálin, por sua vez, não citaria o Gulag. E a de d. Pedro I não teria a marquesa de Santos”.
Maravilhoso! Adoro como escreve o Paulo C. Araujo. Ja tinha gostado muito da biografia não autorizada do RC. Acho a proibição do livro ridícula, injustificável. Uma livro de só enaltece e me fez valorizar RC. Pois bem, eu agora compro todos os livros do autor, anda nao li o primeiro. Mas vou ler. A saga de sua vida desde o interior da Bahia ate hoje e uma história linda, de muito valor, disciplina e vontade de aprender. Recomendo muitíssimo o livro. E desejo todo sucesso do mundo ao Paulo C. Araujo. Avante sempre.